2003: esse ano foi o foda da nossa vida. Um pouco antes do seu meio, lá pela semana santa, apareceu um novo sintoma ruim de saúde em Terezinha, que era a impossibilidade de respirar quando se deitava para dormir, ficando na posição horizontal. Ela não o conseguia, sendo obrigada a dormir sentada, além de estar a cada dia ficando mais cansada com qualquer esforço, por mais simples que fosse. Era um sofrimento só, todas as noites, com ela sentada na cama, caindo de cansaço, mas com uma falta de ar que não lhe permitia deitar e eu aflito, pensando e tentando inúmeras saídas para esse novo mal. Pneumologistas, alergistas, cardiologistas,otorrinos, nefrologistas... Todas as especialidades médicas procuradas e nada. Mas ela não se abatia, nem desistia, e continuava a fazer as coisas todas, desde as aulas até as viagens, sendo a nossa última à Lavras Novas, antiga cidade-berço de escravos, próxima de Belo Horizonte, onde ela passou mal demais. Enfim, após ene exames, descobriu-se que determinada válvula do coração não estava mais bombeando o sangue da maneira devida, o que ocasionava todas as dificuldades de respiração dela, e que a saída era uma cirurgia. Corajosa como era, de imediato topou a operação. A partir daí foi uma imensidão de exames, de consultas de escolha do cirurgião, de escolha do local; em resumo, de providências burocráticas e pré-operatórias. Houve o apoio, mais uma vez, do Levy e de um médico conhecido do Centro, Dr.Fagundes, que se prontificaram a acompanhar a cirurgia. Infelizmente, com todos nós reunidos, recebemos a notícia de que, ao estar sendo finalizada a operação, os cirurgiões não conseguiram efetuar algumas costuras, em função do esgarçamento das fibras cordianas, resultado do uso, por muitos anos, de corticóides, e que Terezinha tivera paradas cardíacas causadoras de danos cerebrais. Foram mais de noventa dias de sofrimento de UTI, com alguns sinais ocasionais de melhora, que nos davam esperanças e logo se desvaneciam, e em dezoito de dezembro Terezinha passava para o Plano Superior, com a presença de todos nós em redor do leito hospitalar dela. Esta odisséia está sendo relatada de forma muito reduzida, por ser do conhecimento de todos, e ser muito dificil de relatar, pois fazê-lo é retornar aos dias de sofrimento e de esperanças pelos quais todos passamos. Terezinha, além de muito amada e muito importante em nossas vidas, foi companheira-símbolo de uma existência de feitos inenarráveis, épicos, pela entrega, dedicação a todos nós, garra, coragem, transparência e amor. Te amaremos para todo o sempre, eu em particular, com a certeza de que nos reencontraremos em alguma encarnação, com alguma ligação muito forte, pois fiquei te devendo ainda mais amor e dedicação do que te dei, em comparação com tudo que me destes. Madeira
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quarta-feira, 2 de julho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (2003)
2003: esse ano foi o foda da nossa vida. Um pouco antes do seu meio, lá pela semana santa, apareceu um novo sintoma ruim de saúde em Terezinha, que era a impossibilidade de respirar quando se deitava para dormir, ficando na posição horizontal. Ela não o conseguia, sendo obrigada a dormir sentada, além de estar a cada dia ficando mais cansada com qualquer esforço, por mais simples que fosse. Era um sofrimento só, todas as noites, com ela sentada na cama, caindo de cansaço, mas com uma falta de ar que não lhe permitia deitar e eu aflito, pensando e tentando inúmeras saídas para esse novo mal. Pneumologistas, alergistas, cardiologistas,otorrinos, nefrologistas... Todas as especialidades médicas procuradas e nada. Mas ela não se abatia, nem desistia, e continuava a fazer as coisas todas, desde as aulas até as viagens, sendo a nossa última à Lavras Novas, antiga cidade-berço de escravos, próxima de Belo Horizonte, onde ela passou mal demais. Enfim, após ene exames, descobriu-se que determinada válvula do coração não estava mais bombeando o sangue da maneira devida, o que ocasionava todas as dificuldades de respiração dela, e que a saída era uma cirurgia. Corajosa como era, de imediato topou a operação. A partir daí foi uma imensidão de exames, de consultas de escolha do cirurgião, de escolha do local; em resumo, de providências burocráticas e pré-operatórias. Houve o apoio, mais uma vez, do Levy e de um médico conhecido do Centro, Dr.Fagundes, que se prontificaram a acompanhar a cirurgia. Infelizmente, com todos nós reunidos, recebemos a notícia de que, ao estar sendo finalizada a operação, os cirurgiões não conseguiram efetuar algumas costuras, em função do esgarçamento das fibras cordianas, resultado do uso, por muitos anos, de corticóides, e que Terezinha tivera paradas cardíacas causadoras de danos cerebrais. Foram mais de noventa dias de sofrimento de UTI, com alguns sinais ocasionais de melhora, que nos davam esperanças e logo se desvaneciam, e em dezoito de dezembro Terezinha passava para o Plano Superior, com a presença de todos nós em redor do leito hospitalar dela. Esta odisséia está sendo relatada de forma muito reduzida, por ser do conhecimento de todos, e ser muito dificil de relatar, pois fazê-lo é retornar aos dias de sofrimento e de esperanças pelos quais todos passamos. Terezinha, além de muito amada e muito importante em nossas vidas, foi companheira-símbolo de uma existência de feitos inenarráveis, épicos, pela entrega, dedicação a todos nós, garra, coragem, transparência e amor. Te amaremos para todo o sempre, eu em particular, com a certeza de que nos reencontraremos em alguma encarnação, com alguma ligação muito forte, pois fiquei te devendo ainda mais amor e dedicação do que te dei, em comparação com tudo que me destes. Madeira
vivencias-madeira-cronológica (2001/2002)
2001/2002: além da rotina, que não poderia ser completa, pois algo sempre acontece no viver, tivemos a mudança de curso de Terezinha, que passou no vestibular da UFES, para artes visuais (ela sempre teve muito bom gosto para essa área), e com isso trancou o curso de pedagogia que fazia na FAESA, para retomar depois de concluir esse novo curso. Foi muita alegria, pois era e é um vestibular muito difícil, concorridíssimo, e ela, com aquela garra incrível, incomensurável, venceu. Filhos formados e pós-graduados, netos crescendo sem maiores problemas, D.Hilda bem, tinha que pintar algum problema, e a fonte teria que ser uma ação minha. Fiz mais uma cagada - e essa fenomenal, por ter ferido Terezinha -, que foi um envolvimento extra-conjugal absurdo, que graças aos nossos mentores não se consumou, nem foi pior. Também não o foi porquê, ao ser descoberto, de imediato joguei a toalha, chutei tudo aquilo que estava fazendo de errado, conversei muito com Terezinha, assumi o erro e ela, que é um espírito esclarecido, aceitou minhas desculpas e acreditou em mim. Apesar de tê-la ferido muito, consegui estancar os ferimentos e retomar a vida de amor e respeito a ela. Com o Espiritismo, aprendi que não se deve ter remorso e sim arrependimento; que este é útil e deve ser praticado, e aquele é negativo e não pode ocupar qualquer espaço em nossa mente e em nosso coração. Assim, até hoje arrependo-me, por não ser de meu caráter, de minha índole machucar ninguém, muito menos aqueles a quem amo, mas busco apagar da minha mente (o que não é fácil) o erro praticado, para não ter remorsos e por gratidão à Terezinha, pela forma com que ela tratou o assunto, que nunca, depois, foi mencionado por ela. Devo também aos meus filhos a compreensão com que aceitaram meu erro e seus desdobramentos. Por fim, e muito face a esse erro, em 2002 encerrei o meu mandato de quatro anos de Diretor no CEG e deixei tal função. Valeu Terezinha, pela compreeensão e amor, talvez maiores do que eu merecia e que ainda vou ter oportunidade de pagar-lhe em dobro. Madeira
vivencias-madeira-cronológica (1996/2000)
Adelino: apesar das imperfeições de todo ser humano, batia um bolão.
1996/2000: nestes anos tudo correu de modo normal, destacando-se poucas coisas, entre as quais o falecimento do Adelino, tio de Terezinha que conosco residia, juntamente com D. Hilda. Adelino, figuraça, daquelas pessoas que à primeira vista parecem antipáticas, tanto pela cara sisuda quanto por ser de poucas palavras, era na realidade uma pessoa que sabia ser amiga dedicada, sempre pronta a ajudar, a servir. Nos últimos anos de vida, que passou conosco e foram muito bons, tinha dificuldades de locomoção face a um derrame, que paralisou todo um lado do seu corpo, deixando-o hemiplégico, mas que nunca o fez piorar de humor, nunca modificou a sua forma de ser. No último ano antes de seu falecimento tivemos que deixá-lo morando na Avedalma, lar de idosos em Cariacica, com assistência médica e de enfermaria, pois ele estava bastante debilitado e não tinha mais forças para fazer a higiene pessoal sozinho, e eu e Terezinha, com inúmeras atividades, praticamente fora o dia todo, não podíamos ajudá-lo como deveríamos; D. Hilda sozinha, sem auxílio, não aguentava, ainda que tentasse, locomovê-lo, dar-lhe banho etc... Nos finais de semana bem que nós ajudávamos, mas não estava dando certo. A estada dele no Avedalma não representou abandono, pois eu ia lá toda quarta levar fraldas, remédios, vê-lo, e aos domingos, dia de visita, nós iamos passar algum tempo com ele. Faleceu repentinamente e em paz. Também tivemos, em 1997, a união de Cintia e Marcius, em uma reunião muito bonita, toda montada por Terezinha, com uma seleta participação de convidados muito próximos, realizada em Pedra Azul, em um sítio, onde nos hospedamos todos e mais os convidados, e onde hoje funciona o restaurante Valsugana, em um final de semana maravilhoso, com a cerimônia dirigida pelo amigo-irmão Levy. Em 1999 os donos da FACTUR, que eu dirigia desde 1995, renovaram meu mandato de quatro anos na direção e criaram um colégio, o centro educacional Guarapari, que também entregaram-me para montar e dirigir por um mandato de quatro anos, regimental. Concomitantemente, Terezinha passou no vestibular para pedagogia na FAESA, e começou a fazer esse curso superior pelas manhãs. Em 2000 o proprietário da faculdade e do CEG elegeu-se prefeito de Guarapari, e convidou-me para ser o secretário de educação do município - aceitei e entrei de cabeça, realizando, tenho a certeza, um excelente trabalho por cerca de doze meses (que redundou, para variar por motivos políticos, em mais uma briga minha e a entrega do cargo no final do ano). Madeira
terça-feira, 1 de julho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1993/1995)
Luta contra o mal, nova vida chegando e mais uma mudança de rumo
1993/1995: vida com a mesma rotina, apenas três fatos novos surgidos. Em 93 nasce, filho de Flavia, João Pedro Dias de Almeida e Souza, primeiro neto varão. Deu a graça de sua encarnação entre nós na semana santa do ano, com Terezinha e eu passeando. Estávamos em Cabo Frio e Terezinha telefonava dia sim/dia também para saber como Flavia estava passando, e mal tínhamos chegado lá ela fonou e soube do nascimento de JP; foi uma agonia segurar Terezinha mais dois dias lá, com tudo reservado para a etapa seguinte da viagem, que era Paraty. Ela queria voltar porque queria, para ver o neto, para ajudar Flavia, para mil coisas. Consegui convencê-la de que ele já tinha nascido e mais dois/três dias, menos dois/três dias não mudariam os acontecimentos. Bem, JP nasceu e foi mais uma das recompensas que recebemos dos Céus. Bebê, criança, adolescente, sempre foi muito equilibrado e de educação esmerada (nem parece ser desta família). É uma alegria estar com ele e revê-lo, pelo que de bom ele tem e passa com a sua presença. Tive o prazer e a felicidade de tê-lo morando comigo e é de impressionar o entendimento dele com o seu derredor e as ações efetuadas, todas voltadas para o bem e a amizade. Espero muito e peço que o mundo, com suas maldades, não o torne empedernido quando adulto. Em 1995 ocorreu o outro fato fora da rotina, que foi Terezinha ter se aposentado pelo INSS, direito que possuía, mas que se negava a buscar por brio profissional. Com isso, tinha uma merrequinha de dinheiro só para ela, e principalmente ganhou tempo livre para outras atividades, tanto na casa espírita em que labutava quanto no estudo universitário e de outros idiomas, que ela tanto gostava de estudar. Tinha muitos e continuados problemas de saúde, que nunca tiraram a vontade dela de viver, de realizar coisas e mais coisas, todos face ao uso diário de corticóides e sempre de fundo cancerígeno (foram dezenas de operações contra câncer de pele, além das de outros tipos, como nos seios). O terceiro acontecimento foi o convite da mantenedora da nóvel faculdade de turismo de Guarapari para que eu, que era chefe de departamento (departamento de ciências sociais), assumisse a direção da mesma, o que resolvi aceitar, com um mandato de quatro anos, para realizar um trabalho de desenvolvimento da mesma, que após cinco anos de existência estava minguando, mesmo sendo a única dessa área no ES. Com isso, mantive apenas as aulas de dia em Vitória (Acadepol, PM, FAESA matutina e uma ou outra palestra, em especial sobre segurança empresarial), e as noites eram da FACTUR. Madeira
segunda-feira, 30 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1989/1992)
Iniciando - só iniciando - o processo de aposentadoria...
1989/1992: nestes anos, como nos últimos e nos próximos, as novidades são muito poucas e do conhecimento de vocês, filhos, netos e compadres, pois os vivenciaram conosco e por isso estão sendo comentados em agrupamentos de anos, além de quê, com a nossa radicação no Espírito Santo, em Vitória, e com os empregos fixos, as novidades rarearam. A vida ficou estabelecida de maneira rotineira, com a clara definição dos dias úteis, com muito trabalho, tanto eu como Terezinha, do amanhecer ao anoitecer, mais a rotina da casa e os finais de semana no lar, no clube, na praia, e as férias anuais sagradas. Década de 90 e início dos anos 2000 tranquilos, com poucos problemas, logo resolvidos por nós todos. De novo, para mim, veio o convite (e o ingresso), como primeiro professor contratado, de uma nova faculdade, em Guarapari, a primeira de ensino superior de turismo, em 1990, cuja importância e problemas mais a frente serão comentados. Também surgiu o convite para ingressar no corpo de professores da PM/ES, para lecionar no centro de formação e aperfeiçoamento, em Cariacica, onde estreei como professor de ciência do direito (introdução) no curso de formação de sargentos, no primeiro concurso em mais de vinte anos para esse posto. Foi muito bom, tanto que fui escolhido pelos formandos para ser o paraninfo, o quê, por não ser o habitual (sempre nas forças armadas e auxiliares é o governador - ou o secretário ou um alto posto na hierarquia militar), deu um certo incômodo na formatura, mas que superei com um discurso de improviso de agradecimentos aos formandos, à corporação e às autoridades (governador, comandante-geral, outras) presentes. Por fim, em 92, a CST foi privatizada, e foi oferecido um bônus para quem quisesse sair, e eu, como desejava ficar apenas no campo do ensino (lecionava pelas manhãs, das 7 às 8 e 20 na FAESA, ia para a CST, e de lá ia às noites, dois dias por semana, novamente para a FAESA, mais dois dias para a UVV e um para a Humanas; depois, para a FACTUR/Guarapari, mais as saídas autorizadas da CST para dar aulas na Acadepol e na PM), e já tinha tempo pra aposentar-me e pegar as vantagens da previdência privada da CST, a Funssest, tratei de aceitar esse bônus e sair de lá, ficando com os dias totalmente livres para fazer meus horários, dando aulas ou ficando com Terezinha em casa. Foi um custo convencer a CST a me liberar, mas o consegui. Madeira
sexta-feira, 27 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1987/88)
Na estrada da vida: uma que parte, outra que chega
1987/88: anos marcados de um lado pela estabilidade readquirida no labor por mim, e por Terezinha estar dominando bem as possibilidades de rejeição e feliz com seu excesso de trabalho (como também era e sou), pois apesar de eu ter brigado (para variar) e saído da prefeitura da Serra, ela continuou lá, na creche de Carapina, pois o seu trabalho era excelente. Os filhos já educados e preparados para viver sua própria vida, sabem muito mais o que fizeram do que eu. Por outro lado, em 87, um fato foi marcante e de muita alegria. Em novembro veio aumentar a família o nosso primeiro neto, uma neta, a Taís, filha de Flavia, fruto do casamento com o Heliomar (triste figura, somente sabido posteriormente). Desde o nascimento Taís encantou a todos. Linda, amiga, decidida (saiu como a avó e a mãe), alegre, e com a separação de Flavia foi a felicidade de nossa casa durante os anos que conosco morou. Vimos Taís crescer demonstrando uma inteligência prodigiosa (atributo familiar) e uma garra incrível, o que até hoje nos mostra diuturnamente. Foi uma benção dos céus ela ter escolhido, enquanto espírito, nosso lar para recebê-la (ela é a musa deste blog, que existe por pedidos incessantes dela). Em 88 ocorreu, com aceitação, mas sempre com alguma tristeza, mas principalmente com a certeza de que, além de ser o destino de todos os encarnados, era o momento, tanto pela idade como pela doença, o falecimento de minha mãe, D. Aracy. No início do ano ela, que vivia em um flat próximo à Usina da Tijuca, com todo o conforto (até o telefone dela foi junto), e que incluía refeições, lavanderia e atendimento médico, ainda ficando com uma renda oriunda de meu pai, teve um derrame e foi removida do flat para o hospital anexo, da Ordem Terceira da Penitência, onde ficou internada, com parte do corpo paralisado. Terezinha e eu estávamos procurando um local em Vitória pra trazê-la e deixá-la próxima a nós, pois morar com a gente era impossível pela quantidade de horas que passávamos fora de casa, e se ela estivesse mais perto nos facilitaria, pois eu ia todo mês ao Rio visitá-la e ver como estava sendo tratada, e se precisava de algo. Antes dessa decisão ela faleceu e eu tive que ir às pressas lá tomar todas as providências. Foi bom, ela estava com 77 anos e deitada numa cama, com outras pessoas fazendo tudo por e para ela. Madeira
quinta-feira, 26 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1984/1987)

1984/1987: nestes anos a vida transcorreu normalmente, ou seja, enfim morando no mesmo lugar, com os mesmos locais de trabalho, tanto eu como Terezinha, os filhos conseguindo enfim terem relacionamentos, com uma rotina de lar que ainda não tínhamos tido de forma tranquila. Os acontecimentos de cada um dos familiares certamente a partir daqui todos lembram melhor do que eu, pois já eram adultos e têm as próprias impressões, as próprias vivências. Assim estas minhas se aceleram. De 84 ficou bem marcada a reunião de quinze anos de Flavia, que Terezinha, com um senso de família muito arraigado, resolveu fazer no Rio de Janeiro, com a presença de todos os familiares nossos. Com o apoio importante, pois sem esse não teria sido possível realizá-la, da Arminda e do Oswaldo, nossos compadres, foi alugado um salão para cinqüenta pessoas, com jantar incluído, no Clube Naval, e foi muito bom, com a apresentação de toda a nossa turma a todos os familiares, que quase nunca nos viam. Em contrapartida, em 85, os quinze anos da Cintia foram realizados em Vitória, na boite do Hotel da Ilha do Boi, com som e coquetel para jovens, apenas para amigos dela e de Flavia. Nesse período também começou o calvário de nosso carro, um Passat, pois o Caio tirou carteira, o mesmo fizeram aos dezoito anos as meninas e todos o utilizaram e destruíram várias vezes, graças a Deus sem ferimentos carnais, no início da prática diretiva. Terezinha e eu, nas férias, agora sozinhos na maior parte das vezes, passamos a viajar por todo o Brasil e até para o exterior, graças ao direito dela de receber nas férias passagens aéreas da empresa em que trabalhava, a Transbrasil. Assim, nesses anos visitamos todo o Nordeste e alguns países para os quais a Transbrasil voava, como Áustria e Portugal. Na CST, bem prestigiado pelo conhecimento técnico sobre segurança em geral, após ter montado todo a segurança empresarial, estruturei um serviço novo em termos de empresa, que foi uma área de investigação e perícia de danos ao patrimônio, com os peritos e investigadores formados na Acadepol de Minas Gerais, com vagas que consegui através do meu irmão Sidônio, o que deu resultados impressionantes em termos de combate a esses danos e foi copiado por várias outras empresas do ES. Nas faculdades tudo tranquilo, sendo sempre todos os anos paraninfo de alguma turma, como reconhecimento ao trabalho de ensino desenvolvido. Na Acadepol continuava a dar aulas, sempre oficialmente cedido pela CST. Madeira
quarta-feira, 25 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1983/3)
Até logo: voando para outro plano com a missão cumprida.
1983: Terezinha em jornada dupla, eu em jornada técnica atrapalhada pela política, de dia, e às noites dando aulas nas faculdades; crianças no colégio, finais de semana juntos, até que as coisas estavam parecendo normais para uma família normal. Neste ano descobrimos um paraíso nas montanhas capixabas, que tínhamos começado a conhecer, já que anteriormente não fora possível fazê-lo pela gama de problemas enfrentados. Em setembro, aproveitando o feriado do dia sete, fomos conhecer, hospedando-nos, uma pousada há pouco inaugurada, em Pedra Azul, de nome Pousada dos Pinhos. Lá chegando ficamos maravilhados pelo clima e pelas instalações, mas principalmente pelo tratamento fidalgo dado pelo proprietário, Dr. Julio Pinho (e sua família, em especial pela filha dele, a gerente do novel empreendimento, a Isabella). Alimentação de primeira, e à noite um café colonial suculento; recreação para as crianças, quadra e campo de futebol para as minhas peladas, aquela sauna... Enfim, um local paradisíaco e sem os ruídos da cidade grande. Ficamos clientes permanentes e até a partida de Terezinha passamos todos os feriados espichados lá, em especial Ano Novo e Carnaval. Tínhamos as reservas já feitas automaticamente e no mesmo apto, e a nós se juntavam sempre nossos compadres Arminda e Oswaldo e a afilhada Anna Luiza. Foi de fato algo marcante para todos, inclusive para D. Hilda, que muitas vezes nos acompanhava. Neste ano também transferiu-se de plano meu pai - Seu Dias, como todos o chamavam -, em nossa casa, no então quarto do Caio, onde ele estava hospedado. Foi algo diferente, pois ele tinha muita saúde e com 87 anos, quase 88 (faria um mês após o seu falecimento), foi internado às pressas no Rio, na Beneficência Portuguesa, da qual era associado. Informado do fato por Sidônio, fomos eu e Terezinha ao Rio vê-lo, e lá chegando fomos informados que ele estava com câncer no pulmão, sem capacidade respiratória e necessitava fazer uma traqueotomia para poder respirar e ter uma sobrevida. Após conversarmos entre nós e ouvido o Levy, amigo-irmão, médico de nossa total confiança, falamos com ele e ele disse que ali não queria ficar, e acontecesse o que acontecesse queria ir para a minha casa, pois lá teria, tinha a certeza, uma enfermeira inigualável, que era a Terezinha. De imediato (era um sábado) negociamos a saída dele do hospital para o dia seguinte, domingo (tive que assinar um termo de responsabilidade se houvesse a morte física), e comprei passagens de avião para todos nós e mais a minha mãe e viemos para Vitória, êle de terno e gravata, como sempre muito bem vestido, mas com muita dificuldade de respirar. Chegamos em Vitória cerca de onze horas, e D. Hilda e os netos o receberam com muitas atenções. Sentamos à mesa, com ele à cabeceira, de terno e gravata, como gostava sempre de ficar, no comando, e após isso eu e ele sentamos no balanço na varanda e conversamos até por volta das quatorze horas, quando ele pediu para se deitar um pouco. Perto das dezesseis horas ele chamou Terezinha e avisou que não estava conseguindo respirar. Acionei com urgência vários médicos conhecidos, e estes foram unânimes: ele teria de ser internado e devia ser feita a traqueotomia. Ele negou-se com veemência e quis ficar alí mesmo. Com a orientação já dada pelo Levy, no Rio, pois Levy, quando chamado por mim lá, é que tinha nos dado o aconselhamento de atendê-lo nas vontades, pois ele não tinha mais pulmões, estes estavam todos tomados e era melhor dar qualidade de vida que quantidade, dispensamos os médicos, e foi colocada uma bomba de oxigênio ao lado dele e esta ligada às narinas, para que houvesse menos desconforto. Foi um resto de domingo e uma noite de vigília, até que no dia seguinte, segunda-feira, treze de junho, dia de Santo Antônio, santo português, ele faleceu ao lado de Terezinha e D. Hilda, no momento em que eu tinha saído para comprar uma nova bomba de oxigênio, com Flávia sentada nela para que não corresse dentro do Passat que tínhamos. Na noite desse dia levamos o corpo para o Rio, onde ele foi enterrado no dia seguinte, com a presença de muitos amigos e parentes. Fez o desencarne junto a nós e foi um pouco sofrido pela falta de ar, mas foi por pouco tempo e cheio de nosso carinho e admiração pelas obras que deixou, e pelos exemplos dados continuadamente. Muito obrigado meu pai, por tudo que me ensinastes e me destes. Theo
terça-feira, 24 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1983/2)
Praia de Nova Almeida
1983: enquanto eu tentava moralizar a administração pública municipal do município da Serra, emprestado pela CST, Terezinha, indômita como era, ansiava por fazer algo mais do que cuidar da casa, para o que ela tinha a Joana e que tinha rodado bem durante todo o período pré-transplante. Começamos então a ver o que ela gostaria e poderia fazer. A esposa do prefeito, do Mottinha, D. Marilda, era a secretária municipal de assistência social, e a convidou para assumir a direção de uma creche problemática em Carapina. Terezinha aceitou, começando a endireitá-la, pois lá sumiam os alimentos para as crianças, funcionários faltavam direto ao trabalho e papeavam em excesso, deixando as crianças abandonadas e até sujas, fora outras mazelas. No meio do ano chegou, transferido de Fortaleza para gerenciar a Transbrasil Linhas Aéreas no Espírito Santo, o Flávio Wanderley, que eu tinha conhecido lá e com ele me relacionado muito bem, inclusive como companheiro de grandes peladas na AABB, e um dia, ao conversar com ele na empresa, disse-me que contrataria pessoas dinâmicas para a área de reservas, para trabalhar em turnos de seis horas corridas, e que se Terezinha o quisesse ela poderia ir para lá. De imediato Terezinha aceitou e passou a trabalhar no setor de reservas da Transbrasil, às tardes (com plantões aos finais de semana), ficando pelas manhãs na creche. Para que os funcionários não relaxassem ela levou para ser vice-diretora a prima, comadre e cunhada Ivone, também muito trabalhadora e honesta. Creio que Terezinha pegou tantas atividades por ânsia de fazer coisas boas e certas, por poder assim agradecer a Deus pelo êxito do transplante, e para não ficar parada pensando na vida (foi lhe lembrado pelos médicos que não poderiam prever a quantidade de vida futura, inclusive por ter recebido um rim de sessenta anos de funcionamento, e pela possibilidade de rejeição em algum momento); e, é óbvio, para podermos assegurar meios financeiros de educar, criar os filhos. A realidade é que ela, com essas atividades todas, estava bem, sentindo-se útil, e enfrentando a ação dos corticóides (eram feitos exames mensais de sangue e urina, com controle rigoroso e doses maciças diárias de remédios, para controle de possíveis elevações da pressão e de alterações da função renal). Nos finais de semana sempre tínhamos um tempinho para as idas à praia (sem que ela tomasse sol) e ao clube, e no inverno alguns pic-nics em locais inusitados, diferentes, descobertos por ela, tais como cachoeiras e passagens baixas de rios, no mais das vezes e quase sempre com Egydio, Ivone e filhos juntos. D. Hilda bem, no vai e vem ao Rio, onde estava o Adelino com seus problemas de saúde. Madeira
segunda-feira, 23 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1983/1)
No Brasil, a pilantragem sempre rende bons frutos...
1983: mais uma vez mudanças fortes acontecem no meu viver. João Baptista da Motta, conhecido de primeira hora no Espírito Santo, que apoiou-me integralmente na minha chegada aqui e na doença e transplante de Terezinha, resolveu candidatar-se ao cargo de prefeito municipal da Serra, onde havia nascido, na área praiana, em Nova Almeida. Procurou-me e convidou-me para ser secretário municipal de admistração na gestão dele, caso se elegesse, alegando pouco conhecimento de administração pública e a bagunça dessa área na prefeitura, pois lá estava um prefeito populista (um lulinha). Disse-lhe que eu só iria se, vencidas as eleições por ele, eu conseguisse minha liberação oficial da CST, com garantia de meu emprego quando quisesse voltar, por qualquer motivo. Pois ele ganhou as eleições e conseguiu minha liberação, o que foi uma surpresa para mim, pois fui chamado na sala do presidente da companhia, Dr. Arthur Carlos Gerhardt dos Santos, e liberado com documento oficial para tanto. Lá fui eu no início desse ano fazer parte da equipe de governo (muito boa, por sinal), e pegar um pepino imenso para descascar: salários atrasados cinco meses e décimo-terceiro não pago, isto tudo na data de nossa posse, dia 31 de janeiro. Encontrei uma vaca na porta da prefeitura, alugada aquela pela gestão anterior para distribuir leite para os pobres do município (esta foi a menor das aberrações). Fiz a vaca sumir e cancelei essas e todas as demais benesses populistas e demagógicas existentes. O prefeito Mottinha, assim era e é conhecido, se já estava apavorado, pois o antecessor era homem de conluios e suspeito de ações violentas, apavorou-se mais e eu o acalmei, lembrando que era só fazermos as coisas claras e sem maldade, e nada iria nos acontecer de mal. Na época eu dava aulas na FAESA (e continuei), e era conselheiro do CRA/ES (conselho regional de administração no ES), e trouxe para chefiar as cinco seções a mim subordinadas (pessoal, compras, transportes, material e almoxarifado) cinco admnistradores formados, honestos, de confiança. Arrochamos os gastos, com controle de tudo (gasolina, manutenção de viaturas, telefone, licitações, horários de trabalho); enfim, de todos os ralos pelos quais poderia sair o dinheiro, e em conjunto com o secretário da fazenda, um dos homens mais honestos que conheci, Seu Erix, em quatro meses colocamos os vencimentos em dia. Para isto tive de me expor, mas nada aconteceu, porque tudo era feito às claras, sem conchavos, olho no olho. Consegui, através da procuradoria do município, a anulação de um concurso público somente para cargos de nível superior, fajuto (no qual as provas tinham sido levadas para casa pelos inscritos, o que foi provado através dos depoimentos de quem acompanhou o concurso), feito para amigos/parentes do prefeito da época, e mandei demitir quase mil pessoas, fruto de admissões feitas através de carteira de trabalho assinada no dia da eleição (no entanto, pagamos todos os direitos trabalhistas, ou seja, os dias trabalhados, os proporcionais, demissão etc). Nessa brincadeira economizamos com cerca de mil e poucos vencimentos mensais. Foi trabalhoso, mas foi fácil, bastou fazer com que as leis fossem cumpridas. A prefeitura, que tinha mais de 2.500 funcionários, ficou enxuta, rodando direitinho, com pouco menos de 1.500. A partir daí, logo após o meio do ano, contatei o IBAM (instituto brasileiro de assistência aos municípios), órgão técnico de elevado nível, dominador de todas as ações de caráter científico de planejamento e direção municipal, e começamos a trabalhar em uma nova estrutura para a organização local, objetivando torná-la ágil, moderna e inovadora, para diminuir a burocracia e atender melhor os munícipes. Estava indo bem demais para ser verdade. Mais ou menos em outubro fui chamado para uma reunião extra com o prefeito, e lá deu-se a merda. Naquele tempo a legislação não exigia concurso público para o serviço público. Sob a justificativa de facilidade para contratar e também para demitir os incompetentes, os acessos eram por carteira de trabalho assinada e a critério dos prefeitos (só podia dar merda), e as prefeituras, estados e a própria União viraram cabides de emprego, e todas as primeiras viviam com os vencimentos atrasados pelo excesso de pessoal, gente apaniguada dos prefeitos, vereadores e de seus amigos. Essa foi uma grande cagada da Revolução, corrigida na Constituição Federal de 1988. Nessa reunião o Mottinha, após muitos rodeios, explicou-me que não aguentava mais a pressão dos vereadores e do pessoal da campanha dele, e precisava nomear algumas pessoas. Pedi um tempo para terminar a consultoria do IBAM, mas ele disse que não podia dá-lo. De imediato disse-lhe que eu não assinaria nenhuma carteira e que ele me exonerasse para fazê-lo. Ele pediu-me então para eu trocar de cargo e passar a ser coordenador-geral da prefeitura, cargo que consistia em acompanhar os trabalhos das secretarias, assumindo o meu lugar na Administração o sub-secretário, o que topei até pôr a cabeça em ordem. Em 30 de novembro a CST fez o seu start-up e começou a funcionar, a ser uma siderúrgica, e depois de conversar com Terezinha voltei para a CST, onde fui muito bem recebido, pois lá estavam empilhados ene estudos esperando por minha volta, para a nova situação de usina em operação, sem ter mais operários de construção civil em seu interior, somente empregados técnicos. Resumo de um ano como secretário de administração da Serra: em dois meses o novo secretário contratou mais de duas mil indicações políticas, e mais, a frente começou a atrasar os vencimentos de novo e eu perdi mais um amigo, pois nunca mais falei com Mottinha. Mas, mais uma vez não capitulei perante o imoral, o ilegal. Madeira
sexta-feira, 20 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1982)
1982: ano tranquilo, com a vida de todos em casa entrando nos eixos, e com uma nova formatação, de muito trabalho, mas sem percalços, com uma rotina gostosa de lar, de amor, de crescimento geral. Eu, de segunda à sexta com muito trabalho. Terezinha muito bem, fazendo os controles mensais, com o transplante certinho, apenas todos, médicos, ela, nós todos, preocupados com os efeitos colaterais terríveis dos corticóides, que certamente mostravam-se logo (inchaços), mas sabíamos mostrar-se-iam a médio e longo prazos. As crianças enfim estabilizadas, podendo ter colegas e programas, estudarem no mesmo colégio, sem as mudanças bi-anuais. Joana o esteio de sempre, e também buscando desenvolver-se através de cursos escolhidos por Terezinha e feitos no SENAC. Meus pais e Dona Hilda presenças constantes lá em casa. Enfim, um norte na vida, pois sabíamos onde estávamos e como ficaríamos. Na CST muito trabalho, pois era época de construção civil e montagem da siderúrgica, com uma vila operária onde moraram até sete mil operários, um grande canteiro de obras, e nós da segurança tendo que acompanhar tudo isso e manter a ordem, mas concomitantemente planejando tudo para quando acabassem as obras e a usina começasse a rodar, produzindo aço. À noite aulas na FAESA e na UVV, todos os dias da semana, lecionando administração geral e introdução ao direito. A secretaria de segurança ainda conseguiu com a presidência da CST que eu desse aulas na ACADEPOL, em alguns módulos de alguns cursos, ganhando o suficiente para tocar a vida. Nos finais de semana, sábados de pelada no Álvares, crianças lá, no clube, ou então na praia, com Terezinha na sombra, mas junto, e aos domingos, invariavelmente, churrasco em Manguinhos/Carapebus/outras mansas com Egydio, Ivone e crianças. Tudo sob controle e com muita felicidade e amor. Madeira
quinta-feira, 19 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1981/3)
1981: como se diz em jargão de mercado de trabalho, as oportunidades laborais só aparecem se você já estiver no mercado. Assim, fui lembrado por algumas pessoas que uma siderúrgica estava sendo construída no município da Serra, e certamente muitas vagas por lá haveriam. Fui à mesma, a CST, Companhia Siderúrgica de Tubarão, multinacional tripartite (Brasil majoritário, com 51%, Itália e Japão) e deixei meu currículo, pleiteando uma vaga na área administrativa (não precisava ser na área da segurança). Logo fui chamado, pois o destino conspirou a meu favor, face ao então chefe da segurança, um major da reserva do EB, ter feito uma cagada e ter mandado um cacete nos peões da construção civil, empregados de empreiteiras. Com isso os sócios resolveram, ainda na fase de construção, reformular a parte da segurança patrimonial, e após um monte de testes, exames e entrevistas fui admitido, em setembro do ano, nas funções de adjunto-técnico, para montar, tanto documental quanto operacionalmente, a segurança patrimonial da CST, além de treinar os integrantes e contatar os órgãos externos de segurança pública. A gerência ficou com um engenheiro mineiro (a totalidade dos técnicos era mineira, oriundos aqueles da Usiminas, usina de reconhecida capacidade técnica em siderurgia), pois estavam desconfiados de segurança na mão de especialistas nessa área, preferindo deixar a decisão final com um paisano. Enfim, agora tinha um emprego fixo, que não dependia de aguardar a distribuição de horas-aulas, com muitas vantagens trabalhistas (condução, refeição, assistência médica, décimo-terceiro... - nunca tinha visto nada disso) e na época ganhando mais do que na PF (isto durou apenas até o fim do governo Figueiredo, que deu um aumento para a PF que mais do que duplicou os vencimentos lá). Bem, como estava só em Vitória e gostava de lecionar, continuei na área, apenas eliminando os cursinhos, que apesar de pagar melhor que as faculdades sugavam muito e não assinavam carteira. O fim do ano se aproximava e tudo começava a clarear de novo, com a devolução da nossa casa (por acaso o inquilino era um engenheiro da CST) e a chegada da família e da mudança (incluindo a cachorra, motivo da briga), e ainda com o direito de ficar recebendo mensalmente, via Adilberto, uma indenização boa, em dez vezes. Se não fosse o Adilberto eu teria perdido muita coisa. Mais um com quem tenho dívidas. Foi um aprendizado e tanto, mas como sempre com pouca utilização, pois enquanto encarnados somos muito curtos e esquecemos rapidamente. Madeira
quarta-feira, 18 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1981/2)
E tome buzu na cabeça!
1981: parcialmente saído da fria em que tinha me metido e levado junto a família (mais uma cagada, como se erra na vida!), até o fim do ano eu tinha um bom salário lá em Fortaleza, deixado integralmente com Terezinha para as despesas familiares de todos, e cá estava eu em Vitória, tendo de me virar e ganhar meu sustento, além de buscar recuperar o tempo e os empregos perdidos. De início tinha de morar em algum lugar e consegui alugar, no apto de um colega antigo da federal, o papiloscopista Valdir (hoje aposentado e advogando), pessoa doce, tranquila, de minhas relações desde a chegada em Brasília, um quarto com uma cama de solteiro e um pequeno guarda-roupa (voltou a ser como quando saí de casa para Brasília), em um edifício no centro da cidade, na esquina em frente à receita federal, onde funcionava no térreo a eletrônica Yung (hoje não existe mais, está lá a Ricardo Eletro). Com a roupa do corpo e com a cara e a coragem, busquei a Faesa e a UVV e é óbvio que só podia recomeçar no ano seguinte, por já estarem distribuídas as aulas pelos professores que lá estavam. Teria de aguardar até outubro para ver que disciplinas sobrariam, para que eu lecionasse no ano seguinte. Já na Acadepol fui recebido com festa e logo ganhei turmas variadas para lecionar, pois foram realizados concursos públicos recentemente, dada a implantação da polícia de carreira. Consegui também aulas de história e OSPB (disciplina que não existe mais, infelizmente, e que trata do funcionamento do país) nos cursinhos do PROMOVE (grande rede mineira de cursos e escolas de fundamental e médio), no curso Nacional de Vila Velha e no BAC, um cursinho que não existe mais e que funcionava na praça Costa Pereira, no edificio Álvares Cabral, do irmão do dono do Nacional, Solivan Riva(também como o irmão, Sidney Riva, grande estelionatário, ruim para pagar). Já não passaria fome e sobreviveria; apertado, mas daria. Logo depois, com essa rotina, andando de ônibus para cima e para baixo e sendo sugado, pois as aulas no cursinho iam até os sábados e próximo dos vestibulares até os domingos, surgiu uma indicação para lecionar em Colatina, na faculdade de direito de lá, feita por um professor local, diretor da Acadepol, o juiz aposentado Dr. Valdir Vitral, e eu aceitei. Assim, às segundas-feiras eu pegava a kombi da Faculdade, às quatro e meia, e com os demais professores lá chegando jantava; quando retornávamos, chegávamos cerca de uma, duas da manhã em Vitória, e nas sextas íamos no mesmo horário, mas só voltávamos no sábado após o almoço, pois as aulas no fim de semana eram até este dia. Foi ótimo, pelos conhecimentos e amizades que adquiri e pelo dinheirinho que entrou no resto do ano. Muita saudade da esposa, de uma casa, de um lar, dos filhos, mas a culpa era apenas minha e eu tinha era de tocar com coragem e valentia, sem lamúrias e sem preocupar Terezinha. E isso - guerrear - é comigo mesmo. Mais uma vez estava dando certo. Madeira
terça-feira, 17 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1981/1)
"Usando uma perucona, safado? Então toma!"
1981: instalados em Fortaleza, em uma casa grande e esquisita no bairro Aldeota, iniciamos todos juntos uma nova estapa de vida, agora estranha, pois pela primeira vez na vida profissional eu não era policial, ou seja, não estava sob um juramento oficial, público (e, para mim, principalmente moral) de cumprir a lei e de assegurar que esta fosse cumprida por todos. Terezinha bem e coberta de cuidados pelo pessoal da Coca-Cola (depois concluí que era para me dominar), as crianças ainda meio desnorteadas com tanta mudança, tantas ocorrências em nossa vida nada pacata, e Joana agarrada com a gente. Mudanças mil, mas núcleo familiar unidíssimo. Bem, desta vez (depois entendi) fui enganado e poderia ir muito bem, crescer financeiramente e em prestígio social se fosse a minha cara a nova forma de vida que (após estar lá) me foi oferecida. No início muita babação em cima de mim, tudo fácil, reuniões com figurões da Coca-Cola no Rio de Janeiro, viagem para Atlanta/USA para visita à sede da multinacional Coca-Cola, aproveitando exames completos em um hospital mantido pela empresa sobre o transplante de Terezinha, e que tiveram como resultado um baita elogio ao trabalho dos médicos brasileiros (capixabas), pois todos os comportamentos cirúrgicos feitos estavam irrepreensíveis, congresso brasileiro anual da Coca-Cola em Belo Horizonte, enfim um começo de ano de envaidecer e eu sendo apresentado como o máximo. Reuniões de diretoria da empresa, eu presente palpitando, um dos irmãos do Sérgio Philomeno e sócio era deputado federal e lá fui eu com ele ao congresso nacional em Brasília, sendo apresentado a deputados e senadores. Passados cerca de três meses comecei a descobrir as tramóias, tais como sonegação de impostos, fraudes fiscais, suborno da fiscalização de todos os níveis, violência contra pequenos comerciantes, que eram obrigados a comprar a nossa marca, não podendo comprar concorrentes e um rosário de crimes. Meu papel era dar credibilidade à empresa pelo meu passado, por ser conhecido em Fortaleza como um homem honesto. Entrei em pé de guerra e lembrei que não era a minha especialidade ser safado ou conviver com isso. Botei as cartas na mesa com o Sergio (avisei ao Adilberto) e preparei-me para a briga. De imediato começaram as retaliações: pagamento atrasado, carro velho e quebrado para me atender e agressões verbais nas reuniões mensais da Diretoria. Em uma destas o diretor de comunicação, Venelouis Xavier Pereira, dono também de um jornaleco de imprensa marrom, que eu já sabia vagabundo desde a época da PF, ofendeu-me, isto sentado em minha frente, do outro lado da mesa, ao dizer que eu estava me fazendo de honesto mas que não o era, por ter feito a empresa pagar até o transporte aéreo de minha cachorra (uma verdade, mas tal coisa foi acertada na hora da minha contratação). Voei por cima da mesa, segurei-o pelos cabelos e dei-lhe um murro na cara que lhe quebrou os óculos e cortou-lhe o rosto, espalhando sangue ao redor. Foi o caos, e fui retirado da sala enquanto o levantavam e o socorriam. O gozado é que ninguém sabia (nem eu) que ele usava peruca, pois quando eu o segurei pelos cabelos e mandei o soco, os cabelos dele ficaram na minha mão (por isso não pegou bem e acertou os óculos), e eu sacudi aquela porra nojenta, pensando de início que o tinha escalpelado. Fui para casa e lá fui procurado pelo Adilberto, que queria me esconder por causa de alguma queixa-crime e para que eu escapasse do flagrante. Disse que não iria e que se preso encararia, mas denunciaria tudo o que eu já sabia. O resultado é que foi tudo abafado e ficou acertado que o meu contrato de prestação de serviços, como presidente da Fundação Philomeno Gomes (feito em um documento apropriado, não na carteira de trabaho), seria rescindido, com todos os meus direitos respeitados, inclusive os salários; a casa permaneceria alugada até o final do ano, sem que eu tivesse que trabalhar mais por lá. Com as passagens na mão, acertei com Terezinha - apesar de já ter tido algumas sondagens para ficar em Fortaleza, radicar-me lá - que o melhor era retornar para Vitória, face aos médicos dela, pela nossa casa, pela proximidade do Rio com nossos pais e parentes e a já ter sido o combinado anteriormente. Como nossa casa em Vitória estava alugada por um ano, e nós tínhamos a de Fortaleza assegurada, além de as crianças estarem no colégio, resolvemos que eu viria de imediato para Vitória procurar emprego, voltando logo a dar aulas, e ela e a nossa turminha ficariam lá até o fim do ano letivo. Assim foi feito, e eu voltei antes do meio do ano. Madeira
segunda-feira, 16 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1980/4)
On the road again!
1980: demissão efetivada, devolvidos brasão, arma e carteira de identidade funcional, ex-delegado de polícia federal, ou seja, mais porra nenhuma, no íntimo contra a vontade, mas em atendimento ao brio pessoal, era agora professor apenas, e mais do que nunca eu tinha de ser o melhor, para assegurar o(s) empregos(s) na FAESA (também chefe do departamento de administração, atualmente coordenador de curso), na UVV, no PROMOVE (colégio e cursinho) e na Acadepol/ES; ou seja, professor full time mesmo, para ganhar bem e sustentar a família, de segunda a sábado, de manhã, de tarde e de noite. Mas acomodamento e cansaço nunca me assustaram ou me fizeram desistir de nada. Recebi alguns convites de trabalho, mas não me agradaram. Um deles foi de ser delegado de polícia no estado (na época não existia polícia de carreira, e bastava ter um padrinho político e ser bacharel em direito que se era nomeado delegado), pois eu tinha todos os cursos de formação, mas não aceitei, pois além de pagar muito mal o nível era muito baixo e a insegurança total, pois bastava prender um parente ou amigo ou até mesmo um conhecido de um deputado ou vereador (ou de um importante qualquer) que se era exonerado de imediato. Eu não duraria uma semana. Outra foi de assumir a diretoria administrativa da Viação Itapemirim (convite feito pelo diretor geral, que tinha sido meu aluno na FAESA, o José Luiz), mas ele comentou que o comendador (gostava de ser chamado assim na empresa) Camilo Cola, dono da mesma, exigia dedicação total, chamando o seu staff muitas vezes de madrugada para falar algo, para viagens inesperadas etc; enfim, entendi que ele, além de dono da empresa, era dono dos diretores e gerentes. Não aceitei, não ia dar certo comigo e minha família já tinha sofrido bastante com meus horários - e eu com a falta deles. Também fui sondado por um aluno da FAESA, um italiano que era um dos proprietários, para ser diretor administrativo da Eliane, fábrica de cerâmicas na Serra, mas não topei. Porém, no final do ano, veio um convite mais forte, tipo casa, comida, roupa lavada e mordomias no Ceará, do dono de toda a franquia da Coca-Cola no Nordeste e ainda no Pará, Sergio Philomeno. Simplesmente eram dele, da Bahia ao Maranhão, todas as fábricas da Coca-Cola e dos outros refris dela, além das distribuidoras. Filho de uma família tradicional, os Philomeno, ele desejava criar uma fundação com o nome do pai, idealizador e fundador desse império com sede em Fortaleza e sabedor, por um então delegado de polícia do Ceará, meu amigo (tinha sido meu agente no DPF, antes), Dr. Adilberto Leite, que era concomitantemente organizador da segurança patrimonial da empresa dele, que eu tinha saído da polícia federal, e mandou uma proposta daquelas irrecusáveis, com excelente salário, sem qualquer despesa de mudança, mais aluguel de casa e carro; enfim, como a de um astro de cinema (com Oscar!), e depois de conversar com Terezinha lá fomos nós, no fim do ano, de mala e cuia, de volta para Fortaleza, eu agora como alto executivo da Coca-Cola do Nordeste. Alugamos nossa casa no ES, eles alugaram uma lá para nós e enquanto a mudança não chegava ficamos em hotéis de luxo, tanto em Vitória (SENAC da Ilha do Boi), como em Fortaleza (Beira-Mar). Mais uma cagada, pois nesse ano especializei-me nelas. Deixava uma vida de lutas, mas radicado na cidade escolhida, na nossa casa, para uma aventura no Nordeste. A única coisa boa nesse ano foi o nascimento da filha de Arminda e de Oswaldo, Anna Luiza, a nós dada como afilhada e que batizamos em um belo domingo de sol, com festa nos jardins da PUC, em um ambiente lindo e agradável, e que me deu de bom uma amizade-irmã e uma aproximação gostosa com Oswaldo, um verdadeiro irmão e amigo ímpar, daqueles de entrega total na amizade. Madeira
sexta-feira, 13 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1980/3)
Descendo do ônibus e seguindo em frente
1980: punido, ao meu ver injustamente, principalmente por não ter sido ouvido, não ter tido direito de defesa e não terem sido considerados os anos de polícia e a folha de serviços, somente com elogios e comissões importantes, e ameaçado de remoção para lugar inóspito, com Terezinha recém-transplantada e, para maior desilusão minha, com movimentação de greve na PF, coisa que não aceito de jeito nenhum em algumas áreas de serviço, uma delas a policial. Resolvi que bastava de sacrifícios meus e da família, com as mudanças continuadas. Assim, com os brios à flor da pele, vomitando ressentimentos, conversei muito com Terezinha (que ponderava meus anos de serviço e meu amor à causa policial e ao DPF, mas que respeitaria minha decisão e estaria colada comigo) e me mexi. Primeiro, por vergonha de chefiar delegados tendo sido punido, e por entender que era impossível a relação profissional com o superintendente, solicitei minha exoneração do cargo de segundo nível hierárquico da SR (coordenador), dispondo-me a negociar o restante, tal fosse o local de minha remoção e a anulação da minha punição. Concedida a exoneração, face a persistir a idéia da remoção, solicitei licença para tratamento de familiar enfermo, com os devidos atestados médicos, por seis meses (esperava assim que tudo se acalmasse e se resolvesse) - e me foi negada. Notei que estava sendo seguido por agentes do serviço de informações da SR e peguei um, o agente Wanderley, na ladeira da FAESA, e dei-lhe um aperto. Ele se desculpou, pois estava cumprindo ordens. As coisas caminhavam para a minha saída mesmo. Eu ainda tinha uma tentativa para não abandonar a PF, da qual eu tinha sido um dos fundadores, um dos criadores, tendo feito parte da equipe que redigiu o regimento interno, o decreto 56.510/65; enfim, uma instituição a qual tinha me dedicado de corpo e alma, sem nada pedir ou negar a fazer e que à época estava com salários muito defasados. Esses fatos todos foram agravados pela chegada de um delegado de Brasília, enviado pela direção geral para verificar o que estava ocorrendo, e amigo íntimo do superintendente, da turma dele; um vagabundo e mau-caráter de primeira, pois quando eu soube de sua chegada o mesmo já havia se reunido com o superintendente e nem me ouviu, dizendo-me de cara que eu havia errado. Ainda ponderei se não seria melhor haver uma composição, e a resposta foi negativa. Bem, as portas estavam fechadas e restava-me botar o galho dentro, aceitando tudo de cabeça baixa como um criminoso arrependido, ou entrar na justiça e enquanto isso me foder - ou deixar tudo, guardando apenas as boas recordações e a herança dos bons exemplos dados. No dia do aniversário de Terezinha, 17 de setembro do ano, dei entrada no protocolo da SR/ES de documento solicitando a exoneração do cargo público de delegado de polícia federal, anexando ao pedido minha carteira funcional, meu brasão e a arma funcional. A partir daí comecei a dar aulas como um desesperado, pegando turmas também pela manhã, e trabalhando também em colégios e cursinhos aos sabados e domingos (já lecionava na FAESA e na UVV e passei a lecionar nos colégios Positivo e Promove, fora os cursinhos Nacional de Vila Velha e BAC em Vitória), para não faltar com as condições financeiras em casa. Foi tremendamente dolorido, às escondidas de Terezinha chorei muito, mas a decisão foi tomada e pronto. Talvez tenha sido a grande cagada de minha vida, talvez tenha sido apenas fruto de orgulho, mas algo tinha de ser feito e foi. Madeira
quinta-feira, 12 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1980/2)
Momento de descanso no prédio do DPF/ES, começo da década de 80
1980: Terezinha transplantada renal e de novo com a marca registrada dela, uma alegria e garra contagiantes. Voltamos, com os cuidados necessários para com ela, a um ritmo de vida tranquilo, de estudo e brincadeiras nos finais de semana para as crianças, e de reorganização da casa para Terezinha, apoiada pela Joana, com D. Hilda se desdobrando entre a casa dela no Rio e conosco, e eu rachando entre as atividades policiais e as aulas à noite. Mas as decepções estavam chegando, em função do meu modo de agir (deve é óbvio ter muita coisa errada, é de extremos, ou seja, ou agrado e ganho amigos ou desperto inveja, raiva e levo porrada, ainda mais dentro de uma estrutura de serviço público policial). Como na SR/DPF/ES todos os delegados e agentes só procuravam a mim para orientações, para tirar dúvidas, e como eu, desde o ano passado, estava dando aulas na Acadepol da Polícia Civil do ES - que, aliás, tinha ajudado a remontar, estruturando-a, montando cursos, coordenando-os e dando aulas, em apoio à reabertura da mesma, que estava fechada há mais de dez anos, a pedido de um professor meu colega na FAESA, o juiz aposentado Dr. Valdir Vitral, que fora indicado pelo secretário de segurança pública do ES para o cargo de diretor da academia -, o ciúme do superintendente apareceu forte. Teve início uma brutal centralização dele, tentando capar minhas atribuições de coordenador policial, dificultando minhas ordens, proibindo ações policiais sem conhecimento e autorização dele, o que o regimento interno do DPF não dizia, ou seja, minha competência estava claramente definida e muitas vezes o coordenador não dependia disso para agir. Assim os choques começaram e eu caguei para as ordens dele, continuando a trabalhar, e de novo tirando em nível estatístico a SR/ES de um dos últimos lugares em produtividade (quantidade de flagrantes, inquéritos, número e valores de apreensões) para uma das dez melhores do país. Como obviamente havia os puxa-sacos do superintendente ou aqueles que simplesmente não gostavam de mim, um fosso se fez entre nós dois, o que não podia ter ocorrido e no qual devo, é lógico, ter culpas também. Bem, no início do segundo semestre houve uma operação de combate ao tráfico de drogas, em Manguinhos, toda amarradinha, na qual, face à fuga do traficante, que usava como cobertura levar a mulher e a filha nas entregas, houve um tiroteio no qual a menininha morreu, atingida por um tiro, na ocasião sem se saber se teria sido do traficante ou do nosso pessoal. Avisado, desloquei-me à SR e dei as orientações ao delegado de plantão sobre a lavratura do flagrante, apreensão da droga, apoio às providências junto ao IML e mandei registrar tudo no livro de ocorrências, sabedor de que o superintendente o visava diariamente. No entanto, o plantonista crocodilo telefonou para ele e no domingo cedo este foi à SR e se intrometeu no caso. Daí a uma discussão violenta nossa na segunda-feira foi um passo e, sem que eu o soubesse, ele redigiu e mandou para o boletim de serviço do DPF, na parte reservada às alterações de delegados, uma punição minha de trinta dias de suspensão, além de solicitar minha transferência para outro estado. Passados alguns dias, nos quais não falei com ele, chegou o boletim com a minha punição e o recebi para passar ciente. De imediato pipocaram telefonemas de colegas, de solidariedade, e querendo saber o que havia ocorrido, pois a fama dele não era boa no DPF. Fiquei meio desorientado e soube também que estava para sair uma remoção minha, possivelmente para longe, para o Nordeste, de volta. Tentei falar com o diretor geral, de quem eu tinha sido assessor, e não fui recebido. Falei com o coordenador central policial, segunda autoridade hierárquica, e ele era da panelinha, da turma do superintendente e tirou o cu da reta - e eu só queria que tirassem a suspensão e negociassem a ida para um lugar próximo do ES, por causa de Terezinha, para que ela não ficasse longe da família e dos médicos. Eu pensava em Campos, onde havia uma delegacia do DPF, ou mesmo Niterói ou Rio. Tudo em vão. Ninguém na cúpula me atendia. Tinha mesmo de tomar alguma outra atitude e continuei a conversar com Terezinha sobre o que fazer. Madeira
quarta-feira, 11 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1980/1)

1980: ano de decisões, com êxitos e com decepções. Êxito da nossa mudança para nossa casa, conquistada totalmente por Terezinha com sua força de vontade, às vésperas do transplante em janeiro e de um êxito maior, o da realização do transplante no dia 19 de janeiro, com D. Hilda doadora e a presença de Egydio e Ivone juntos, apoiando-nos. Levei Terezinha para o Hospital São José às seis horas da manhã, com a operação marcada para às oito e meia (começou às nove), complicadíssima então, porque consistia na retirada de um rim de D. Hilda por uma equipe médica, enquanto ao lado outra equipe preparava (abria espaço) na barriga de Terezinha para a colocação desse rim, que após retirado foi lavado em um preparado especial de limpeza, antes de ser implantado no novo lugar. Os dois rins de Terezinha que não funcionavam ficariam e ficaram nos seus lugares, apenas sem as ligações de artérias, veias e uréter, e o novo seria colocado à frente, lado esquerdo da barriga, em uma cavidade forçada. Os complicadores foram a complexidade das tarefas, a sincronia necessária aos trabalhos operatórios, a multiplicidade das especialidades médicas envolvidas (nefrologistas, urologistas, anestesistas, angiologistas, instrumentistas, enfermeiros) e a pouca experiência das equipes (era o sétimo transplante realizado no ES). Pela primeira vez não fui trabalhar e levei Terezinha, ficando junto a ela até a entrada no centro cirúrgico, e depois sentei-me em uma escada, na rota do caminho da maca dela, para esperar o término da operação, em um misto de recordações da nossa vida juntos e soluços e lágrimas incontidas, acrescidos de muitas orações (ou seja, esperançoso, triste pelas dificuldades dela e todo cagado...). O que faria sem ela e com três filhos pequenos? Lembrava dos apertos que meu pai tinha passado quando tinha ficado viúvo e aí rezava mais e mais. Só me restava confiar em Deus e assim foi que esperei. Foram sete horas e meia de espera, de angústia e de confiança em Deus. Às quatro e meia horas da tarde passou Terezinha na maca, com o indefectível soro, apagada mas viva, e transplantada. D. Hilda passara por volta de uma hora da tarde. Ambas foram, por segurança, para a UTI, e eu pude enfim comer algo, agradecer a Deus pelo sucesso, agradecer também aos médicos e saber detalhes da operação. Aí soube que nas ligações das artérias e veias ao novo rim, um dos angilogistas, o Dr. Monteiro, havia perdido, deixado escapar uma veia e o sangue jorrou longe, e êle apavorado começou a sapatear e a gritar, sendo então auxiliado pelo outro angiologista, o Dr. Sandri, que recuperou a veia e a operação continuou sem mais problemas. Algo que nunca contei a Terezinha aqui vou relatar: enquanto esperava a saída dela da sala de operações, morreu lá uma pessoa que estava sendo operada não sei de quê, e o corpo passou por mim em uma maca, já todo enrolado, como uma múmia. Nessa hora as orações e o cagaço aumentaram consideravelmente. O transplante tinha dado certo, mas ainda restaram as preocupações, pois Terezinha só podia ir para casa quando o nível de creatinina estivesse estabilizado, o que seria o sinal do organismo de que estava tudo funcionando bem, que o novo rim estava dando conta do recado. Foram mais vinte e três dias de internação dela, com visitas restritas e só possíveis com vestimenta e máscara apropriadas, e nas quais mais uma vez a solidariedade e a entrega do Egydio e da Ivone foram imensas, além, é óbvio, das orações dos demais parentes e amigos, em especial da madrinha dela, D. Arlete, e de Arminda. De dia eu cuidava das crianças, deixando-as com Joana na praia (eram férias) ou no clube, o Álvares, até o almoço; depois ia para o trabalho, recolhia-os à casa de tarde e deixava-os em alguma pracinha com Joana (esta um esteio) ou em casa, e de novo trabalho, com idas rápidas para ver Terezinha, que estava em um sistema de isolamento para prevenir alguma infecção hospitalar que levasse à rejeição. Foi foda, mas nos uniu a todos mais e mais. Nosso aniversário de casamento foi sem comemorações, mas alegre porque ela estava viva e em recuperação. Nem um beijo houve, pois só podia vê-la de máscara hospitalar. Enfim, com doses maciças de corticóide, as possibilidades de rejeição foram eliminadas e Terezinha pôde voltar para casa quase um mês depois da operação, para aos poucos, com algumas restrições iniciais e exames de sangue semanais de controle, retornar à vida normal. Madeira
segunda-feira, 9 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1979/3)
1979: Terezinha enfraquecia a olhos vistos, pelo desgaste da doença, pela má alimentação, pela ausência de líquidos e pelo sacrifício da hemodiálise, mas continuava resistindo à idéia do transplante, apesar dos apelos de D. Hilda, decidida a ser a doadora, em um gesto de mãe. Telefonei para Fortaleza escondido de Terezinha e conversei com o Ismael, irmão único dela, sobre êle ser o doador, não só por ser mais compatível, mas também para não sacrificar a D. Hilda, em função de seus sessenta anos - fora que tal idade representava um rim mais vulnerável. Ismael se amarrou, ficou na dele e nunca mais atendeu telefonemas meus, numa clara resposta de que não era a doação um desejo seu. Conversei com os médicos sobre ser eu o doador e isto não seria possível, pois além de a compatibilidade ser uma exigência, havia a adequada opção pelo órgão de D. Hilda. O ano correu célere, com muitas aulas à noite e muito trabalho na SR, ainda bem que sem viagens a serviço. Os delegados, pela proximidade com o Rio, eram quase todos optantes, velhos, sem base de estudo, sem garra, acomodados, e eu os arrochando de todas as formas para produzirem. A SR começou a dar resultados, apesar de um superintendente desinteressado de êxitos, interessado apenas nas mordomias do cargo. Logo começamos a nos atritar, pois eu queria resolver tudo bem e rápido, e êle queria centralizar, para ver que frutos colheria em seu benefício. Além disso, esse sujeito possuía uma família complicada, que queria ser paparicada, e eu nunca puxei o saco alheio, pois é ou não é - e êle não era. Para complicar estourou um conflito entre Egydio e Ivone, e ela apareceu lá em casa no meio do ano, com os filhos, de mudança, querendo deixá-lo (moravam em Lorena, onde já tínhamos passado umas férias com eles); nós a acolhemos, nos apertamos, liguei para êle e nos acertamos, os dois (Terezinha foi definitiva, pois era a única pessoa que o Egydio escutava e - posso dizer mesmo - temia); arranjei a transferência dele para o ES, um apto para êles morarem e um cargo de chefia na minha coordenação. Com isso, voltamos a conviver profundamente, e nos fins de semana já estávamos todos juntos. Terezinha no final do ano já sofria de um cansaço muito grande e não conseguia mais andar muito (cansava-se logo, ficava ofegante e perto de cair), nem subir e descer as escadas do apto para ir até a hemo. Conseqüência: descia e subia as escadas no meu colo (eu estava no auge da forma física, cheio de gás e muito impulsionado pela raça dela, por seu exemplo). No final do ano, enfim, Terezinha concluiu que fazia o transplante a partir da doação de D. Hilda ou morreria, e concordou com a cirurgia. Iniciaram-se os exames dela e de D. Hilda e ficou marcado para janeiro o transplante com a equipe que a estava acompanhando desde o início do problema renal. Muitas pessoas, tais como o então superintendente do INAMPS, órgão de saúde e aposentadoria dos funcionários públicos, precursor do INSS, opinaram para ela fazer a operação no Rio ou em SP, mas Terezinha não quis deixar a equipe, a proximidade do lar, a nós, e preferiu fazer no hospital São José, do urologista Dr. Fabio Pereira, também da equipe médica. Antes de operar me disse que gostaria de se fixar cá no ES, e aqui comprar uma casa para nós. Ela se fixou em um bairro aprazível, perto do DPF, sem saída, e como sempre quando os mentores dizem amém, tudo se consegue, e em menos de três meses ela encontrou a casa que queria; então, negociou pessoalmente com os proprietários (e construtores) Sérgio e Álvara, que foram muito gentís e acelerados (queriam o dinheiro para a construção de uma casa em um bairro chique, o Mata da Praia). Com o auxílio do cargo, é óbvio, acelerei tudo na Caixa Econômica Federal, e antes do fim do ano estávamos com o contrato assinado de compra e venda, em dez anos, da casa número 40 da avenida Nossa Senhora das Graças, no Bairro de Lourdes, restando apenas acertar a data da mudança. Madeira
vivencias-madeira-cronológica (l979/2)
1979: diagnosticada a doença renal de Terezinha e indicada pelos nefrologistas do Hospital São José (dr. Delson, aquele em que Terezinha mais confiava; dr. Pio, o professor constituidor da equipe; dr. Lauro; e dr. Soriano), como única saída médica, o transplante renal, técnica nova, em especial no ES, onde só haviam sido feitos três transplantes renais, foi também informado que para dar certo deveria ser o rim doação de irmão, em primeiro lugar, e depois de pais. Instalou-se então o problema, pois Terezinha não aceitava a doação de ser vivo, por entender que estar-se-ia mutilando a pessoa doadora. Doação de rim de cadáver estava em fase bem inicial de estudos e não havia legislação a respeito. De terceiros, mesmo com as compatibilidades necessárias, não haveria a segurança de dar certo. Assim, a partir do segundo mês de Vitória, já com a presença constante de Dona Hilda, tivemos muitas conversas sobre o assunto e sua solução, sempre privilegiando e apoiando a decisão de Terezinha, ou seja, fazendo o que e como ela quisesse. Já em diálise venal - pelo braço esquerdo, com a molinha funcionando no pulso desde março -, todas as segundas, quartas e sextas eu a levava para o hospital por volta das sete e meia da manhã, depois de dar o café para as crianças e deixá-las na escola, e esperava ela ser ligada à aparelhagem (não tão moderna como a de hoje); depois ia para o trabalho na PF, com pepinos mil, e às onze e meia saía, pegava as crianças no colégio, deixava-as em casa com Joana e Dona Hilda para o almoço e ia buscar Terezinha. Era uma guerra, não pelos esforços, mas pela correria. Eu a via corajosa, sem nenhuma reclamação, só desejando ficar boa, fazendo tudo o que era mandado pelos médicos, tendo de beber, mesmo com calor, com sede, pouquíssimo líquido e com uma alimentação absolutamente sem sal. Terezinha não parava de lutar contra a doença, e dia e noite pensava em como ficar boa sem o transplante. Com isto tentamos de tudo, e deixando Dona Hilda com as crianças saíamos eu e ela, em vários finais de semana a partir de sexta à tarde, quando ela deixava o hospital, a procurar soluções (mesmo milagrosas) e outros pareceres. Sempre com todas as radiografias e exames feitos, fomos ao Rio, ao maior nefrologista do Brasil, o dr. José Henrique, em uma clínica na Gávea; ao Levy, na época no hospital da Marinha, como oficial-médico; fomos também a inúmeros centros espíritas, como o que Dona Arlete, madrinha de Terezinha e mãe de Arminda, freqüentava na Praça Mauá, ela que inclusive arranjou também um encontro de Terezinha com Chico Xavier, na Fundação Marieta Gaio, na Tijuca; fomos à Casa Espírita Cristã do IBES, onde um médium cego psicografava, o Julinho (local que hoje freqüento toda segunda-feira); e à outras igualmente sérias. Fomos também a vários milagreiros, como o Zé Arigó, em um encontro em Recife/PE; a Porto das Caixas, em Itaboraí, perto do Rio de Janeiro, onde um padre fazia milagres: à Cobilândia, onde um ex-padre, paralítico, atendia deitado e também fazia milagres; no Rio fomos ainda ao dr. Fritz, que atendia no Curtume Carioca, em Olaria; estes os lugares de que me lembro. Os sérios desta área sempre diziam o mesmo, que era coisa corpórea e que ela deveria fazer o transplante. Os vigaristas receitavam garrafadas, que de início até que Terezinha tomou, dentro da cota mínima de líquido que podia ingerir, mas inteligente como era logo abandonava. Com isto, o meu salário não dava para vivermos, e passei a dar aulas à noite (para fazer frente às novas despesas) em duas faculdades, indicado e levado pelo Mottinha: a Faesa e a UVV. A seleção foi mole, face às minhas formações e ao meu currículo. À época, para dar aulas, precisava-se da aprovação da delegacia do MEC, que existia em todos os estados (o MEC burramente as extinguiu, e hoje não existe nenhuma fiscalização sobre o ensino superior nos estados, a não ser quando são pedidas comissões de autorização ou reconhecimento), aprovação que recebi para qualquer disciplina das áreas de minha formação, direito, administração e ciências sociais. Agora nem as noites mais eu tinha livre, e Dona Hilda e Joana tocavam o barco nos dias úteis, ficando os finais de semana, quando eu não fazia as viagens de desespero com Terezinha, livres para os filhos. Então, enquanto Terezinha ficava em casa com elas (Dona Hilda e Joana), eu ia com os três para a praia ou para o clube, o Álvares. Madeira
sexta-feira, 6 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1979/1)
Tempo fechando no Espírito Santo
1979: ano complicado, bem complicado. Com um apto de três quartos pequenos e dependências alugado em Bento Ferreira, em um edifício simpático - com uma vaga de garagem que me obrigava a tirar o carro que às vezes trancava ou era trancado por outros carros - que eu tinha deixado alugado e arrumado em janeiro, quando vim só com Terezinha fazê-lo, chegamos todos (eu, Terezinha, crianças e Joana) de avião à Vitória, ao anoitecer de uma sexta feira, no início do mês de fevereiro, para na segunda eu me apresentar e começar a trabalhar. Já sabia que ia ter muito trabalho, pois - como nas outras comissões, à exceção da SR/Ceará - eu só pegava boca-podre, locais desorganizados e cheios de vícios, e a SR/ES era assim marcada (antes de vir tinha estado no CI/DPF e levantado os dados e informações sobre a SR e seus componentes). Mas desta vez a coisa seria, e foi, muito mais difícil - neste ano em especial. Desembarcamos às dezoito horas, e depois daquela euforia de todos do reconhecimento do novo lar, Terezinha começou a passar mal, muito mal, com falta de ar e inchaço nas pernas. Graças a Deus eu tinha alguns nomes de pessoas para contato, e já as tinha procurado e conhecido quando viera com Terezinha conhecer a cidade, alugar apto e montá-lo, e uma delas foi especial (com a qual, infelizmente, perdi o contato; mas ainda vou retomá-lo), o João Baptista Motta (o Mottinha), que havia sido técnico de censura contratado do DPF e de lá já tinha saído, tornando-se um grande empresário capixaba. Gentil, amigo de entregar-se, de doar-se, telefonei-lhe de imediato, pois não conhecia ninguém nem nada e logo ele apareceu lá em casa com um médico amigo, o dr. Alair (que anos depois trabalhou comigo na CST), por sinal irmão de um ex-cabo da GEB, Diomedes, meu peixe. Alair recomedou internação imediata e levou-nos para a Santa Casa, em uma ladeira no centro de Vitória, e convocou para atender Terezinha um amigo médico, então secretário de saúde do estado, o dr. Gélio (ou nome parecido). Resultado: Terezinha estava com pressão 22x20, bastante inchada, fruto da retenção de líquidos, e tomou doses cavalares (injetáveis) de remédio para retirar o excesso de água, e ainda remédios para baixar a pressão. Foi convocado, para examiná-la, o papa do cardiologismo no ES (nada como ter um cargo de importância), o professor-doutor Victor Murad, que diagnosticou um problema renal. Com isto passamos a noite inteira lá, e na segunda-feira tínhamos uma consulta marcada no hospital São José, também no centro da cidade, atrás do Parque Moscoso, que então disputava com o hospital Evangélico de Vila Velha os primeiros estudos sobre problemas renais e sua solução definitiva, o transplante. Um domingo de Terezinha deitada, de repouso e tomando remédios para pressão, sem poder beber líquidos. Mas o trabalho esperava por mim e na segunda-feira, antes de levar Terezinha ao hospital, apresentei-me, tomei posse e marquei uma reunião geral pras quatorze horas, conhecendo assim a equipe e começando a implantar a minha filosofia de trabalho. Ainda bem que era época de férias e já havíamos escolhido o colégio, a cem metros do apto, o Martim Lutero, tido como um dos melhores de Vitória. E, melhor ainda, tínhamos a Joana, que com o aprendido com Terezinha e muita garra tocava tudo com perfeição, dando-nos tranquilidade para encarar o que viesse. Ainda bem que as crianças a entendiam e colaboravam. Exames feitos disseram que Terezinha estava com os rins comprometidos, causa genética, de nascimento, com um já sem função renal, do tamanho de um figo murcho, e outro quase, com pouca funcionalidade, e que a saída seria um transplante renal. Enquanto isto ela teria de ficar na hemodiálise, ou seja, ligada dia sim, dia não à máquina purificadora, que mecanicamente retirava todo o sangue, limpava-o das impurezas e devolvia-o ao corpo, efetuando o trabalho que os rins deveriam fazer. Mas no primeiro mês, por motivos médicos, esta ação teria de ser feita pelo abdomen, através da hemodiálise peritonial, enquanto instalariam no pulso dela um chante (acho que é este o nome), um aparelhinho que forçava o sangue a circular com mais força na região do braço, por onde seria feita a hemo. Eu, que sou muito forte pra tudo, inclusive pra doenças minhas, sou fraquíssimo pra males, doenças ao meu redor, ainda mais de pessoas que amo. A tal de peritonial (saí da sala quando começaram) consistiu em, com um tipo de saca-rolhas, furar a barriga de Terezinha e lá introduzir uma sonda, retirando o excesso de líquido. Foi foda e Terezinha sem reclamar, como a admirei e admiro. Foi um ano em que ela amadureceu (muitas vezes pensando sozinha, outras em longas conversas comigo) a decisão do transplante e o nosso futuro. Madeira
quarta-feira, 4 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1978)
Estudos e começo da grande luta
1978: grande parte do ano passei na academia nacional, fazendo o curso superior de polícia, último curso policial, o de mais alto nível. Foram quase oito meses de aulas ministradas por professores de grande gabarito, todos de fora da PF, de ministros de Estado e embaixadores à sociólogos e filósofos, pois o curso não era de polícia e sim de altos estudos sobre segurança e políticas de desenvolvimento nacional. Este curso era do nível da ESG (escola superior de guerra), e devia propiciar uma visão global do país e do mundo em todos os campos, dando aos delegados de polícia a capacidade de planejamento estratégico não mais no campo policial, mas na esfera nacional da estratégia política, de desenvolvimento do Brasil diante das conjunturas brasileira e internacional. Era recheado de pesquisas, trabalhos de campo e visitas a órgãos públicos e empresas privadas de importância em todos os cenários. Foi excelente e de muita valia. Terminado o curso, para variar, fiquei em terceiro lugar entre os quarenta delegados mais antigos, e como eu completava os dois anos de praxe, lá teria eu de ir para outra comissão, em outro estado, agora no ápice da carreira, mas já bastante queimado, conhecido por querer tudo certinho, por não aceitar as ordens recebidas sem questionar. Paralelamente a isto teve início o calvário de Terezinha. Surgiu um problema de pressão alta e nada era encontrado nos exames cardiológicos, ficando ela a tomar remédios e a controlar a pressão, sem causa conhecida. Com isto, e não havendo nenhuma superintendência vaga ou indicação para tal cargo, e tendo de escolher um estado para trabalhar, sendo o segundo homem na hierarquia de qualquer lugar para o qual fosse, dado o meu cargo e minha antiguidade, escolhi - com a anuência de Terezinha e por orientação médica, pois alegaram que a pressão alta poderia ser causada pela altitude de Brasília - o Espírito Santo para atuar como coordenador regional policial. Assim ficaríamos no nível do mar e próximos do Rio, onde estavam os nossos familiares. Aqui eu iria encontrar como superintendente (e o sabia, mas não me atemorizei - afinal, a saúde dela era o mais importante) um delegado da velha guarda, oriundo da polícia civil de Brasília, velho conhecido pela incompetência e, segundo boatos, também pela desonestidade - e, além de tudo, surdo como uma porta. Vim com Terezinha no final do ano, de carro, conhecer Vitória e escolher um lugar para morar, preparando-nos para, passadas as férias de janeiro (como sempre, no Rio), fazermos a mudança definitiva - um novo ciclo, um novo lugar. Madeira
vivencias-madeira-cronológica (1977)
1977: ano que passou quase idêntico ao anterior. Muitas viagens pela ANP dando cursos-volantes para as polícias estaduais, muitas aulas na própria ANP e alguns pareceres na assessoria geral do DPF, inclusive para o ministério da justiça (naquele que creio o principal deles, negava, embasadamente, a solicitação da polícia rodoviária federal - que havia acabado de passar para o MJ - para proceder os inquéritos e flagrantes de ocorrências nas estradas federais, deixando de levá-los para a polícia judiciária da União, que era e é o DPF). Além disto, terminei o curso de administração, juntando-o aos demais diplomas de nível superior. A novidade foi, face às aulas dados nos cursos-volantes (com o acompanhamento dos instrutores do DEA - drug enforcement administration -, órgão policial federal dos USA responsável pelo combate às drogas), ter sido convidado a fazer um curso de especialização (uma pós-graduação, pois era privativa de policiais de nível superior)em prevenção e repressão às drogas. Com isto, foram cerca de cinco meses, entre abril e setembro do ano, que passei em Washington (quatro meses) e Nova Yorque (um mês), estudando o dia inteiro todos os tipos de drogas e as técnicas de investigação policial de combate às mesmas. Interessante a metodologia americana, que incluía diariamente, após um tempo mínimo de aula teórica, expositiva, o estudo de casos reais que nos forçavam a aplicar o aprendido, estudo este depois checado com o resultado real. Éramos cerca de quarenta policiais de todo o mundo, sendo cinco os delegados brasileiros. Em todos os estudos de caso feitos a maior média de acertos sempre foi nossa, dos brasileiros (pelo problema da língua éramos aglutinados), e nos foi dito ainda - pelos tradutores - que isto era o comum em todos os cursos, ou seja, os brasileiros como os melhores. O curso teve ainda prática de rua e visita aos organismos policiais federais americano como o FBI e outras agências (crimes contra o Tesouro, crimes contra a saúde pública, controle de imigração - esta a mais bem equipada, pois os imigrantes ilegais eram, segundo os americanos, o maior problema que enfrentavam). Lá alugamos, em duplas (ficamos eu e um colega, o Máximo), apartamentos de temporada, quitinetes compostas de um quarto amplo com duas camas de solteiro, e que incluíam roupa de cama e banho trocada semanalmente, quando também era realizada uma faxina. No canto ficava a cozinha, e ao lado, única parte em separado, um banheiro com chuveiro, banheira, vaso e pia. Lavagem de roupa no térreo, na lavanderia geral do prédio, com um sistema de fichas para usar as máquinas de vários tamanhos, de acordo com a quantidade levada. Como os estudos ocupavam o dia todo, tratávamos de aproveitar os finais de semana para conhecer tudo ao redor, indo aos monumentos e lugares famosos (por exemplo, Casa Branca e Capitólio em Washington, Empire State - ainda não haviam construído as torres gêmeas, que fui conhecer mais tarde com Terezinha -, Radio City e Broadway em NY) e vendo o soccer, que estava começando a fazer sucesso (pós-Pelé). Depois do curso, retorno à Brasília para as mesmas atividades, tocando também a ADPF (nossa associação de delegados). Enfim, bastante trabalho pelo crescimento do DPF e muito amor familiar. Madeira
terça-feira, 3 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológico (1976/2)
"Mexe comigo não, nojento!"
1976: assumi as funções de assessor da direção geral do DPF para assuntos de ensino, e logo me queimava definitivamente com o diretor geral, pois em uma conversa com ele discutimos por pontos de vista divergentes e eu lhe disse que ele não era da casa, não entendia de polícia, que iria (ele) embora um dia e eu permaneceria (no fim deu-se o contrário, eu é que saí, em 1980). A discussão ocorreu, entre outras coisas, pelo fato de o DPF ter ganho da justiça federal dois aviões apreendidos, que eram pilotados por pessoal da FAB, e o Moacyr Coelho os estava dando para a própria FAB, alegando que o DPF não precisaria deles, já que era descentralizado e se precisasse de algo do tipo faria então a solicitação. Pelo fato, vê-se que era uma besta (já falecida, mas uma besta). Nesta discussão chegamos aos berros, e o agente de segurança dele, que tinha sido meu soldado (o Isvami Vieira), entrou correndo na sala - o que foi bom, ou eu teria enfiado a mão em seus cornos. Daí em diante, apesar de ter minha sala ao lado da dele (éramos três assessores chefiados pelo assessor geral, um general da reserva bem banana, nem lembro o nome dele), passei a ficar direto na academia nacional de polícia, ajudando nos concursos (que se multiplicavam), na montagem dos cursos e em aulas, o que me satisfazia e fazia com que eu não respirasse o ar fétido - pela pobreza de idéias e de ideais - reinante na direção geral. O Moacyr Coelho fez a carreira toda no SNI e era homem de papel, de gabinete, de fofoca, de ficar na escuridão, e foi o principal responsável por minha saída do DPF mais à frente. Eu já ia direto para a ANP e ele não se importava, até porque eu era assessor para a área de ensino e assim não nos cruzaríamos. Afinal, eu era um dos delegados mais antigos e respeitados do departamento, cheio de elogios, e tinha acabado de colaborar (inclusive redigindo a minuta do estatuto e do regimento interno) na criação da associação dos delegados de polícia federal - ADPF -, ainda hoje existente e fortíssima ma defesa dos interesses da categoria, sendo eleito o segundo na hierarquia da mesma e seu executivo principal para o exercício do cargo de secretário geral. O presidente eleito havia sido um colega de turma, excelente delegado, o Anselmo Jarbas Muniz Freire (logo depois morto no Rio de Janeiro, em frente à favela da Rocinha, em um tiroteio com um bandido, o Niltinho do Pó, que tentou assaltá-lo), e esta era uma função mais social, de representação, de que eu não gostava e não gosto. As ações na ANP levavam-me à viagens constantes pelo Brasil, tanto para aplicar concursos quanto para dar aulas em cursos volantes pagos pelo DEA/USA, de treinamento para as polícias estaduais (para oficiais das PM´s e delegados das civis) na área de combate ao tráfico de drogas. Como cúpula eu escolhia, e aí fiz um revezamento de capitais onde trabalhar, com isto conhecendo o Brasil todo - e com as mordomias de ter um agente local levando-me e mostrando-me tudo. Nestas viagens sempre levei comigo o Altamir Balbino, velho companheiro, parceiro de fé e instrutor de primeira, que era o responsável pela montagem dos exercícios práticos de vigilância e apreensão de drogas. Terezinha e as crianças muito bem, estas pela primeira vez no ensino público, pois recebemos um apto funcional para morarmos em uma quadra da SQN 302, que era para cargos comissionados de alto nível, e nela havia uma escola pública também de alto nível (o apto comprado para casarmos era pequeno, com apenas dois quartos, e foi vendido quando fomos para Curitiba). Volta ao Minas-Brasília, às indefectíveis peladas - jogando no time de campo aos sábados à tarde e no de salão durante a semana, neste disputando o campeonato da cidade, onde chegamos a ser campeões do DF -, aos encontros com Egydio, Ivone e crianças, com almoços dominicais e apoio aos meus quando eu viajava. Enfim, com a exceção do mal-estar com a cúpula do DPF, tudo muito bom e gostoso. Madeira
segunda-feira, 2 de junho de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1976/1)
"Vamu botá as criança nu carro, juntá as tralha tudo i si mandá de volta pru meiu du Brasil-sil-sil!!"
1976: superintendência ajustada, rodando certinha, eu acompanhando todas as atividades (mas mantendo a descentralização, efetuando a função administrativa de controle) - ou seja, aparecendo na SR em horários incertos nos finais de semana ou à noite, rodando nos dias de expediente as seções e prédios, verificando o andamento dos trabalhos - e aplicando os princípios da administração científica, sem deixar de ser policial. Algumas áreas de atrito surgindo, pois delegados novos, formados na ANP, assumiam seus postos, dentro da filosofia da Revolução de evitar fortes ligações com o local onde fossem servir, e contrariavam vários interesses regionais. Não havia a possibilidade, então, de quebra-galhos, de favores e reclamações em Brasília. Mas a Revolução já estava se enfraquecendo, tanto face à derrota dos criminosos que seqüestravam e assaltavam quanto pelo paternalismo próprio do povo brasileiro. Os subversivos não violentos, em um plano muito bem traçado que dá frutos até hoje (e cada vez mais), agrupados na Igreja Católica, nas universidades federais e principalmente na imprensa (todo falso intelectual é de esquerda), levantando a bandeira da democracia, de governo do povo, de ouvir o povo, já incitavam a opinião pública - aquela mesma que tinha ido para as ruas pedir a ação militar contra a baderna -, pedindo a redemocratização, como se houvesse uma ditadura (na realidade era um governo forte; ditadura foi a de Stalin e é a de Fidel Castro, ambas com pena de morte, sem a presença da justiça e outras violências inomináveis). Democracia que em verdade era o seu (deles) instrumento para enganar o povo e se manter no poder. Com isto, mais uma vez comecei a ter problemas com políticos desonestos e gente importante da sociedade, problemas que chegaram ao ápice com um figurão tentando negar-se a ser inquirido em um inquérito da SR. O delegado titular do inquérito tremeu e fui chamado à sua sala (aí errei, era problema dele, e eu devia apenas fazê-lo ser policial sem ter medo de nada nem de ninguém). Fui lá e enquadrei o tal figurão e também o delegado. A partir daí começaram as fofocas e até cartas anônimas contra mim. Caguei e continuei meu trabalho, mas no meio do ano atingi os dois anos de comando - e era de praxe ficar apenas dois anos em cada unidade, para evitar maiores ligações regionais - e fui promovido a assessor da direção-geral do DPF, onde já estava como diretor geral (numa clara demonstração do então menor prestígio da polícia federal, que estava incomodando) um coronel da reserva, o Moacyr Coelho, com quem eu tive sérios atritos, visto a sua postura subserviente. Mais uma mudança, voltando para Brasília, para a alta esfera do DPF. Família de acordo, pois sabia que seria por dois anos a estada em qualquer lugar. Transferi a faculdade de administração para o CEUB, onde já tinha feito o curso de história, e rachamos de volta. Madeira
quinta-feira, 29 de maio de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1975)
1975: Fortaleza, trabalho, estudo, família amada e unida, com visitas de meus pais e os de Terezinha, férias no Rio, idas ao exterior (uma de Terezinha e as principais primeiras-damas à França e à Inglaterra, oferta grátis de uma grande agência de turismo local, e outra de nós dois no vôo inaugural da TAP, Fortaleza x Lisboa). Tudo muito normal para os padrões nordestinos de vips, além de duas viagens à Amazônia, cruzeiros marítimos em um navio brasileiro que então fazia, durante todo o ano, viagens pela costa brasileira, o Ana Nery (havia outro, o Rosa da Fonseca, seu irmão gêmeo). Foram viagens magnifícas, quando conhecemos Belém do Pará, Parintins, os estreitos do rio Amazonas - onde por seis horas o navio passava devagar, com árvores batendo em alguns momentos em sua lateral - e Manaus, então no auge da zona franca (Terezinha se acabou lá, tanto que em uma das viagens quase perdeu o navio por conta das compras - minhas filhas tem bem a quem sair). Em uma das vindas ao Rio tive também a oportunidade de viajar dentro da cabine com os pilotos da Transbrasil, em um BAC-ELEVEN, por pedido do gerente regional da mesma, para que eu soubesse como era. Foi sensacional: sentei no local onde antigamente vinha o engenheiro de vôo ou similar, atrás do comandante, em um tipo de cockpit, e vi o que eram uma decolagem e uma aterrissagem. Aliás, a de Recife é a mais bela chegada, pois é sobre um mar límpido, transparente. Também em Fortaleza tive a oportunidade de ir pela primeira vez a Fernando de Noronha, em avião de combate da FAB, numa inspeção do comandante da base aérea de Fortaleza. Foi lindo e inesquecível. Para ser melhor ainda minha estada lá, e também a convite desse coronel-comandante, fiz um vôo de treinamento de combate em um AMX, avião tipo Mirage, da base de Fortaleza, fruto de um consórcio franco-israelense. Não é mole não. Vesti a farda de piloto, que tem todo um interior forrado - que inclui elásticos que apertam as pernas e os braços quando do mergulho do avião, para impedir desmaios pelo forte afluxo ou defluxo de sangue para o cérebro (ao partir para o ataque) - e mandei brasa. Havia lugares determinados para vomitar, fazer xixi e beber água. Fui atrás do piloto, e se tratava de um treinamento de ataque com metralhadoras e bombas. Não sei o que foi mais difícil e forte: no de bombardeio, o piloto tem de fazer o avião mergulhar e arremeter rápido, violentamente, para fugir dos tiros de terra e dos deslocamentos de ar das explosões das bombas; no de tiros, são menores a aceleração e a subida, já que não há o deslocamento de ar das explosões. Os braços e pernas são fortemente apertados nas acelerações, prendendo bastante o sangue e fazendo-o fluir bem devagar. Na volta para a capital (o campo de treinamento ficava no interior do estado) fui brindado com um vôo de cabeça para baixo (esquisitíssimo). Não fui trabalhar na tarde deste dia por estar totalmente mareado (nem almoçar consegui direito). Travessia do Atlântico por mar e ar, submarino no CPOR, tanque de guerra no BIB, teco-teco no Maranhão, avião de combate no Ceará, helicóptero no ES - acho que já fiz mesmo de tudo. Madeira
vivencias-madeira-cronológica (1974/2)
1974: novo ciclo, agora cearense. Fortaleza deslumbrante, com engarrafamentos de madrugada na avenida Beira-Mar, povo alegre - também bairrista, mas ao mesmo tempo cosmopolita e de muito dinheiro -, sede de grandes empreendimentos e fortunas fabulosas. De novo lá vou eu, agora comandando cerca de quinhentos funcionários (o DPF tinha feito concursos e admitido muitos agentes e delegados), com um trabalho bem diferenciado do anterior. Agora tinha de andar de carro de representação, ir ao palácio do governo com freqüência (o fortalezense é festeiro), participar de reuniões com generais, trabalhar com a agência local do SNI, com a Marinha, a Aeronáutica e pregando uma forte descentralização administrativa. Treinei os delegados, em especial os coordenadores de área, e coloquei a SR para rodar à minha maneira: imparcial, rápida, firme e educada, sem muitos papos com a imprensa. Logo vieram os frutos e também veio a inveja, a raiva, a fofoca (até que demorou, talvez por no Paraná eu ser apenas mais um delegado - e novato -, e no Maranhão por ser este um estado inexpressivo), agora diferentes, pois nas reuniões em Brasília, na sede, alguns delegados mais antigos e até da minha turma (a segunda de formação) já mostravam os dentes e me criticavam. Alguns achavam que eu dava muito valor aos subordinados, orientando-os inclusive a estudar (diziam que eu queria que todo mundo fosse delegado), que com eles jogava futebol etc etc etc. Ainda bem que era tudo quanto ao meu lado humano, nunca nada profissional, de desonestidade ou incompetência. Palestras na ADESG, na assembléia legislativa e na câmara de vereadores (sobre o DPF) - com os posteriores títulos de cidadão cearense e fortalezense - acabaram por ser, mais adiante, as gotas d´àgua para a minha desilusão com a polícia federal, ou melhor, com os seus homens. Junte-se a isso o início da desmontagem da Revolução, com a assunção no DPF de um coronel da reserva do EB; logo nós, que sempre fomos comandados por um general da ativa. Família muito bem, em uma cidade maravilhosa, crianças em colégio excelente, passeios pelas praias próximas (muito boas), time de futsal de alto nível, domingos vendo jogos no Castelão e eu, como estava só administrando, resovi cursar a faculdade de administração, que terminaria lá na frente no CEUB, em Brasília (este já seria o quarto diploma de nível superior - graduação em direito, doutorado em direito público, graduação em história, com magistério). Enfim, época que se iniciava (fora os aborrecimentos internos no DPF) muito boa, de muita alegria e felicidade familiar. Madeira
vivencias-madeira-cronológica (1974/1)
Pé na estrada
1974: sem que eu pudesse antevê-la, uma nova etapa se instalaria em nosso viver. Já bem maranhense, com títulos de cidadão do estado e ludovicense (da capital), ambos por indicação de parlamentares do MDB (oposição, portanto) e no auge da Revolução, fui no meio da ano indicado para uma superintendência maior, de uma cidade mais importante, sede de comando de Região Militar, em virtude da boa administração feita na SR/MA. De fato, ao assumir o Maranhão encontrei algum descrédito com a federal, reforçado este por eu não ser maranhense (são bem bairristas), pois meus antecessores todos eram lá nascidos. Junto a isso, nas estatísticas mensais a SR/MA era a penúltima em produção, fato ocasionado tanto pelas dificuldades de efetivo (muito pequeno e cansado) quanto pela leniência de seus habitantes. Em cerca de dois anos de trabalho motivei o pessoal (muito papo, esporte, política de recompensas - licença para verem a família em troca de produção -, acompanhamento diário das atividades, policiamento às noites e em fins de semana - até hoje não entendo porque nesses dias e horas, quando é mais intensa a criminalidade, os policiais são diminuídos em efetivo), e fui também para a linha de frente, presidindo inquéritos e lavrando flagrantes. Resultado: a SR/MA saiu do penúltimo lugar em produtividade (quantidade de inquéritos e de apreensões) para o sétimo, o que causou um grande rebuliço na sede do DPF em Brasília. O preço foi alto, com muito abandono da família e desagrado de políticos locais como os donos do Maranhão, os Sarney, que anteriormente mandavam e desmandavam em todas as áreas. Minha sorte é que havia um governo central forte que não precisava barganhar votos e apoios, e que me apoiou mesmo quando eu ia contra ele, como quando recebi dois casais presos em Pindaré-Mirim, área rural do Maranhão: estavam montando uma guerrilha rural e os tratei com decência e dignidade, colocando-os juntos, casal com casal, nas duas celas que tínhamos, que eram uma para homens e outra para mulheres, comprando roupa de cama, colchões e dando um tratamento humano aos mesmos. Por minha equidistância no tratamento das causas e ocorrências que chegavam à SR é que fui homenageado pelo MDB e não pela ARENA, o que causou estranheza a muita gente: um homem da Revolução apoiado pela oposição. Então veio a surpresa do convite para mudar de comando, o que, além de nova missão, era vantajoso profissional e familiarmente, pois Fortaleza já era a cidade, principalmente em uma comparação com São Luís. Madeira
quarta-feira, 28 de maio de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1973)
Militares no Araguaia, 1972
1973: a vida seguia normalmente, no ritmo acelerado de sempre, que na verdade eu buscava imprimir a ela, dentro dos meus princípios de procurar fazer tudo certo e rápido e de aprender e desenvolver-me ao máximo nesta encarnação. Muito trabalho, e muita família em todos os momentos de folga. Viagens durante a semana, quando na presidência de inquéritos, com isto conhecendo todo o interior do Maranhão, muito pobre, porém tranquilo, com todo mundo formando um grande corpo familiar. O maranhense de início é desconfiado, mas depois de te conhecer entrega-se de corpo e alma. Tipo caboclo e altamente religioso, mas muito chegado a uma forte macumba. Terreiros espalham-se por São Luís, e do tipo de batuques, danças, cânticos africanos. Tambor de mina e tambor de crioula são duas marcas da cultura religiosa maranhense neste campo. À região da denominada Baixada Maranhense, cerca de quinze municípios, só se chegava então de avião teco-teco, pousando em campos improvisados, e com isso andei muito batendo asas por essa área do estado. Por terra conheci Imperatriz, Bacabal, Pindaré-Mirim, Viana...; enfim, tudo. Muito futebol, muita praia, visitas de meus pais e de Dona Hilda, um 73 tranquilo. Em contrapartida, face ao cargo ocupado, passei a fazer parte do CONDI-IV Exército, com sede em Recife/PE, e voltei a saber como andavam as ações terroristas/subversivas contra a ordem estabelecida, que estava levando o país a um desenvolvimento inédito. Os documentos e fotos apresentados e explicados eram assustadores pela covardia dos atentados, sempre contra pessoas que nada tinham com aqueles que agiam, ou seja, contra os membros do governo, de sua cúpula. Só atacavam pelas costas, à traição, pessoas que não tinham nada com o governo, que eram pacíficas. Xambioá era o principal assunto das reuniões mensais, e a realidade é que a população local toda era contra os guerrilheiros (por sua violência), e abastecia as forças da lei de dados sobre os passos dos militantes da esquerda armada. Também ocorreu a deserção do Carlos Lamarca, sujeito que desonrou a farda que vestia, os juramentos feitos, utilizando os conhecimentos adquiridos contra quem lhe havia ensinado a usá-los em defesa da pátria. Traidor e covarde, pois se não concordava com a ordem vigente deveria pedir baixa e partir para a luta, e não roubar o quartel em que servia e matar colegas de farda. Provocaram, buscaram o caminho da violência - e só podiam receber uma forte repressão. Madeira
terça-feira, 27 de maio de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1972/2)

Em São Luís do Maranhão, cuidado e firmeza para não escorregar nas pedras
1972: após a chegada estrelada no Maranhão, com grande apreensão de drogas, comecei a conhecer os maranhenses e fui saber porque tinha ocorrido a saída do superintendente anterior, e quem era cada um dos subordinados e das autoridades locais. Isto foi feito através de leitura de fichas funcionais, de dossiês existentes na nossa área de informações e de contatos com o SNI, agência de Fortaleza (não existia agência em São Luís). Foi muito pesado, mas encorajador: teria muito trabalho, enfrentaria os poderosos, haveria muita briga, conquistaria os bons e foderia só os vagabundos. Bom, o comandante anterior da PF por lá tinha sido afastado a pedido da igreja católica local, por ter (segundo ela) torturado dois padres estrangeiros subversivos que estavam pregando a luta armada na zona rural maranhense (uma vez confirmado o fato, foram expulsos do Brasil). Isto valeu-me a primeira briga local. Com menos de um mês como chefe da PF fui convidado para uma reunião na sede da CNBB/MA (conferência nacional dos bispos do Brasil), a qual compareci, inocentemente julgando que seria para um reencontro, para a formação de um novo elo Igreja/DPF. Lá chegando deparei-me com cerca de doze bispos sentados, com as cadeiras em forma de U e a destinada a mim na parte aberta do semi-círculo. Sentí-me na inquisição, mas guerra é guerra e aprendi a não ter medo na vida, pois o pior que pode acontecer é a morte, que na realidade é nova e melhor existência. O líder deles era dom Hélio Campos, denominado o bispo vermelho por suas declarações comunistas (ele pregava que Deus não colocou cercas nas terras, então todas deveriam ser derrubadas pelos camponeses para a sua ocupação). A primeira pergunta, sem maiores protocolos, foi se a PF era uma corporação de torturadores, de assassinos. De imediato perguntei a eles se a Igreja era uma corporação de pedófilos e homossexuais - isto para mostrar-lhes que toda organização tem gente que erra -, e eles viraram o bicho (aliás, as bichas, pois o próprio arcebispo do Maranhão era uma bichona); o diálogo ficara impossível. Daí virei as costas e fui embora. Como sempre, meu pavio meio curto botou pra quebrar. Descobri logo que o que queriam no Maranhão era a autoridade como a que eles tinham lá, ou seja, baseada no pior tipo de corrupção que existe, que é a afetiva, a de quebrar o galho dos conhecidos e dos conhecidos dos conhecidos, tudo chefiado pela família Sarney. Bem, resolvi - e só podia ser assim pela minha educação e pela formação que tive - que cumpriria a lei, e com muito cuidado para não ser traído. Foi um resto de ano difícil, só de trabalho, indo a uma ou outra cerimônia para representar o DPF, e até mesmo acordando e encontrando na porta de saída de casa (dentro, portanto, do terreno) despachos de macumba bem feios. Eu tratava de pulá-los, e então mandava limpar e jogar tudo no lixo, sem comentários. Mas São Luís (mesmo com muitos pobres, com dificuldade de tudo e com muita sujeira) tinha coisas agradáveis como a praia, o clima e a tranquilidade, pois o maranhense é como o baiano, calmo e devagar. Montei o time de futsal da SR (consegui alguns mais novos, que eram contratados da estação-rádio e dos serviços auxiliares) e as coisas começaram a ficar gostosas. Madeira
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