"Ando devagar/porque já tive pressa..."

"Ando devagar/porque já tive pressa..."
"Nessa loooonga estraaaaada da viiidaaa..."

Blog destinado a narrar as vivências do autor, através de suas opiniões sobre fatos vividos, e de marcações cronológicas, objetivando deixar para descendentes e amigos suas impressões sobre passagens de sua vida, abrangendo pessoas com sd quais se relacionou e instituições em que laborou, tudo com a visão particular, própria de todo ser humano, individualizada, pois cada pessoa tem sua forma de pensar, ser e viver. Madeira

sexta-feira, 13 de junho de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1980/3)


Descendo do ônibus e seguindo em frente

1980: punido, ao meu ver injustamente, principalmente por não ter sido ouvido, não ter tido direito de defesa e não terem sido considerados os anos de polícia e a folha de serviços, somente com elogios e comissões importantes, e ameaçado de remoção para lugar inóspito, com Terezinha recém-transplantada e, para maior desilusão minha, com movimentação de greve na PF, coisa que não aceito de jeito nenhum em algumas áreas de serviço, uma delas a policial. Resolvi que bastava de sacrifícios meus e da família, com as mudanças continuadas. Assim, com os brios à flor da pele, vomitando ressentimentos, conversei muito com Terezinha (que ponderava meus anos de serviço e meu amor à causa policial e ao DPF, mas que respeitaria minha decisão e estaria colada comigo) e me mexi. Primeiro, por vergonha de chefiar delegados tendo sido punido, e por entender que era impossível a relação profissional com o superintendente, solicitei minha exoneração do cargo de segundo nível hierárquico da SR (coordenador), dispondo-me a negociar o restante, tal fosse o local de minha remoção e a anulação da minha punição. Concedida a exoneração, face a persistir a idéia da remoção, solicitei licença para tratamento de familiar enfermo, com os devidos atestados médicos, por seis meses (esperava assim que tudo se acalmasse e se resolvesse) - e me foi negada. Notei que estava sendo seguido por agentes do serviço de informações da SR e peguei um, o agente Wanderley, na ladeira da FAESA, e dei-lhe um aperto. Ele se desculpou, pois estava cumprindo ordens. As coisas caminhavam para a minha saída mesmo. Eu ainda tinha uma tentativa para não abandonar a PF, da qual eu tinha sido um dos fundadores, um dos criadores, tendo feito parte da equipe que redigiu o regimento interno, o decreto 56.510/65; enfim, uma instituição a qual tinha me dedicado de corpo e alma, sem nada pedir ou negar a fazer e que à época estava com salários muito defasados. Esses fatos todos foram agravados pela chegada de um delegado de Brasília, enviado pela direção geral para verificar o que estava ocorrendo, e amigo íntimo do superintendente, da turma dele; um vagabundo e mau-caráter de primeira, pois quando eu soube de sua chegada o mesmo já havia se reunido com o superintendente e nem me ouviu, dizendo-me de cara que eu havia errado. Ainda ponderei se não seria melhor haver uma composição, e a resposta foi negativa. Bem, as portas estavam fechadas e restava-me botar o galho dentro, aceitando tudo de cabeça baixa como um criminoso arrependido, ou entrar na justiça e enquanto isso me foder - ou deixar tudo, guardando apenas as boas recordações e a herança dos bons exemplos dados. No dia do aniversário de Terezinha, 17 de setembro do ano, dei entrada no protocolo da SR/ES de documento solicitando a exoneração do cargo público de delegado de polícia federal, anexando ao pedido minha carteira funcional, meu brasão e a arma funcional. A partir daí comecei a dar aulas como um desesperado, pegando turmas também pela manhã, e trabalhando também em colégios e cursinhos aos sabados e domingos (já lecionava na FAESA e na UVV e passei a lecionar nos colégios Positivo e Promove, fora os cursinhos Nacional de Vila Velha e BAC em Vitória), para não faltar com as condições financeiras em casa. Foi tremendamente dolorido, às escondidas de Terezinha chorei muito, mas a decisão foi tomada e pronto. Talvez tenha sido a grande cagada de minha vida, talvez tenha sido apenas fruto de orgulho, mas algo tinha de ser feito e foi. Madeira

quinta-feira, 12 de junho de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1980/2)


Momento de descanso no prédio do DPF/ES, começo da década de 80


1980: Terezinha transplantada renal e de novo com a marca registrada dela, uma alegria e garra contagiantes. Voltamos, com os cuidados necessários para com ela, a um ritmo de vida tranquilo, de estudo e brincadeiras nos finais de semana para as crianças, e de reorganização da casa para Terezinha, apoiada pela Joana, com D. Hilda se desdobrando entre a casa dela no Rio e conosco, e eu rachando entre as atividades policiais e as aulas à noite. Mas as decepções estavam chegando, em função do meu modo de agir (deve é óbvio ter muita coisa errada, é de extremos, ou seja, ou agrado e ganho amigos ou desperto inveja, raiva e levo porrada, ainda mais dentro de uma estrutura de serviço público policial). Como na SR/DPF/ES todos os delegados e agentes só procuravam a mim para orientações, para tirar dúvidas, e como eu, desde o ano passado, estava dando aulas na Acadepol da Polícia Civil do ES - que, aliás, tinha ajudado a remontar, estruturando-a, montando cursos, coordenando-os e dando aulas, em apoio à reabertura da mesma, que estava fechada há mais de dez anos, a pedido de um professor meu colega na FAESA, o juiz aposentado Dr. Valdir Vitral, que fora indicado pelo secretário de segurança pública do ES para o cargo de diretor da academia -, o ciúme do superintendente apareceu forte. Teve início uma brutal centralização dele, tentando capar minhas atribuições de coordenador policial, dificultando minhas ordens, proibindo ações policiais sem conhecimento e autorização dele, o que o regimento interno do DPF não dizia, ou seja, minha competência estava claramente definida e muitas vezes o coordenador não dependia disso para agir. Assim os choques começaram e eu caguei para as ordens dele, continuando a trabalhar, e de novo tirando em nível estatístico a SR/ES de um dos últimos lugares em produtividade (quantidade de flagrantes, inquéritos, número e valores de apreensões) para uma das dez melhores do país. Como obviamente havia os puxa-sacos do superintendente ou aqueles que simplesmente não gostavam de mim, um fosso se fez entre nós dois, o que não podia ter ocorrido e no qual devo, é lógico, ter culpas também. Bem, no início do segundo semestre houve uma operação de combate ao tráfico de drogas, em Manguinhos, toda amarradinha, na qual, face à fuga do traficante, que usava como cobertura levar a mulher e a filha nas entregas, houve um tiroteio no qual a menininha morreu, atingida por um tiro, na ocasião sem se saber se teria sido do traficante ou do nosso pessoal. Avisado, desloquei-me à SR e dei as orientações ao delegado de plantão sobre a lavratura do flagrante, apreensão da droga, apoio às providências junto ao IML e mandei registrar tudo no livro de ocorrências, sabedor de que o superintendente o visava diariamente. No entanto, o plantonista crocodilo telefonou para ele e no domingo cedo este foi à SR e se intrometeu no caso. Daí a uma discussão violenta nossa na segunda-feira foi um passo e, sem que eu o soubesse, ele redigiu e mandou para o boletim de serviço do DPF, na parte reservada às alterações de delegados, uma punição minha de trinta dias de suspensão, além de solicitar minha transferência para outro estado. Passados alguns dias, nos quais não falei com ele, chegou o boletim com a minha punição e o recebi para passar ciente. De imediato pipocaram telefonemas de colegas, de solidariedade, e querendo saber o que havia ocorrido, pois a fama dele não era boa no DPF. Fiquei meio desorientado e soube também que estava para sair uma remoção minha, possivelmente para longe, para o Nordeste, de volta. Tentei falar com o diretor geral, de quem eu tinha sido assessor, e não fui recebido. Falei com o coordenador central policial, segunda autoridade hierárquica, e ele era da panelinha, da turma do superintendente e tirou o cu da reta - e eu só queria que tirassem a suspensão e negociassem a ida para um lugar próximo do ES, por causa de Terezinha, para que ela não ficasse longe da família e dos médicos. Eu pensava em Campos, onde havia uma delegacia do DPF, ou mesmo Niterói ou Rio. Tudo em vão. Ninguém na cúpula me atendia. Tinha mesmo de tomar alguma outra atitude e continuei a conversar com Terezinha sobre o que fazer. Madeira

quarta-feira, 11 de junho de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1980/1)



1980: ano de decisões, com êxitos e com decepções. Êxito da nossa mudança para nossa casa, conquistada totalmente por Terezinha com sua força de vontade, às vésperas do transplante em janeiro e de um êxito maior, o da realização do transplante no dia 19 de janeiro, com D. Hilda doadora e a presença de Egydio e Ivone juntos, apoiando-nos. Levei Terezinha para o Hospital São José às seis horas da manhã, com a operação marcada para às oito e meia (começou às nove), complicadíssima então, porque consistia na retirada de um rim de D. Hilda por uma equipe médica, enquanto ao lado outra equipe preparava (abria espaço) na barriga de Terezinha para a colocação desse rim, que após retirado foi lavado em um preparado especial de limpeza, antes de ser implantado no novo lugar. Os dois rins de Terezinha que não funcionavam ficariam e ficaram nos seus lugares, apenas sem as ligações de artérias, veias e uréter, e o novo seria colocado à frente, lado esquerdo da barriga, em uma cavidade forçada. Os complicadores foram a complexidade das tarefas, a sincronia necessária aos trabalhos operatórios, a multiplicidade das especialidades médicas envolvidas (nefrologistas, urologistas, anestesistas, angiologistas, instrumentistas, enfermeiros) e a pouca experiência das equipes (era o sétimo transplante realizado no ES). Pela primeira vez não fui trabalhar e levei Terezinha, ficando junto a ela até a entrada no centro cirúrgico, e depois sentei-me em uma escada, na rota do caminho da maca dela, para esperar o término da operação, em um misto de recordações da nossa vida juntos e soluços e lágrimas incontidas, acrescidos de muitas orações (ou seja, esperançoso, triste pelas dificuldades dela e todo cagado...). O que faria sem ela e com três filhos pequenos? Lembrava dos apertos que meu pai tinha passado quando tinha ficado viúvo e aí rezava mais e mais. Só me restava confiar em Deus e assim foi que esperei. Foram sete horas e meia de espera, de angústia e de confiança em Deus. Às quatro e meia horas da tarde passou Terezinha na maca, com o indefectível soro, apagada mas viva, e transplantada. D. Hilda passara por volta de uma hora da tarde. Ambas foram, por segurança, para a UTI, e eu pude enfim comer algo, agradecer a Deus pelo sucesso, agradecer também aos médicos e saber detalhes da operação. Aí soube que nas ligações das artérias e veias ao novo rim, um dos angilogistas, o Dr. Monteiro, havia perdido, deixado escapar uma veia e o sangue jorrou longe, e êle apavorado começou a sapatear e a gritar, sendo então auxiliado pelo outro angiologista, o Dr. Sandri, que recuperou a veia e a operação continuou sem mais problemas. Algo que nunca contei a Terezinha aqui vou relatar: enquanto esperava a saída dela da sala de operações, morreu lá uma pessoa que estava sendo operada não sei de quê, e o corpo passou por mim em uma maca, já todo enrolado, como uma múmia. Nessa hora as orações e o cagaço aumentaram consideravelmente. O transplante tinha dado certo, mas ainda restaram as preocupações, pois Terezinha só podia ir para casa quando o nível de creatinina estivesse estabilizado, o que seria o sinal do organismo de que estava tudo funcionando bem, que o novo rim estava dando conta do recado. Foram mais vinte e três dias de internação dela, com visitas restritas e só possíveis com vestimenta e máscara apropriadas, e nas quais mais uma vez a solidariedade e a entrega do Egydio e da Ivone foram imensas, além, é óbvio, das orações dos demais parentes e amigos, em especial da madrinha dela, D. Arlete, e de Arminda. De dia eu cuidava das crianças, deixando-as com Joana na praia (eram férias) ou no clube, o Álvares, até o almoço; depois ia para o trabalho, recolhia-os à casa de tarde e deixava-os em alguma pracinha com Joana (esta um esteio) ou em casa, e de novo trabalho, com idas rápidas para ver Terezinha, que estava em um sistema de isolamento para prevenir alguma infecção hospitalar que levasse à rejeição. Foi foda, mas nos uniu a todos mais e mais. Nosso aniversário de casamento foi sem comemorações, mas alegre porque ela estava viva e em recuperação. Nem um beijo houve, pois só podia vê-la de máscara hospitalar. Enfim, com doses maciças de corticóide, as possibilidades de rejeição foram eliminadas e Terezinha pôde voltar para casa quase um mês depois da operação, para aos poucos, com algumas restrições iniciais e exames de sangue semanais de controle, retornar à vida normal. Madeira

segunda-feira, 9 de junho de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1979/3)



1979: Terezinha enfraquecia a olhos vistos, pelo desgaste da doença, pela má alimentação, pela ausência de líquidos e pelo sacrifício da hemodiálise, mas continuava resistindo à idéia do transplante, apesar dos apelos de D. Hilda, decidida a ser a doadora, em um gesto de mãe. Telefonei para Fortaleza escondido de Terezinha e conversei com o Ismael, irmão único dela, sobre êle ser o doador, não só por ser mais compatível, mas também para não sacrificar a D. Hilda, em função de seus sessenta anos - fora que tal idade representava um rim mais vulnerável. Ismael se amarrou, ficou na dele e nunca mais atendeu telefonemas meus, numa clara resposta de que não era a doação um desejo seu. Conversei com os médicos sobre ser eu o doador e isto não seria possível, pois além de a compatibilidade ser uma exigência, havia a adequada opção pelo órgão de D. Hilda. O ano correu célere, com muitas aulas à noite e muito trabalho na SR, ainda bem que sem viagens a serviço. Os delegados, pela proximidade com o Rio, eram quase todos optantes, velhos, sem base de estudo, sem garra, acomodados, e eu os arrochando de todas as formas para produzirem. A SR começou a dar resultados, apesar de um superintendente desinteressado de êxitos, interessado apenas nas mordomias do cargo. Logo começamos a nos atritar, pois eu queria resolver tudo bem e rápido, e êle queria centralizar, para ver que frutos colheria em seu benefício. Além disso, esse sujeito possuía uma família complicada, que queria ser paparicada, e eu nunca puxei o saco alheio, pois é ou não é - e êle não era. Para complicar estourou um conflito entre Egydio e Ivone, e ela apareceu lá em casa no meio do ano, com os filhos, de mudança, querendo deixá-lo (moravam em Lorena, onde já tínhamos passado umas férias com eles); nós a acolhemos, nos apertamos, liguei para êle e nos acertamos, os dois (Terezinha foi definitiva, pois era a única pessoa que o Egydio escutava e - posso dizer mesmo - temia); arranjei a transferência dele para o ES, um apto para êles morarem e um cargo de chefia na minha coordenação. Com isso, voltamos a conviver profundamente, e nos fins de semana já estávamos todos juntos. Terezinha no final do ano já sofria de um cansaço muito grande e não conseguia mais andar muito (cansava-se logo, ficava ofegante e perto de cair), nem subir e descer as escadas do apto para ir até a hemo. Conseqüência: descia e subia as escadas no meu colo (eu estava no auge da forma física, cheio de gás e muito impulsionado pela raça dela, por seu exemplo). No final do ano, enfim, Terezinha concluiu que fazia o transplante a partir da doação de D. Hilda ou morreria, e concordou com a cirurgia. Iniciaram-se os exames dela e de D. Hilda e ficou marcado para janeiro o transplante com a equipe que a estava acompanhando desde o início do problema renal. Muitas pessoas, tais como o então superintendente do INAMPS, órgão de saúde e aposentadoria dos funcionários públicos, precursor do INSS, opinaram para ela fazer a operação no Rio ou em SP, mas Terezinha não quis deixar a equipe, a proximidade do lar, a nós, e preferiu fazer no hospital São José, do urologista Dr. Fabio Pereira, também da equipe médica. Antes de operar me disse que gostaria de se fixar cá no ES, e aqui comprar uma casa para nós. Ela se fixou em um bairro aprazível, perto do DPF, sem saída, e como sempre quando os mentores dizem amém, tudo se consegue, e em menos de três meses ela encontrou a casa que queria; então, negociou pessoalmente com os proprietários (e construtores) Sérgio e Álvara, que foram muito gentís e acelerados (queriam o dinheiro para a construção de uma casa em um bairro chique, o Mata da Praia). Com o auxílio do cargo, é óbvio, acelerei tudo na Caixa Econômica Federal, e antes do fim do ano estávamos com o contrato assinado de compra e venda, em dez anos, da casa número 40 da avenida Nossa Senhora das Graças, no Bairro de Lourdes, restando apenas acertar a data da mudança. Madeira

vivencias-madeira-cronológica (l979/2)



1979: diagnosticada a doença renal de Terezinha e indicada pelos nefrologistas do Hospital São José (dr. Delson, aquele em que Terezinha mais confiava; dr. Pio, o professor constituidor da equipe; dr. Lauro; e dr. Soriano), como única saída médica, o transplante renal, técnica nova, em especial no ES, onde só haviam sido feitos três transplantes renais, foi também informado que para dar certo deveria ser o rim doação de irmão, em primeiro lugar, e depois de pais. Instalou-se então o problema, pois Terezinha não aceitava a doação de ser vivo, por entender que estar-se-ia mutilando a pessoa doadora. Doação de rim de cadáver estava em fase bem inicial de estudos e não havia legislação a respeito. De terceiros, mesmo com as compatibilidades necessárias, não haveria a segurança de dar certo. Assim, a partir do segundo mês de Vitória, já com a presença constante de Dona Hilda, tivemos muitas conversas sobre o assunto e sua solução, sempre privilegiando e apoiando a decisão de Terezinha, ou seja, fazendo o que e como ela quisesse. Já em diálise venal - pelo braço esquerdo, com a molinha funcionando no pulso desde março -, todas as segundas, quartas e sextas eu a levava para o hospital por volta das sete e meia da manhã, depois de dar o café para as crianças e deixá-las na escola, e esperava ela ser ligada à aparelhagem (não tão moderna como a de hoje); depois ia para o trabalho na PF, com pepinos mil, e às onze e meia saía, pegava as crianças no colégio, deixava-as em casa com Joana e Dona Hilda para o almoço e ia buscar Terezinha. Era uma guerra, não pelos esforços, mas pela correria. Eu a via corajosa, sem nenhuma reclamação, só desejando ficar boa, fazendo tudo o que era mandado pelos médicos, tendo de beber, mesmo com calor, com sede, pouquíssimo líquido e com uma alimentação absolutamente sem sal. Terezinha não parava de lutar contra a doença, e dia e noite pensava em como ficar boa sem o transplante. Com isto tentamos de tudo, e deixando Dona Hilda com as crianças saíamos eu e ela, em vários finais de semana a partir de sexta à tarde, quando ela deixava o hospital, a procurar soluções (mesmo milagrosas) e outros pareceres. Sempre com todas as radiografias e exames feitos, fomos ao Rio, ao maior nefrologista do Brasil, o dr. José Henrique, em uma clínica na Gávea; ao Levy, na época no hospital da Marinha, como oficial-médico; fomos também a inúmeros centros espíritas, como o que Dona Arlete, madrinha de Terezinha e mãe de Arminda, freqüentava na Praça Mauá, ela que inclusive arranjou também um encontro de Terezinha com Chico Xavier, na Fundação Marieta Gaio, na Tijuca; fomos à Casa Espírita Cristã do IBES, onde um médium cego psicografava, o Julinho (local que hoje freqüento toda segunda-feira); e à outras igualmente sérias. Fomos também a vários milagreiros, como o Zé Arigó, em um encontro em Recife/PE; a Porto das Caixas, em Itaboraí, perto do Rio de Janeiro, onde um padre fazia milagres: à Cobilândia, onde um ex-padre, paralítico, atendia deitado e também fazia milagres; no Rio fomos ainda ao dr. Fritz, que atendia no Curtume Carioca, em Olaria; estes os lugares de que me lembro. Os sérios desta área sempre diziam o mesmo, que era coisa corpórea e que ela deveria fazer o transplante. Os vigaristas receitavam garrafadas, que de início até que Terezinha tomou, dentro da cota mínima de líquido que podia ingerir, mas inteligente como era logo abandonava. Com isto, o meu salário não dava para vivermos, e passei a dar aulas à noite (para fazer frente às novas despesas) em duas faculdades, indicado e levado pelo Mottinha: a Faesa e a UVV. A seleção foi mole, face às minhas formações e ao meu currículo. À época, para dar aulas, precisava-se da aprovação da delegacia do MEC, que existia em todos os estados (o MEC burramente as extinguiu, e hoje não existe nenhuma fiscalização sobre o ensino superior nos estados, a não ser quando são pedidas comissões de autorização ou reconhecimento), aprovação que recebi para qualquer disciplina das áreas de minha formação, direito, administração e ciências sociais. Agora nem as noites mais eu tinha livre, e Dona Hilda e Joana tocavam o barco nos dias úteis, ficando os finais de semana, quando eu não fazia as viagens de desespero com Terezinha, livres para os filhos. Então, enquanto Terezinha ficava em casa com elas (Dona Hilda e Joana), eu ia com os três para a praia ou para o clube, o Álvares. Madeira

sexta-feira, 6 de junho de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1979/1)


Tempo fechando no Espírito Santo


1979: ano complicado, bem complicado. Com um apto de três quartos pequenos e dependências alugado em Bento Ferreira, em um edifício simpático - com uma vaga de garagem que me obrigava a tirar o carro que às vezes trancava ou era trancado por outros carros - que eu tinha deixado alugado e arrumado em janeiro, quando vim só com Terezinha fazê-lo, chegamos todos (eu, Terezinha, crianças e Joana) de avião à Vitória, ao anoitecer de uma sexta feira, no início do mês de fevereiro, para na segunda eu me apresentar e começar a trabalhar. Já sabia que ia ter muito trabalho, pois - como nas outras comissões, à exceção da SR/Ceará - eu só pegava boca-podre, locais desorganizados e cheios de vícios, e a SR/ES era assim marcada (antes de vir tinha estado no CI/DPF e levantado os dados e informações sobre a SR e seus componentes). Mas desta vez a coisa seria, e foi, muito mais difícil - neste ano em especial. Desembarcamos às dezoito horas, e depois daquela euforia de todos do reconhecimento do novo lar, Terezinha começou a passar mal, muito mal, com falta de ar e inchaço nas pernas. Graças a Deus eu tinha alguns nomes de pessoas para contato, e já as tinha procurado e conhecido quando viera com Terezinha conhecer a cidade, alugar apto e montá-lo, e uma delas foi especial (com a qual, infelizmente, perdi o contato; mas ainda vou retomá-lo), o João Baptista Motta (o Mottinha), que havia sido técnico de censura contratado do DPF e de lá já tinha saído, tornando-se um grande empresário capixaba. Gentil, amigo de entregar-se, de doar-se, telefonei-lhe de imediato, pois não conhecia ninguém nem nada e logo ele apareceu lá em casa com um médico amigo, o dr. Alair (que anos depois trabalhou comigo na CST), por sinal irmão de um ex-cabo da GEB, Diomedes, meu peixe. Alair recomedou internação imediata e levou-nos para a Santa Casa, em uma ladeira no centro de Vitória, e convocou para atender Terezinha um amigo médico, então secretário de saúde do estado, o dr. Gélio (ou nome parecido). Resultado: Terezinha estava com pressão 22x20, bastante inchada, fruto da retenção de líquidos, e tomou doses cavalares (injetáveis) de remédio para retirar o excesso de água, e ainda remédios para baixar a pressão. Foi convocado, para examiná-la, o papa do cardiologismo no ES (nada como ter um cargo de importância), o professor-doutor Victor Murad, que diagnosticou um problema renal. Com isto passamos a noite inteira lá, e na segunda-feira tínhamos uma consulta marcada no hospital São José, também no centro da cidade, atrás do Parque Moscoso, que então disputava com o hospital Evangélico de Vila Velha os primeiros estudos sobre problemas renais e sua solução definitiva, o transplante. Um domingo de Terezinha deitada, de repouso e tomando remédios para pressão, sem poder beber líquidos. Mas o trabalho esperava por mim e na segunda-feira, antes de levar Terezinha ao hospital, apresentei-me, tomei posse e marquei uma reunião geral pras quatorze horas, conhecendo assim a equipe e começando a implantar a minha filosofia de trabalho. Ainda bem que era época de férias e já havíamos escolhido o colégio, a cem metros do apto, o Martim Lutero, tido como um dos melhores de Vitória. E, melhor ainda, tínhamos a Joana, que com o aprendido com Terezinha e muita garra tocava tudo com perfeição, dando-nos tranquilidade para encarar o que viesse. Ainda bem que as crianças a entendiam e colaboravam. Exames feitos disseram que Terezinha estava com os rins comprometidos, causa genética, de nascimento, com um já sem função renal, do tamanho de um figo murcho, e outro quase, com pouca funcionalidade, e que a saída seria um transplante renal. Enquanto isto ela teria de ficar na hemodiálise, ou seja, ligada dia sim, dia não à máquina purificadora, que mecanicamente retirava todo o sangue, limpava-o das impurezas e devolvia-o ao corpo, efetuando o trabalho que os rins deveriam fazer. Mas no primeiro mês, por motivos médicos, esta ação teria de ser feita pelo abdomen, através da hemodiálise peritonial, enquanto instalariam no pulso dela um chante (acho que é este o nome), um aparelhinho que forçava o sangue a circular com mais força na região do braço, por onde seria feita a hemo. Eu, que sou muito forte pra tudo, inclusive pra doenças minhas, sou fraquíssimo pra males, doenças ao meu redor, ainda mais de pessoas que amo. A tal de peritonial (saí da sala quando começaram) consistiu em, com um tipo de saca-rolhas, furar a barriga de Terezinha e lá introduzir uma sonda, retirando o excesso de líquido. Foi foda e Terezinha sem reclamar, como a admirei e admiro. Foi um ano em que ela amadureceu (muitas vezes pensando sozinha, outras em longas conversas comigo) a decisão do transplante e o nosso futuro. Madeira

quarta-feira, 4 de junho de 2008

vivencias-madeira-cronologica (1978)


Estudos e começo da grande luta


1978: grande parte do ano passei na academia nacional, fazendo o curso superior de polícia, último curso policial, o de mais alto nível. Foram quase oito meses de aulas ministradas por professores de grande gabarito, todos de fora da PF, de ministros de Estado e embaixadores à sociólogos e filósofos, pois o curso não era de polícia e sim de altos estudos sobre segurança e políticas de desenvolvimento nacional. Este curso era do nível da ESG (escola superior de guerra), e devia propiciar uma visão global do país e do mundo em todos os campos, dando aos delegados de polícia a capacidade de planejamento estratégico não mais no campo policial, mas na esfera nacional da estratégia política, de desenvolvimento do Brasil diante das conjunturas brasileira e internacional. Era recheado de pesquisas, trabalhos de campo e visitas a órgãos públicos e empresas privadas de importância em todos os cenários. Foi excelente e de muita valia. Terminado o curso, para variar, fiquei em terceiro lugar entre os quarenta delegados mais antigos, e como eu completava os dois anos de praxe, lá teria eu de ir para outra comissão, em outro estado, agora no ápice da carreira, mas já bastante queimado, conhecido por querer tudo certinho, por não aceitar as ordens recebidas sem questionar. Paralelamente a isto teve início o calvário de Terezinha. Surgiu um problema de pressão alta e nada era encontrado nos exames cardiológicos, ficando ela a tomar remédios e a controlar a pressão, sem causa conhecida. Com isto, e não havendo nenhuma superintendência vaga ou indicação para tal cargo, e tendo de escolher um estado para trabalhar, sendo o segundo homem na hierarquia de qualquer lugar para o qual fosse, dado o meu cargo e minha antiguidade, escolhi - com a anuência de Terezinha e por orientação médica, pois alegaram que a pressão alta poderia ser causada pela altitude de Brasília - o Espírito Santo para atuar como coordenador regional policial. Assim ficaríamos no nível do mar e próximos do Rio, onde estavam os nossos familiares. Aqui eu iria encontrar como superintendente (e o sabia, mas não me atemorizei - afinal, a saúde dela era o mais importante) um delegado da velha guarda, oriundo da polícia civil de Brasília, velho conhecido pela incompetência e, segundo boatos, também pela desonestidade - e, além de tudo, surdo como uma porta. Vim com Terezinha no final do ano, de carro, conhecer Vitória e escolher um lugar para morar, preparando-nos para, passadas as férias de janeiro (como sempre, no Rio), fazermos a mudança definitiva - um novo ciclo, um novo lugar. Madeira

vivencias-madeira-cronológica (1977)



1977: ano que passou quase idêntico ao anterior. Muitas viagens pela ANP dando cursos-volantes para as polícias estaduais, muitas aulas na própria ANP e alguns pareceres na assessoria geral do DPF, inclusive para o ministério da justiça (naquele que creio o principal deles, negava, embasadamente, a solicitação da polícia rodoviária federal - que havia acabado de passar para o MJ - para proceder os inquéritos e flagrantes de ocorrências nas estradas federais, deixando de levá-los para a polícia judiciária da União, que era e é o DPF). Além disto, terminei o curso de administração, juntando-o aos demais diplomas de nível superior. A novidade foi, face às aulas dados nos cursos-volantes (com o acompanhamento dos instrutores do DEA - drug enforcement administration -, órgão policial federal dos USA responsável pelo combate às drogas), ter sido convidado a fazer um curso de especialização (uma pós-graduação, pois era privativa de policiais de nível superior)em prevenção e repressão às drogas. Com isto, foram cerca de cinco meses, entre abril e setembro do ano, que passei em Washington (quatro meses) e Nova Yorque (um mês), estudando o dia inteiro todos os tipos de drogas e as técnicas de investigação policial de combate às mesmas. Interessante a metodologia americana, que incluía diariamente, após um tempo mínimo de aula teórica, expositiva, o estudo de casos reais que nos forçavam a aplicar o aprendido, estudo este depois checado com o resultado real. Éramos cerca de quarenta policiais de todo o mundo, sendo cinco os delegados brasileiros. Em todos os estudos de caso feitos a maior média de acertos sempre foi nossa, dos brasileiros (pelo problema da língua éramos aglutinados), e nos foi dito ainda - pelos tradutores - que isto era o comum em todos os cursos, ou seja, os brasileiros como os melhores. O curso teve ainda prática de rua e visita aos organismos policiais federais americano como o FBI e outras agências (crimes contra o Tesouro, crimes contra a saúde pública, controle de imigração - esta a mais bem equipada, pois os imigrantes ilegais eram, segundo os americanos, o maior problema que enfrentavam). Lá alugamos, em duplas (ficamos eu e um colega, o Máximo), apartamentos de temporada, quitinetes compostas de um quarto amplo com duas camas de solteiro, e que incluíam roupa de cama e banho trocada semanalmente, quando também era realizada uma faxina. No canto ficava a cozinha, e ao lado, única parte em separado, um banheiro com chuveiro, banheira, vaso e pia. Lavagem de roupa no térreo, na lavanderia geral do prédio, com um sistema de fichas para usar as máquinas de vários tamanhos, de acordo com a quantidade levada. Como os estudos ocupavam o dia todo, tratávamos de aproveitar os finais de semana para conhecer tudo ao redor, indo aos monumentos e lugares famosos (por exemplo, Casa Branca e Capitólio em Washington, Empire State - ainda não haviam construído as torres gêmeas, que fui conhecer mais tarde com Terezinha -, Radio City e Broadway em NY) e vendo o soccer, que estava começando a fazer sucesso (pós-Pelé). Depois do curso, retorno à Brasília para as mesmas atividades, tocando também a ADPF (nossa associação de delegados). Enfim, bastante trabalho pelo crescimento do DPF e muito amor familiar. Madeira

terça-feira, 3 de junho de 2008

vivencias-madeira-cronológico (1976/2)


"Mexe comigo não, nojento!"


1976: assumi as funções de assessor da direção geral do DPF para assuntos de ensino, e logo me queimava definitivamente com o diretor geral, pois em uma conversa com ele discutimos por pontos de vista divergentes e eu lhe disse que ele não era da casa, não entendia de polícia, que iria (ele) embora um dia e eu permaneceria (no fim deu-se o contrário, eu é que saí, em 1980). A discussão ocorreu, entre outras coisas, pelo fato de o DPF ter ganho da justiça federal dois aviões apreendidos, que eram pilotados por pessoal da FAB, e o Moacyr Coelho os estava dando para a própria FAB, alegando que o DPF não precisaria deles, já que era descentralizado e se precisasse de algo do tipo faria então a solicitação. Pelo fato, vê-se que era uma besta (já falecida, mas uma besta). Nesta discussão chegamos aos berros, e o agente de segurança dele, que tinha sido meu soldado (o Isvami Vieira), entrou correndo na sala - o que foi bom, ou eu teria enfiado a mão em seus cornos. Daí em diante, apesar de ter minha sala ao lado da dele (éramos três assessores chefiados pelo assessor geral, um general da reserva bem banana, nem lembro o nome dele), passei a ficar direto na academia nacional de polícia, ajudando nos concursos (que se multiplicavam), na montagem dos cursos e em aulas, o que me satisfazia e fazia com que eu não respirasse o ar fétido - pela pobreza de idéias e de ideais - reinante na direção geral. O Moacyr Coelho fez a carreira toda no SNI e era homem de papel, de gabinete, de fofoca, de ficar na escuridão, e foi o principal responsável por minha saída do DPF mais à frente. Eu já ia direto para a ANP e ele não se importava, até porque eu era assessor para a área de ensino e assim não nos cruzaríamos. Afinal, eu era um dos delegados mais antigos e respeitados do departamento, cheio de elogios, e tinha acabado de colaborar (inclusive redigindo a minuta do estatuto e do regimento interno) na criação da associação dos delegados de polícia federal - ADPF -, ainda hoje existente e fortíssima ma defesa dos interesses da categoria, sendo eleito o segundo na hierarquia da mesma e seu executivo principal para o exercício do cargo de secretário geral. O presidente eleito havia sido um colega de turma, excelente delegado, o Anselmo Jarbas Muniz Freire (logo depois morto no Rio de Janeiro, em frente à favela da Rocinha, em um tiroteio com um bandido, o Niltinho do Pó, que tentou assaltá-lo), e esta era uma função mais social, de representação, de que eu não gostava e não gosto. As ações na ANP levavam-me à viagens constantes pelo Brasil, tanto para aplicar concursos quanto para dar aulas em cursos volantes pagos pelo DEA/USA, de treinamento para as polícias estaduais (para oficiais das PM´s e delegados das civis) na área de combate ao tráfico de drogas. Como cúpula eu escolhia, e aí fiz um revezamento de capitais onde trabalhar, com isto conhecendo o Brasil todo - e com as mordomias de ter um agente local levando-me e mostrando-me tudo. Nestas viagens sempre levei comigo o Altamir Balbino, velho companheiro, parceiro de fé e instrutor de primeira, que era o responsável pela montagem dos exercícios práticos de vigilância e apreensão de drogas. Terezinha e as crianças muito bem, estas pela primeira vez no ensino público, pois recebemos um apto funcional para morarmos em uma quadra da SQN 302, que era para cargos comissionados de alto nível, e nela havia uma escola pública também de alto nível (o apto comprado para casarmos era pequeno, com apenas dois quartos, e foi vendido quando fomos para Curitiba). Volta ao Minas-Brasília, às indefectíveis peladas - jogando no time de campo aos sábados à tarde e no de salão durante a semana, neste disputando o campeonato da cidade, onde chegamos a ser campeões do DF -, aos encontros com Egydio, Ivone e crianças, com almoços dominicais e apoio aos meus quando eu viajava. Enfim, com a exceção do mal-estar com a cúpula do DPF, tudo muito bom e gostoso. Madeira

segunda-feira, 2 de junho de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1976/1)


"Vamu botá as criança nu carro, juntá as tralha tudo i si mandá de volta pru meiu du Brasil-sil-sil!!"


1976: superintendência ajustada, rodando certinha, eu acompanhando todas as atividades (mas mantendo a descentralização, efetuando a função administrativa de controle) - ou seja, aparecendo na SR em horários incertos nos finais de semana ou à noite, rodando nos dias de expediente as seções e prédios, verificando o andamento dos trabalhos - e aplicando os princípios da administração científica, sem deixar de ser policial. Algumas áreas de atrito surgindo, pois delegados novos, formados na ANP, assumiam seus postos, dentro da filosofia da Revolução de evitar fortes ligações com o local onde fossem servir, e contrariavam vários interesses regionais. Não havia a possibilidade, então, de quebra-galhos, de favores e reclamações em Brasília. Mas a Revolução já estava se enfraquecendo, tanto face à derrota dos criminosos que seqüestravam e assaltavam quanto pelo paternalismo próprio do povo brasileiro. Os subversivos não violentos, em um plano muito bem traçado que dá frutos até hoje (e cada vez mais), agrupados na Igreja Católica, nas universidades federais e principalmente na imprensa (todo falso intelectual é de esquerda), levantando a bandeira da democracia, de governo do povo, de ouvir o povo, já incitavam a opinião pública - aquela mesma que tinha ido para as ruas pedir a ação militar contra a baderna -, pedindo a redemocratização, como se houvesse uma ditadura (na realidade era um governo forte; ditadura foi a de Stalin e é a de Fidel Castro, ambas com pena de morte, sem a presença da justiça e outras violências inomináveis). Democracia que em verdade era o seu (deles) instrumento para enganar o povo e se manter no poder. Com isto, mais uma vez comecei a ter problemas com políticos desonestos e gente importante da sociedade, problemas que chegaram ao ápice com um figurão tentando negar-se a ser inquirido em um inquérito da SR. O delegado titular do inquérito tremeu e fui chamado à sua sala (aí errei, era problema dele, e eu devia apenas fazê-lo ser policial sem ter medo de nada nem de ninguém). Fui lá e enquadrei o tal figurão e também o delegado. A partir daí começaram as fofocas e até cartas anônimas contra mim. Caguei e continuei meu trabalho, mas no meio do ano atingi os dois anos de comando - e era de praxe ficar apenas dois anos em cada unidade, para evitar maiores ligações regionais - e fui promovido a assessor da direção-geral do DPF, onde já estava como diretor geral (numa clara demonstração do então menor prestígio da polícia federal, que estava incomodando) um coronel da reserva, o Moacyr Coelho, com quem eu tive sérios atritos, visto a sua postura subserviente. Mais uma mudança, voltando para Brasília, para a alta esfera do DPF. Família de acordo, pois sabia que seria por dois anos a estada em qualquer lugar. Transferi a faculdade de administração para o CEUB, onde já tinha feito o curso de história, e rachamos de volta. Madeira

quinta-feira, 29 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1975)



1975: Fortaleza, trabalho, estudo, família amada e unida, com visitas de meus pais e os de Terezinha, férias no Rio, idas ao exterior (uma de Terezinha e as principais primeiras-damas à França e à Inglaterra, oferta grátis de uma grande agência de turismo local, e outra de nós dois no vôo inaugural da TAP, Fortaleza x Lisboa). Tudo muito normal para os padrões nordestinos de vips, além de duas viagens à Amazônia, cruzeiros marítimos em um navio brasileiro que então fazia, durante todo o ano, viagens pela costa brasileira, o Ana Nery (havia outro, o Rosa da Fonseca, seu irmão gêmeo). Foram viagens magnifícas, quando conhecemos Belém do Pará, Parintins, os estreitos do rio Amazonas - onde por seis horas o navio passava devagar, com árvores batendo em alguns momentos em sua lateral - e Manaus, então no auge da zona franca (Terezinha se acabou lá, tanto que em uma das viagens quase perdeu o navio por conta das compras - minhas filhas tem bem a quem sair). Em uma das vindas ao Rio tive também a oportunidade de viajar dentro da cabine com os pilotos da Transbrasil, em um BAC-ELEVEN, por pedido do gerente regional da mesma, para que eu soubesse como era. Foi sensacional: sentei no local onde antigamente vinha o engenheiro de vôo ou similar, atrás do comandante, em um tipo de cockpit, e vi o que eram uma decolagem e uma aterrissagem. Aliás, a de Recife é a mais bela chegada, pois é sobre um mar límpido, transparente. Também em Fortaleza tive a oportunidade de ir pela primeira vez a Fernando de Noronha, em avião de combate da FAB, numa inspeção do comandante da base aérea de Fortaleza. Foi lindo e inesquecível. Para ser melhor ainda minha estada lá, e também a convite desse coronel-comandante, fiz um vôo de treinamento de combate em um AMX, avião tipo Mirage, da base de Fortaleza, fruto de um consórcio franco-israelense. Não é mole não. Vesti a farda de piloto, que tem todo um interior forrado - que inclui elásticos que apertam as pernas e os braços quando do mergulho do avião, para impedir desmaios pelo forte afluxo ou defluxo de sangue para o cérebro (ao partir para o ataque) - e mandei brasa. Havia lugares determinados para vomitar, fazer xixi e beber água. Fui atrás do piloto, e se tratava de um treinamento de ataque com metralhadoras e bombas. Não sei o que foi mais difícil e forte: no de bombardeio, o piloto tem de fazer o avião mergulhar e arremeter rápido, violentamente, para fugir dos tiros de terra e dos deslocamentos de ar das explosões das bombas; no de tiros, são menores a aceleração e a subida, já que não há o deslocamento de ar das explosões. Os braços e pernas são fortemente apertados nas acelerações, prendendo bastante o sangue e fazendo-o fluir bem devagar. Na volta para a capital (o campo de treinamento ficava no interior do estado) fui brindado com um vôo de cabeça para baixo (esquisitíssimo). Não fui trabalhar na tarde deste dia por estar totalmente mareado (nem almoçar consegui direito). Travessia do Atlântico por mar e ar, submarino no CPOR, tanque de guerra no BIB, teco-teco no Maranhão, avião de combate no Ceará, helicóptero no ES - acho que já fiz mesmo de tudo. Madeira

vivencias-madeira-cronológica (1974/2)



1974: novo ciclo, agora cearense. Fortaleza deslumbrante, com engarrafamentos de madrugada na avenida Beira-Mar, povo alegre - também bairrista, mas ao mesmo tempo cosmopolita e de muito dinheiro -, sede de grandes empreendimentos e fortunas fabulosas. De novo lá vou eu, agora comandando cerca de quinhentos funcionários (o DPF tinha feito concursos e admitido muitos agentes e delegados), com um trabalho bem diferenciado do anterior. Agora tinha de andar de carro de representação, ir ao palácio do governo com freqüência (o fortalezense é festeiro), participar de reuniões com generais, trabalhar com a agência local do SNI, com a Marinha, a Aeronáutica e pregando uma forte descentralização administrativa. Treinei os delegados, em especial os coordenadores de área, e coloquei a SR para rodar à minha maneira: imparcial, rápida, firme e educada, sem muitos papos com a imprensa. Logo vieram os frutos e também veio a inveja, a raiva, a fofoca (até que demorou, talvez por no Paraná eu ser apenas mais um delegado - e novato -, e no Maranhão por ser este um estado inexpressivo), agora diferentes, pois nas reuniões em Brasília, na sede, alguns delegados mais antigos e até da minha turma (a segunda de formação) já mostravam os dentes e me criticavam. Alguns achavam que eu dava muito valor aos subordinados, orientando-os inclusive a estudar (diziam que eu queria que todo mundo fosse delegado), que com eles jogava futebol etc etc etc. Ainda bem que era tudo quanto ao meu lado humano, nunca nada profissional, de desonestidade ou incompetência. Palestras na ADESG, na assembléia legislativa e na câmara de vereadores (sobre o DPF) - com os posteriores títulos de cidadão cearense e fortalezense - acabaram por ser, mais adiante, as gotas d´àgua para a minha desilusão com a polícia federal, ou melhor, com os seus homens. Junte-se a isso o início da desmontagem da Revolução, com a assunção no DPF de um coronel da reserva do EB; logo nós, que sempre fomos comandados por um general da ativa. Família muito bem, em uma cidade maravilhosa, crianças em colégio excelente, passeios pelas praias próximas (muito boas), time de futsal de alto nível, domingos vendo jogos no Castelão e eu, como estava só administrando, resovi cursar a faculdade de administração, que terminaria lá na frente no CEUB, em Brasília (este já seria o quarto diploma de nível superior - graduação em direito, doutorado em direito público, graduação em história, com magistério). Enfim, época que se iniciava (fora os aborrecimentos internos no DPF) muito boa, de muita alegria e felicidade familiar. Madeira

vivencias-madeira-cronológica (1974/1)


Pé na estrada


1974: sem que eu pudesse antevê-la, uma nova etapa se instalaria em nosso viver. Já bem maranhense, com títulos de cidadão do estado e ludovicense (da capital), ambos por indicação de parlamentares do MDB (oposição, portanto) e no auge da Revolução, fui no meio da ano indicado para uma superintendência maior, de uma cidade mais importante, sede de comando de Região Militar, em virtude da boa administração feita na SR/MA. De fato, ao assumir o Maranhão encontrei algum descrédito com a federal, reforçado este por eu não ser maranhense (são bem bairristas), pois meus antecessores todos eram lá nascidos. Junto a isso, nas estatísticas mensais a SR/MA era a penúltima em produção, fato ocasionado tanto pelas dificuldades de efetivo (muito pequeno e cansado) quanto pela leniência de seus habitantes. Em cerca de dois anos de trabalho motivei o pessoal (muito papo, esporte, política de recompensas - licença para verem a família em troca de produção -, acompanhamento diário das atividades, policiamento às noites e em fins de semana - até hoje não entendo porque nesses dias e horas, quando é mais intensa a criminalidade, os policiais são diminuídos em efetivo), e fui também para a linha de frente, presidindo inquéritos e lavrando flagrantes. Resultado: a SR/MA saiu do penúltimo lugar em produtividade (quantidade de inquéritos e de apreensões) para o sétimo, o que causou um grande rebuliço na sede do DPF em Brasília. O preço foi alto, com muito abandono da família e desagrado de políticos locais como os donos do Maranhão, os Sarney, que anteriormente mandavam e desmandavam em todas as áreas. Minha sorte é que havia um governo central forte que não precisava barganhar votos e apoios, e que me apoiou mesmo quando eu ia contra ele, como quando recebi dois casais presos em Pindaré-Mirim, área rural do Maranhão: estavam montando uma guerrilha rural e os tratei com decência e dignidade, colocando-os juntos, casal com casal, nas duas celas que tínhamos, que eram uma para homens e outra para mulheres, comprando roupa de cama, colchões e dando um tratamento humano aos mesmos. Por minha equidistância no tratamento das causas e ocorrências que chegavam à SR é que fui homenageado pelo MDB e não pela ARENA, o que causou estranheza a muita gente: um homem da Revolução apoiado pela oposição. Então veio a surpresa do convite para mudar de comando, o que, além de nova missão, era vantajoso profissional e familiarmente, pois Fortaleza já era a cidade, principalmente em uma comparação com São Luís. Madeira

quarta-feira, 28 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1973)


Militares no Araguaia, 1972


1973: a vida seguia normalmente, no ritmo acelerado de sempre, que na verdade eu buscava imprimir a ela, dentro dos meus princípios de procurar fazer tudo certo e rápido e de aprender e desenvolver-me ao máximo nesta encarnação. Muito trabalho, e muita família em todos os momentos de folga. Viagens durante a semana, quando na presidência de inquéritos, com isto conhecendo todo o interior do Maranhão, muito pobre, porém tranquilo, com todo mundo formando um grande corpo familiar. O maranhense de início é desconfiado, mas depois de te conhecer entrega-se de corpo e alma. Tipo caboclo e altamente religioso, mas muito chegado a uma forte macumba. Terreiros espalham-se por São Luís, e do tipo de batuques, danças, cânticos africanos. Tambor de mina e tambor de crioula são duas marcas da cultura religiosa maranhense neste campo. À região da denominada Baixada Maranhense, cerca de quinze municípios, só se chegava então de avião teco-teco, pousando em campos improvisados, e com isso andei muito batendo asas por essa área do estado. Por terra conheci Imperatriz, Bacabal, Pindaré-Mirim, Viana...; enfim, tudo. Muito futebol, muita praia, visitas de meus pais e de Dona Hilda, um 73 tranquilo. Em contrapartida, face ao cargo ocupado, passei a fazer parte do CONDI-IV Exército, com sede em Recife/PE, e voltei a saber como andavam as ações terroristas/subversivas contra a ordem estabelecida, que estava levando o país a um desenvolvimento inédito. Os documentos e fotos apresentados e explicados eram assustadores pela covardia dos atentados, sempre contra pessoas que nada tinham com aqueles que agiam, ou seja, contra os membros do governo, de sua cúpula. Só atacavam pelas costas, à traição, pessoas que não tinham nada com o governo, que eram pacíficas. Xambioá era o principal assunto das reuniões mensais, e a realidade é que a população local toda era contra os guerrilheiros (por sua violência), e abastecia as forças da lei de dados sobre os passos dos militantes da esquerda armada. Também ocorreu a deserção do Carlos Lamarca, sujeito que desonrou a farda que vestia, os juramentos feitos, utilizando os conhecimentos adquiridos contra quem lhe havia ensinado a usá-los em defesa da pátria. Traidor e covarde, pois se não concordava com a ordem vigente deveria pedir baixa e partir para a luta, e não roubar o quartel em que servia e matar colegas de farda. Provocaram, buscaram o caminho da violência - e só podiam receber uma forte repressão. Madeira

terça-feira, 27 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1972/2)


Em São Luís do Maranhão, cuidado e firmeza para não escorregar nas pedras


1972: após a chegada estrelada no Maranhão, com grande apreensão de drogas, comecei a conhecer os maranhenses e fui saber porque tinha ocorrido a saída do superintendente anterior, e quem era cada um dos subordinados e das autoridades locais. Isto foi feito através de leitura de fichas funcionais, de dossiês existentes na nossa área de informações e de contatos com o SNI, agência de Fortaleza (não existia agência em São Luís). Foi muito pesado, mas encorajador: teria muito trabalho, enfrentaria os poderosos, haveria muita briga, conquistaria os bons e foderia só os vagabundos. Bom, o comandante anterior da PF por lá tinha sido afastado a pedido da igreja católica local, por ter (segundo ela) torturado dois padres estrangeiros subversivos que estavam pregando a luta armada na zona rural maranhense (uma vez confirmado o fato, foram expulsos do Brasil). Isto valeu-me a primeira briga local. Com menos de um mês como chefe da PF fui convidado para uma reunião na sede da CNBB/MA (conferência nacional dos bispos do Brasil), a qual compareci, inocentemente julgando que seria para um reencontro, para a formação de um novo elo Igreja/DPF. Lá chegando deparei-me com cerca de doze bispos sentados, com as cadeiras em forma de U e a destinada a mim na parte aberta do semi-círculo. Sentí-me na inquisição, mas guerra é guerra e aprendi a não ter medo na vida, pois o pior que pode acontecer é a morte, que na realidade é nova e melhor existência. O líder deles era dom Hélio Campos, denominado o bispo vermelho por suas declarações comunistas (ele pregava que Deus não colocou cercas nas terras, então todas deveriam ser derrubadas pelos camponeses para a sua ocupação). A primeira pergunta, sem maiores protocolos, foi se a PF era uma corporação de torturadores, de assassinos. De imediato perguntei a eles se a Igreja era uma corporação de pedófilos e homossexuais - isto para mostrar-lhes que toda organização tem gente que erra -, e eles viraram o bicho (aliás, as bichas, pois o próprio arcebispo do Maranhão era uma bichona); o diálogo ficara impossível. Daí virei as costas e fui embora. Como sempre, meu pavio meio curto botou pra quebrar. Descobri logo que o que queriam no Maranhão era a autoridade como a que eles tinham lá, ou seja, baseada no pior tipo de corrupção que existe, que é a afetiva, a de quebrar o galho dos conhecidos e dos conhecidos dos conhecidos, tudo chefiado pela família Sarney. Bem, resolvi - e só podia ser assim pela minha educação e pela formação que tive - que cumpriria a lei, e com muito cuidado para não ser traído. Foi um resto de ano difícil, só de trabalho, indo a uma ou outra cerimônia para representar o DPF, e até mesmo acordando e encontrando na porta de saída de casa (dentro, portanto, do terreno) despachos de macumba bem feios. Eu tratava de pulá-los, e então mandava limpar e jogar tudo no lixo, sem comentários. Mas São Luís (mesmo com muitos pobres, com dificuldade de tudo e com muita sujeira) tinha coisas agradáveis como a praia, o clima e a tranquilidade, pois o maranhense é como o baiano, calmo e devagar. Montei o time de futsal da SR (consegui alguns mais novos, que eram contratados da estação-rádio e dos serviços auxiliares) e as coisas começaram a ficar gostosas. Madeira

vivencias-madeira-cronológica (1972/1)



1972: vida de profissional, ainda mais federal, é feita de mudanças inesperadas, e em junho deste ano veio um novo ciclo, com mudança de estado. O meu trabalho no combate às drogas repercutiu em Brasília, na cúpula do DPF, e fui escolhido, entre cerca de vinte delegados, para fazer um concurso público interno para assessor de planejamento e controle da direção geral. Feito, acho que pela única vez na vida, fui classificado em primeiro lugar e recebi a ordem de aguardar novas instruções. Fiquei bastante desiludido, pois o que eu mais queria era continuar na linha de frente, não ir para um gabinete com ar refrigerado, de terno e gravata. Mas, felizmente, antes de que isto ocorresse, surgiu uma nova oportunidade de promoção com a vacância do cargo de superintendente regional (dirigente máximo - administrativo e policial - da PF em um estado) no Maranhão. A mudança seria radical (e foi) em termos de cidade, de vida familiar (educação e saúde, entre outros), de distância de nossa cidade natal (Rio, pois de Curitiba, em nove horas de ônibus, estávamos lá), mas era promoção, novas e muito maiores responsabilidades (o que me atraía muito) e a chance de fazer rodar todas as atribuições da PF à minha maneira, além de não ficar burocratizado, teórico. Aceitei, e em junho saímos de um frio de zero grau (no dia do embarque, no aeroporto de São José dos Pinhais) para um calor gostoso de vinte e cinco graus em São Luís do Maranhão. Sem mobília, o chefe da comunicação social da SR/MA arranjou um sítio na estrada que liga São Luís à São José do Ribamar, já mobiliado, e lá residimos por cerca de quinze dias, todos nós (eu, Tê, crianças e Hilda). Posse concorrida, pois à época o superintendente da PF era a segunda autoridade do executivo federal no estado, abaixo apenas do comandante da unidade do exército (na aeronáutica e na marinha os chefes eram sargentos ou sub-oficiais), identifiquei rapidamente - até por não gostar - os riscos das babações, dos puxa-sacos e, principalmente, da imprensa sensacionalista. Para completar, por pura sorte, no dia seguinte à posse, primeiro dia de trabalho, mandei averiguar uma carta anônima, manuscrita, que dizia que em um navio cargueiro que tinha chegado havia uma grande quantidade de droga em um dos compartimentos, que deveria estar cheio de água (lastro), e apreendemos a maior quantidade de drogas ocorrida no Nordeste. Foi manchete nacional e tome de imprensa na nossa sede. Tratei de mandar o chefe da comunicação atender os repórteres. Foi um resto de ano de muito trabalho, pois o efetivo era reduzidíssimo e de policiais optantes da polícia carioca, velhos, cansados e/ou com família no Rio, sozinhos e aí amasiados, ou de contínuas licenças médicas para ficarem em sua cidade de origem. Delegado havia apenas um, licenciado, o dr. Laís Loureiro Alves, que tinha brigado com o chefe anterior e estava no Rio de licença. Laís era da minha turma e fonei para ele, chamando-o para voltar e vir trabalhar comigo; ficamos nós dois, as únicas autoridades policiais federais no Maranhão. O jeito era eu administrar e também ser delegado, presidindo inquéritos e flagrantes. E assim o fiz, com trabalho adoidado e muito êxito. Alugado um bangalô (como eram chamadas as casas com quintal) próximo à superintendência, na rua Oswaldo Cruz 1828, denominada pelo povo de Rua Grande (por ser muito comprida), mobiliário recebido, crianças matriculadas no colégio Becassine (São Luís tem muito de sua cultura baseada na história do domínio francês), viramos maranhenses, com muita praia (principalmente Araçagi) nos feriados e finais de semana. Madeira

segunda-feira, 26 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1971/2)



1971: vida tranquila em Curitiba. Muito frio, muito trabalho, viagens constantes pelo interior do Paraná em diligências, combatendo o tráfico de drogas e de mulheres (as primeiras vinham do Paraguai, e as segundas eram levadas por lá ou pelo porto de Paranaguá, ou ainda de ônibus para São Paulo). Descoberta de um estado rico, de gente trabalhadora de variadas origens, a maioria alemã. Mas tínhamos, por exemplo, a cidade de Assaí, totalmente de colonização japonesa. Havia colônias, bem no fim de alguns municípios, onde os moradores só falavam a língua (ou o dialeto) da terra natal, aprendida com os primeiros imigrantes, como a colônia Adelaide, onde só falavam um dialeto alemão e alimentavam-se e bebiam tudo da forma feita no país de origem. Povo trabalhador que forjou um estado maravilhoso, organizado, próspero e do qual muitos saíram para fazer a pujança de estados próximos, como o Mato Grosso do Sul e Rondônia. Conheci locais de beleza e riqueza ímpares como Foz do Iguaçu e Guaíra (aquela antes de ser inundada pelas águas da barragem de Itaipu), Ponta Grossa (os homens que lá nascem são impedidos de casar com as mulheres nascidas em outra cidadezinha paranaense, Curralinho) e cidades históricas como Lapa e Antonina, além de praias razoáveis como Caiobá e Matinhos. Não se falava (da) nem se acessava a Ilha do Mel, hoje famosa. No trabalho, além das viagens e de flagrantes continuados de tóxicos, as palestras nos colégios eram, sempre que eu estava em Curitiba, uma constante, mostrando aos jovens os riscos da utilização das drogas. A ADESG (associação dos diplomados da Escola Superior de Guerra) também me levou para ser palestrante sobre este assunto e sobre as fronteiras do estado com o Paraguai, no que eu já estava um expert. Terezinha e as crianças muito bem, apenas com muito frio, mas com bastante visita de parentes e amigos do Rio (este é o problema de morar perto do lugar de nascimento...). As peladas firmes, no time da superintendência (futsal) e no time do bairro, o Brasinha F.C. (campo). Neste ano tivemos a primeira grande perda, no sentido de companhia corpórea: Seu José, pai de Terezinha, faleceu após alguns anos de luta contra o câncer. Como já era meio esperado e foi para não vê-lo sofrer muito, foi rapidamente assimilado. Madeira

sexta-feira, 23 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1971/1)



1971: ao voltar das minhas férias em fevereiro fui chamado à direção geral e indicado para ser transferido para o Paraná, para chefiar a delegacia de repressão ao tráfico de entorpecentes da superintendência local. De uma parte, vibração pelo fato de ser um policial federal, pronto a servir em qualquer estado brasileiro, e por voltar à linha de frente, ao combate direto ao crime, e não só o trabalho de gabinete, mas por outro lado a curiosidade da residência em lugar desconhecido e a preocupação com a família. Sabíamos que lá era muito frio, porém um lugar muito adiantado, com vida barata e disciplinada. Lá fomos e conseguimos uma casa excelente, bem próxima do centro de Curitiba, atrás do palácio do governador, no bairro de Ahú de Baixo. A casa tinha amplas salas de visitas e jantar (acopladas), três quartos, quarto de empregada, ampla cozinha e banheiro, com entrada de garagem lateral, jardim à frente - e nos fundos, ao lado da garagem, uma área gramada com uma churrasqueira no chão (fogo de chão, como o gaúcho diz) que conosco sempre serviu para inúmeros sapos morarem. Nesta rua, de nome Manoel Eufrásio, no número 1520, moramos por quase dois anos com Hilda e a visita constante de Dona Hilda, Seu José e meus pais, além de amigos do Rio que estivessem de passagem. Lá Terezinha reencontrou uma grande amiga da Mesbla, vendedora, colega de trabalho na seção de meias, a Cenira, que estava casada com o Mauro, também carioca e gerente da Casa Massom, filial de Curitiba, que era uma das maiores joalherias do Brasil. Foram nossos cicerones e introdutores nos costumes curitibanos, bem diferentes dos cariocas. Cenira e Mauro (já falecido) foram os padrinhos de batismo de Cintia, recém-nascida e já sofrendo um frio terrível. Na SR/DPF/Paraná acumulei, com a repressão aos tóxicos, a delegacia de repressão ao tráfico de pessoas, que combatia uma área criminosa não muito falada, mas imensa, que é o chamado tráfico de escravas brancas (recrutamento de mulheres para prostituição em outros países - e até no mesmo país, em lugar diverso do de moradia). Foi uma época de muito trabalho, com viagens constantes para o interior do Paraná, em especial para a área fronteiriça (Foz de Iguaçu e Guaíra, ainda não existia a barragem), com muitos riscos, diligências continuadas, prisões de traficantes internacionais, grandes apreensões de drogas, alguns tiroteios, lavratura de flagrantes, presidência de inquéritos policiais e muitas palestras em colégios para adolescentes (sobre os malefícios das drogas), deixando muito Terezinha sozinha com as crianças. Ainda bem que pertinho - praticamente na esquina da nossa rua com a avenida principal - havia um colégio muito bom para a faixa etária deles, que Caio e Flavia freqüentavam. O frio era (e é) demasiado, principalmente quando chovia, com um vento que cortava o rosto e rachava os lábios, não deixando a roupa secar e fazendo com que para tomar banho (nem todo dia, claro) tivéssemos que atear fogo ao álcool em uma bacia, abrindo ainda a torneira de água quente, para assim conseguirmos nos despir. Infecção de ouvido as crianças tinham direto; eu usava ceroulas e camiseta de lã de manga comprida por baixo da roupa. Curitiba era excelente para se morar: cidade organizada, povo respeitador que recebia muito bem, vida barata, comida e bebida fartas. Enfim, uma cidade européia em seus costumes. Madeira

quarta-feira, 21 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1970/3)


Manteiga derretida: nasce a Cintia


1970: à vida tranquila de professor e chefe de divisão na ANP, a que eu já estava acostumado e gostando no trabalho e que tinha tudo a ver com meus estudos de magistério, juntavam-se as peladas (vício tal que Dona Hilda sempre dizia que, se ela morresse na hora do meu futebol, eu não iria ao enterro - e acho que ela estava certa), o clube no fim de semana e a presença constante de Ivone, Egydio e filhos; enfim, era só aguardar a chegada de Cintia. O esquema era o mesmo, pois desejávamos que todos nascessem no Rio, com o Levy. Assim, Terezinha iria para lá ao final do oitavo mês e aguardaria o momento com o Levy, e eu em Brasília pronto. Acontece que ao contrário de Flavia, que atrasou quase um mês, Cintia adiantou quase dois e nasceu com oito de gestação. Tocou uma confusão danada quando Terezinha começou o trabalho de parto, e ainda bem que o médico que fazia o pré-natal dela era muito bom e foi de fácil acesso, pois estava de plantão no hospital distrital da L2-Sul, próximo de nosso apto, e rapidamente a levei para lá, por volta das seis e meia da manhã do dia dez de setembro. Às sete e quarenta e cinco nasceu Cintia, prematura (hoje, ao olhá-la, quem pode imaginar isto?), pequenininha, que teve de permanecer na incubadora por algumas horas (cuidado necessário), mas foi logo liberada para ficar no berçário e com a mãe, pois após examinada foi constatado que tinha a saúde perfeita. Mais um espírito amigo e amado incorporou-se à nossa família, para nossa alegria e felicidade. O mesmo cestinho-berço, que tinha recebido e hospedado os irmãos, serviu à Cintia, que como a Flavia não deu trabalho maior, sendo um bebê tranquilo, mantendo no entanto o costume de ser acelerada no andar e no desenvolvimento. Caçula querida, até hoje, juntamente com os irmãos, um dos grandes motivos de me sentir realizado nesta vida, e acrescentadora de alegrias e momentos continuadamente felizes. Madeira

terça-feira, 20 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1970/2)



1970: na ANP voltei à vida tranquila, de muito trabalho na montagem de cursos, seleção de alunos e docência, e estava desde o ano passado fazendo um curso de magistério com bacharelado em história no CEUB - centro universitário de Brasília. Sempre tive muita vontade de aprofundar meu conhecimento sobre a ciência da história e aproveitei a abertura do CEUB, com oferta de matrícula e menos tempo de estudos (pelo aproveitamento de disciplinas feitas, para quem já tivesse curso superior), e topei. Em casa tudo corria bem, apenas Terezinha com dificuldades por Flavia estar na fase de andar e ela grávida de Cintia. Então, como sempre, veio a mão divina e apareceu em nossa casa a Hilda, que se encantou com Flavia e Flavia com ela. De imediato contratada, foi uma mão na roda, como dizia meu pai. Fora isto, a Revolução sendo atacada covardemente, com inocentes como um soldado sentinela no II Exército, que foi morto sem ter nada com nada, estava apenas cumprindo o seu serviço militar. Hoje vejo meia dúzia de procuradores jovens, que não vivenciaram a época e que se acham os donos da justiça, propondo ações contra pessoal das FFAA que foi atacado e se limitou a fazer cumprir as leis (alguns cometeram excessos, mas muito mais os cometeram os que iniciaram - e covardemente - a luta armada contra o sistema vigente). Oposição sempre houve (MDB foi um exemplo) e foi respeitada, como direito para todos aqueles que não cometeram crimes, os quais nunca foram presos ou torturados (vejam o exemplo de Ulisses Guimarães, Teotônio Vilela, Jefferson Perez, Pedro Simon e até o próprio Lula, que esteve oito dias preso e não levou um tapa ou foi preso outras vezes). Portanto, é fácil comprovar que os que foram presos o foram porque assaltaram, seqüestraram ou assassinaram (até companheiros que queriam desistir da luta armada eram mortos por eles covardemente). No entanto, a mídia socialista, por sonho ou média, mas socialista da praia ou das noites cariocas/paulistas, nunca da pobreza, do sertão (lá a vida é dura) apóia e dá divulgação à mentiras de mentes obsedadas pelo poder, pois eles mesmos dizem que a luta é pelo poder. Poucos se atrevem hoje a dizer a verdade, pois esta não vende jornal nem anúncio em TV e rádio, nem garante aplausos fáceis. Estes corajosos são perseguidos e alguns que devem ser lidos são Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor (ex-comunista convicto) e Roberto Pompeu de Toledo. Apesar da Lei da Anistia, querem abrir arquivos, e eu entendo que devem ser abertos, mas com a presença de ou feito por analistas internacionais, ou então - como nessas indenizações absurdas, que alguns poucos honestos como Gabeira e Millôr não aceitaram - só virão as verdades de quem está no comando do país. Vai aparecer tortura de agentes policiais e militares, mas também vão aparecer justiçamentos (assassinatos) feitos por altas personalidades do atual governo, bem como riquezas conseguidas com o dinheiro desviado dos assaltos ou vindo de Cuba e da URSS. É fácil ser o tal, o dono único da verdade quando se tem a máquina governamental na mão. Na verdade foram e são até hoje mentirosos e covardes, ao contrário de um Ulisses, um Simon, cometendo, sob a desculpa de criar uma democracia (que existia forte, mas com o povo protegido, sem crime organizado, sem traficantes, sem violência), todo tipo de pusilanimidade, de poltronice e maldade. Hoje se locupletam escrevendo inverdades, dando palestras e prestando consultorias (com que preparo e em quê? - em mudança de face, em se esconder, em fugir após delinqüir?). Um dia, no entanto, far-se-á justiça, como o próprio Lula, este um líder sindical de peso, nunca um subversivo, faz volta e meia à revolução, reconhecendo as coisas boas feitas pelos seus presidentes. Madeira

segunda-feira, 19 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1970/1)



1970: mais uma vez deu-se a merda, ou seja, com a minha maneira de ser, de quem é fiel ao seu caráter, talvez teimoso, de quem não deixa que a coluna se envergue por causas mesquinhas ou materiais, não aceitando a covardia como forma de sobrevivência, só aceitando recuos ou humilhações por alguma causa maior que a do interesse pessoal, briguei com o diretor geral do DPF, um desses generais (a maioria é boa) que vão para a reserva e acham que continuam generais no meio civil. Aconteceu lá pelo meio do ano, quando a direção geral resolveu de vez unificar os dois serviços de informações (inteligência, hoje em dia) do DPF, o que eu chefiava (SI/DO) e o do DOPS (SI/DOPS), chefiado por um colega delegado, o dr. Firmiano Pacheco, ficando o DOPS somente com a parte operacional ligada ao DOI/CODI (nós éramos ligados ao SNI). Idéia muito boa esta, a de subir os arquivos do DOPS e ter um só órgão de informações na polícia federal. O problema, para a minha surpresa, é que o tal general chamou a mim e ao Pacheco, comunicou-nos a determinação e nos informou que chefiaríamos o órgão, ou seja, ele traria o seu pessoal e material e dividiria os trabalhos e decisões comigo. De imediato, na bucha, avisei que por princípio de comando eu não o dividiria, e a direção geral que ficasse à vontade para me exonerar do cargo, ficando apenas o Pacheco. OK, me fodi. Saí de cabeça erguida, certo de que os alfarrábios de comando me ensinaram isto e meus comportamentos profissionais também, mas perdi de imediato cerca de 50% do meu salário, pois a minha chefia era de cargo comissionado 5C. Isto pagando a prestação do apto e com as prestações de um carro novo comprado há pouco (um fusca 0 km, meu primeiro carro novo e com a família aumentando, pois inexplicavelmente - os médicos diziam que no pós-parto a mulher não engravidava - Terezinha estava grávida de Cintia). Pra completar, transferiram-me para a ANP (academia nacional de polícia, órgão de ensino da polícia federal), onde eu já dava muitas aulas, principalmente sobre inteligência policial. Novo ciclo, bem diferenciado, em uma área (dos males, o menor) com a qual já me identificava, o ensino. Assim afastava-me da Interpol e das informações, e na ANP acabei por (identificando-me mais com isto) aprender a montar cursos, traduzir livros policiais (traduzi provavelmente o primeiro manual de segurança empresarial - do inglês -, que tornou-se depois um manual da ANP), lecionar mais continuadamente e depois a aplicar concursos. No fim, foi bom. Com o meu senso profissional de fazer o que me era determinado com rapidez (e bem feito), logo na ANP recebi missões importantes, dentre as quais a de montar o plano de segurança da futura sede do ministério das relações exteriores, o Itamarati, na Esplanada dos Ministérios (o único prédio diferente) e de montar e aplicar o curso de formação do pessoal aprovado em concurso público para o quadro de segurança do mesmo. Também no final do ano fui designado para o cargo de chefe da divisão de cursos e seleção da academia, que, ainda que não representasse o mesmo quantum da anterior, diminuiu o sufoco financeiro. Novo ciclo vivencial - mais aprendizagem, mais bagagem. Madeira

domingo, 18 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1969/2)


Brasil 1X0 Paraguai, Maracanã: gol de Pelé, eliminatórias da Copa de 70.


1969: junto às mudanças com o aumento da família, as mudanças no trabalho. Antes de acompanhar o movimento político (as ações da revolução e os movimentos contrários) por força das atividades no centro de informações, minhas convicções sócio-políticas resumiam-se a cumprir minhas obrigações de cidadão, obedecendo ao conjunto de leis, sendo rigoroso comigo mesmo nos comportamentos do dia-a-dia, honesto, atuando como um servidor público responsável e entendendo que aqueles que elegemos são os responsáveis pela condução do país, por delegação dos eleitores, e isto forma uma democracia. Não adianta e não é correto, se a maioria quer um governante, você sabotá-lo ou querer tirá-lo do poder que lhe foi dado por vontade do povo. Você pode discordar, discursar contra, mas deve aceitar e até torcer para que dê certo, pois o importante é o respeito ao que a maior parte das pessoas quer e quis. Foi exatamente o que ocorreu em 1964, quando o povo todo estava revoltado com a baderna reinante no Brasil, com a falta de disciplina e respeito existente e tudo comandado pelo governo central (Jango). Isto ficou claro com a marcha da Família, que tomou conta das ruas do Rio sem convocações, sem condução para o povo, apenas por sua vontade soberana. Tudo muito evidente - menos para os pseudo-comunistas brasileiros, na realidade oportunistas que desejam apenas se perpetuar no poder e as riquezas inerentes a ele. De 64 a 67 a Brasil viveu um período de calma e progresso, com combate e vitória contra a fome e o analfabetismo, chegando a ser a sétima economia do mundo. Mas em 1968, impulsionados pelos movimentos estudantis de rua franceses, os oportunistas voltaram com violência. Hoje a mídia socialista, que quer fazer média e vender jornais e programas, fala (na maior parte da vezes, com raras exceções corajosas) da violência da Revolução. Houve, claro que houve, alguns abusaram, outros apenas se vingaram (o que é errado), mas a verdade é que ocorreu uma proposta de combate, uma proposta de luta armada iniciada por alguns idiotas preparados em Cuba, idiotas que mataram, seqüestraram, torturaram (principalmente os companheiros deles que tentaram desistir) e assaltaram bancos - e queriam o quê? Passividade de um governo forte? Os casos são de domínio público: explodiram o carro particular, no vale da Ribeira/SP, de um tenente nissei da PM/SP, um jovem que nada tinha com a Revolução; fizeram um PM/SP de trânsito ajoelhar-se no meio da avenida São João, durante um assalto a banco, e depois atiraram em sua cabeça; e inúmeros outros casos de covardia. Tinham suas células de subversão organizadas em uma de expropriação (assalto a banco), uma de controle de esconderijos (aparelhos), uma de ação armada e uma de justiçamento, onde torturavam e matavam aqueles que queriam desistir das ações de luta armada. A partir daí houve a criação dos DOI/CODI´s, que centralizaram as ações de combate às atividades deles. Assim, repito o que o presidente do Clube Militar disse há pouco: vamos reabrir, vamos apurar tudo sobre as ações da revolução, mas também vamos investigar todos os crimes cometidos pelos que atacaram, iniciaram a luta armada, quase todos hoje altos líderes do governo central, e aí que se fale a verdade e que os criminosos sejam punidos - e não somente aqueles que reagiram. Madeira

sábado, 17 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1969/1)


Maternidade São José, Mesquita: "dos três a mais pesada ao nascer."


1969: com o futuro centro de informações do DPF montado, recebendo pessoal e material para a centralização das informações anti-subversão e a Interpol rodando direitinho, seguia a vida. Com o Caio já na escolinha, andando, os finais de semana no Minas-Brasília e as visitas do pessoal do Rio (até meus pais foram conhecer nosso apto), nossa vidinha corria tranquila, e chega então a novidade: Terezinha grávida. Família planejada, era nossa vontade que Terezinha tivesse outro filho quando o anterior não mamasse mais e já andasse; enfim, que exigisse cuidados diferenciados dos de um recém-nascido. Era uma menina e deveria nascer em setembro, mesmo mês de Terezinha. Alegria geral, cuidados mil. Neste ínterim, uma viagem à Paris para um congresso na sede da Interpol sobre a utilização da informática no combate ao crime organizado. Lá fui eu rever Paris. Setembro chega e nada da menina chegar. Em todo caso, no final de setembro acertamos a ida de Terezinha e do Caio, com a babá, para o Rio, para ficar com Dona Hilda e o Levy acompanhando, pois o esquema era idêntico ao do primeiro filho (lá em Mesquita, na maternidade São José). Início de outubro, notícias de que estava chegando a hora, racho para o Rio no possante gordini azul escuro. Fui voando e cheguei lá no dia seguinte, dois de outubro, por volta das quatro horas da tarde. Terezinha começa a sentir as dores do parto. Vou com ela e Dona Hilda para a maternidade. Chegando lá, bem na porta, quando ia saindo do carro, estoura a bolsa d´água, e Terezinha é levada às pressas para a sala de parto. O médico obstetra de plantão, um japonesinho de que até hoje não sei o nome, começa o atendimento. Terezinha me implorava para ir buscar o Levy. Saí correndo (não existia celular, claro, e não consegui falar com ele pelo orelhão) e encontrei-o em outra casa de saúde, no Méier; voltamos correndo, ele em sua vemaguete e eu no possante. Chovia bem e lembro-me dele na minha frente, em cada curva derrapávamos. Quando chegamos, a atrasadinha (nos dias) e também apressadinha (no nascer) já tinha dado as caras. Dois de outubro, às dezoito horas, pelas mãos de um médico desconhecido, mas sob a orientação e o amor do Levy, que nos levou (eu e Dona Hilda) para ver Terezinha e Flavia. Ao contrário dos irmãos, já surgiu grandinha, e foi dos três a mais pesada ao nascer. Como os outros, já nasceu linda. Logo Terezinha, que se recuperava rápido quando em um hospital (sempre teve horror a eles, parece que já antevia o que iria passar), estava pronta para voltar para casa, e voltamos com tranquilidade para Brasília, a família aumentada. Flavia, como o Caio e depois a Cintia, veio a acrescentar e muito ao nosso viver. Bonita, corajosa, lutadora à sua maneira pelas causas que entende justas, companheira que não hesita em desafiar o que for preciso quando decide lutar, é também parte importantíssima desta minha vivência e com ela quero conviver o número necessário de vidas para aprender e me desenvolver. Madeira

sexta-feira, 16 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1968/2)


Forte Duque de Caxias, Leme


1968: passei os seis meses do primeiro semestre no Rio, e aprendi toda a teoria e toda a prática de atividades de combate à subversão da ordem social e política em um país, segundo a doutrina brasileira (com base na norte-americana e na israelense, de dois países adiantados na realidade anti-terrorismo e anti-sabotagem), lá no CEP, no Forte Duque de Caxias. Este curso, de formação de analista de informações, era para oficiais (havia o de operações, que era para nível médio, sargentos) e foi a base para a criação da escola nacional de informações (EsNI), ligada ao SNI (hoje ABIN). Éramos trinta alunos, quase todos oficiais das Forças Armadas e Auxiliares (PM´s) - com dois civis apenas, eu e o Jercides Dórea, da polícia federal. Terminei em terceiro lugar, num claro ajuste para não ser um civil o primeiro colocado (arranjaram umas pontuações por mérito, típicas de militar), mas foi bom, aprendi e entendi muita coisa do que ocorria no mundo e no Brasil, como guerra fria, comunismo internacional e outros. A morada no Leme foi uma delícia, até porque foi no tempo de verão, pós-carnaval, com uma praia ótima e tranquila à nossa porta. O estudo, apesar de puxado, levei numa boa, facilmente (não tinha números), e as presenças de Terezinha e Caio foram ótimas, com passeios e fins de semana gostosos. Voltando à Brasília no meio do ano, reassumi a Interpol e dediquei-me a montar o novo serviço de informações do DPF, que foi o núcleo embrionário do a seguir centro de informações, do qual fui o primeiro chefe e que é hoje o serviço de inteligência da PF, a todo momento falado na mídia como o órgão que, através de escutas, gravações e campanas descobre crimes praticados contra a União. A Interpol não ficava abandonada, e com muito trabalho tocava as duas áreas, já sabendo que logo teria de haver a separação e eu de optar por uma ou ser designado para a outra. Assim, em setembro, fomos eu e o chefe da seção de estudos (núcleo que era a Interpol), o dr. Paulo Nasi Brum, gaúcho, dono de inglês fluente com o diretor geral do DPF, o Cel. Florimar Campello para o Japão, mais exatamente para Kyoto, representar a Interpol/Brasil no congresso anual da entidade. Mais uma viagem de sonho, com ida antecipada (como recompensa) de quinze dias, passando este tempo entre Hollywood, Los Angeles (lá estive na então única Disneyworld) e Havaí, em Waikiki Beach. No Japão nos encontramos com o diretor geral e, após o congresso, fomos convidados pelos chefes da Interpol de países da Ásia para passarmos alguns dias em outros outros lugares. Assim conheci a Tailândia (Bangkok), Líbano (Beirute), Síria (Damasco), Índia (Nova Déli), Paquistão (Karachi), Itália (Roma) e terminando em Paris, onde conseguimos, eu e o Paulo, um estágio de quinze dias na sede da Interpol. Na volta ainda fiquei quatro dias em Portugal, para visitar o meu pai que lá estava. Enfim, a vida não é só trabalho... Madeira

quinta-feira, 15 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1968/1)



1968: vida transcorrendo tranquilamente, eu acompanhando à distância os acontecimentos no Brasil, pois a Interpol tem como obrigação dos países filiados a proibição de tratar de assuntos políticos, religiosos e raciais. Assim, tinha e tenho minha opinião extremamente favorável ao movimento de 31 de março de 1964, mas não acompanhava as ações do governo militar, a não ser pela imprensa ou por comentários de colegas de setores envolvidos com a repressão. Mas - sempre um mas - a direção geral do DPF resolveu criar um órgão para centralizar as informações sobre as atividades de subversivos, ganhando assim agilidade para informar (de forma unificada, completa) ao ministro da justiça e ao presidente da república os fatos ocorridos. Isto na realidade atendia a uma comprovação feita, nos anos anteriores, de que só se tem êxito nas ações de repressão com a centralização das mesmas, pois de início o combate às ações violentas fracassaram por haver muitos órgãos trabalhando no mesmo assunto, e desordenadamente. Somente com a unificação das ações, com a criação do DOI-CODI, é que veio a dar certo e a se desmontar as células comunistas/oportunistas. No DPF já existia o DOPS central, na sede, e um em cada superintendência, todos ligando-se com todo mundo (Exército, Marinha, Aeronáutica, PM´s, CB´s). Ao procurarem um lugar dentro da organização - não pretendiam, de início, mexer em sua estrutura, o que demandaria uma lei - bateram na minha área, na Interpol, esta já muito bem organizada, rodando redondinha junto à direção geral (no organograma, era esta a nossa subordinação). Expliquei que era impossível executar o pretendido, face ao regulamento da Interpol, mas recebi a determinação de desmembrar o meu pessoal e deixar a seção de estudos (que eu chefiei e montei na minha chegada à Interpol, em l963) como sendo o núcleo-base de um novo serviço de inteligência do DPF, um órgão da direção geral responsável pelo controle de todas as informações referentes à área de combate à subversão, ficando o outro setor da Interpol - o serviço de investigações - como a Interpol propriamente dita. Pronto, lá fui eu para o furacão, mas ordem é ordem e eu era e sou totalmente favorável ao movimento de 64 pelo aspecto anti-comunista e moralizador. Isso resultou em um curso no Rio de Janeiro, no centro de estudos de pessoal do Exército, o CEP, situado no Leme, no fim do mesmo, no Forte Duque de Caxias. Curso de seis meses e seria difícil, recém-casado e com filho pequeno me separar da família (apesar de ser carioca e ter a chance de morar na zona sul), e a solução foi, com as diárias, alugar um apto de temporada no Leme, perto do CEP, e foi o que fizemos. Assim, parte deste ano eu, Terezinha, Caio e uma babá fomos residentes do Leme, na rua Gustavo Sampaio, e isto foi melhor que deixar a família em Brasília, indo lá uma vez por mês, morando só e guardando o dinheiro das diárias. Ainda tinha o possante do meu gordini pra passear pelo Rio, então um mar de tranquilidade graças à denominada Revolução. Madeira

quarta-feira, 14 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1967)



1967: ano que se iniciou com uma visita à casa dos meus pais em janeiro, antes de retornar à Brasília, depois de passar todo o ano de sessenta e seis sem falar com eles, rompido por causa da palhaçada de minha mãe na festa de meu casamento. Fui até lá levar o Caio Fabio para eles conhecerem. Deixei Terezinha no carro, na porta da casa, e subi com o Caio recém-nascido para apresentá-lo aos avós. Meu pai recebeu-nos muito bem, saudoso, solicitou que Terezinha subisse e deu o assunto por encerrado (com minha mãe muito sem graça); aceitamos o esquecimento e tudo ficou bem. Em Brasília, terminamos de montar nosso apto (já muito bonito): comprei um televisor e um móvel conjugado de toca-discos, toca-fitas e rádio, o que fez com que Terezinha, após um ano de dona de casa, pudesse ouvir algo além do que ela escutou no ano anterior - como ela dizia, apenas os estalidos do sinteco novo. Caio Fabio teve o outro quarto montado para ele, com um sofá-cama colocado para prováveis visitas e logo foi habitá-lo, saindo do nosso quarto. Caio era espertíssimo: aos oito meses saiu do andador sem vermos e apareceu na cozinha empurrando-o. Com nove meses ele já estava andando e foi um problema, pois queimou a etapa de engatinhar e o pediatra, o dr. Edson Porto (excelente sob todos os aspectos) queria que ele aprendesse a engatinhar e tentamos de tudo, colocando-o de gatinhas, falando com ele e tal, mas não adiantou, nunca engatinhou. Caio também não usou chupeta, jogava-a fora quando lhe era dada e não mamou no seio, tínhamos de tirar (eu ajudava) o leite do seio de Terezinha e colocá-lo na chuquinha (pequena mamadeira para dar água à crianças recém-nascidas). Logo passou a comer umas sopinhas compradas em supermercado, daquelas para crianças pequenas. Conseguimos uma auxiliar do lar, a Léa, para os serviços de casa. Os finais de semana eram no clube com Egydio, Ivone e os filhos Raul e Mônica. Duas vezes por semana, à noite, eu e Egydio disputávamos o campeonato de Brasília de futebol society (a quadra era quase em frente ao meu apto) - e fomos campeões. No trabalho eu já chefiava a Interpol, e com isso acabei indo à minha segunda viagem internacional (a primeira quando fui para Portugal, aos dez anos, com meus pais) para representar o Brasil no congresso internacional da agência, realizado em Berna, Suiça, no mês de setembro. Fui em companhia de outro delegado, mais antigo, o dr. Gilberto Alves Siqueira, e foi um deslumbramento. Passaporte diplomático, mordomias mil, ida e volta por Paris, com direito a ficar lá na volta alguns dias. De Paris para Berna fomos de trem, veloz e então moderníssimo, com muito trabalho nas reuniões plenárias e nas temáticas, discutindo temas referentes à criminalidade internacional, a que migra na formatação ou no próprio criminoso. As noites eram de passeios noturnos, com shows maravilhosos; enfim, uma aprendizagem e um conhecimento espetaculares, com amizades internacionais novas. Ano tranquilo, com muito amor e paz, com Dona Hilda nos visitando com freqüência. Madeira

terça-feira, 13 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1966/3)



1966: no final do ano, já no Rio de Janeiro aguardando o nascimento do Caio Fabio, fomos na tarde do dia vinte e dois de dezembro até a maternidade São José, onde o Levy examinou Terezinha, confirmou que estava tudo bem e que nos próximos dias ocorreria o parto. À noite, no nosso possante Gordini, fomos eu e Terezinha à Mesbla do Méier para comprar uma banheirinha para os banhos do Caio, última coisa que faltava do enxoval dele. Acabamos de fazer a compra e ao voltarmos pra casa Terezinha começou a sentir as dores do parto, obrigando-me a ligar para o Levy, informando-o e dirigindo-me, com ela e Dona Hilda, para a maternidade por volta das vinte e três horas. Lá chegando, logo chegou o Levy e ela foi para a observação, entrando na sala de parto já com a dilatação informando que era mesmo a hora, isto cerca das duas da manhã do dia vinte e três de dezembro. Às quatro horas da manhã Levy apareceu e informou que tudo correra bem, Caio Fabio estava no banho para ir para o berçário e Terezinha terminando os cuidados médicos pós-parto. Às seis horas tive acesso à Terezinha, que estava muito bem, animada, com um ar de felicidade e bonita, apenas cansada, e depois pude ver o Caio, ainda através do vidro do berçário. A partir daí foi a guerra de Terezinha com Levy, porque ela não aceitava passar o dia de natal internada. Após muitas tratativas ele consentiu, e na tarde de vinte e quatro de dezembro, véspera de natal e dia de sua comemoração fomos embora da maternidade para a casa de Dona Hilda, à rua Proclamação, em Bonsucesso, onde passamos o natal e o ano novo. Mais um ciclo em meu viver (a paternidade), no qual me comprometi internamente a buscar ser o melhor possível, imitando em muito o meu pai, pois não há escola para pais e só pela análise de outros comportamentos paternos pode-se ter algum parâmetro, e eu entendia e entendo que a forma de meu pai educar era a correta. Valeu Caião, tua vinda nos marcou pela pessoa que és, de uma correção de comportamento, de uma honestidade e de uma coragem fortíssimas. Madeira

segunda-feira, 12 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1966/2)


Minas-Brasília Tênis Clube


1966: casado, com muito trabalho na Interpol, com orçamento apertadíssimo, os finais de semana e feriados eram no Minas-Brasília, clube social no setor de clubes do Lago Norte, muito gostoso, onde jogava com o Egydio pelo time de futebol do clube em um campo gramado (fato então raro em Brasília, onde os campos eram de terra vermelha) aos sábados à tarde, e lá ficávamos aos domingos pela manhã na piscina, nós dois com as famílias. Egydio e Ivone já eram pais de uma menina, a Mônica, que para variar foi nos dada como afilhada de batismo. Os almoços dos domingos eram sempre na casa do Egydio, ao voltarmos do clube. Minha parte era ser o motorista da família, pois desde 1963 tinha carro (primeiro um dauphine verde incrementado, depois um gordini azul forte), e como o Egydio não sabia dirigir (nunca aprendeu) a missão de pegá-los para ficarmos juntos sempre foi minha, isto durante os mais de quarenta anos de nossa convivência. Egydio também tinha trocado a farda pela recentemente criada polícia federal, e seguíamos nossas vidas juntos. Terezinha engravidou logo após o casamento (ela não era fácil neste ponto, engravidava até pelo cheiro do esperma), e o pré-natal indicava o nascimento no final do ano. Em paralelo, Ivone também tinha engravidado de novo, com previsão de nascimento para outubro do ano. Assim, com as duas primas-irmãs grávidas, passamos este ano na rotina de trabalho, dureza, cuidados com elas, peladas e jogos. Em outubro nasceu o filho deles, batizado de Raul, e em dezembro nasceu o nosso, o Caio Fabio, mais exatamente em 23 de dezembro, no Rio (pelos parentes tínhamos decidido que nossos filhos nasceriam no Rio, onde também seriam batizados), na maternidade São José, em Mesquita, local selecionado por lá trabalhar o médico por nós escolhido para o parto de Terezinha. Esse médico era o dr. Leon Levy, pessoa maravilhosa, profissional competente, à época recém-formado, que eu tinha conhecido e com ele me relacionado - com muito carinho e amor - quando no BIB, onde ele serviu como aspirante subordinado a mim. Amigo leal e interessado, nos afeiçoamos (até hoje é mais um irmão não sanguíneo dos que Deus me deu) e ele nos ajudou muito - espiritualmente - nos chiliques de Dona Hilda (ela desmaiava e passava mal com alguma freqüência, e em uma das vezes pedi ao Levy, como médico, que a atendesse; ele o fez, e daí veio a ligação forte). Caio nasceu de madrugada, às vésperas do natal, nós já no Rio de férias para o parto e foi uma felicidade muito grande. Pra variar, os padrinhos do Caio foram a Ivone e o Egydio. A família começava a se formar definitivamente, e dos dois chegamos aos três, com todas as lutas e dificuldades existentes, mas juntos e unidos para o que viesse. E muito mais coisas vieram. Madeira

domingo, 11 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1966/1)


Igreja de Santa Terezinha, Tijuca


1966: definitivamente um novo ciclo, como os anteriores totalmente desconhecido e muito mais importante e delicado, afinal eu passaria a ser responsável por outras pessoas (esposa e filhos). Assim eu estava preocupado, pois pela educação que tive, pelos costumes e até pela lei (código civil) de então o homem era o chefe da família, aquele que a conduzia, que decidia. Para mim, até então solteiro, fazendo meus horários e tomando as decisões sozinho era uma grande novidade passar a possuir essa cobrança interna e social, de dividir os comportamentos, as decisões com outra pessoa (certamente bem diferente de mim, da minha forma de pensar). Aos vinte e seis anos começaria a cumprir o príncípio bíblico de crescei e multiplicai-vos, mas ia com muito amor e a certeza da escolha acertada da companheira para tal. Bem, em fevereiro, na igreja de Santa Terezinha, no Rio de Janeiro (escolhida por ser o nome de Terezinha, dado a ela em homenagem à santa), no dia marcado - cinco de fevereiro -, casamo-nos com o habitual atraso da noiva (uma hora), tendo inclusive o casamento seguinte, das dezenove horas, passado à nossa frente, pois éramos o das dezoito horas. Enquanto esperava fiquei no ádrio da igreja comendo pipoca com os amigos da turma da José Higino, e sofrendo as gozações de que a noiva havia desistido. Mas às dezenove horas ela chegou muito bonita, classuda e amarramo-nos perante o altar com os compromissos oficiais. Depois disto fomos para a recepção no Centro Trasmontano, próximo ao Largo da Segunda-Feira, clube social da colônia portuguesa, dos nascidos em Trás-os-Montes, Portugal, onde meu pai era diretor e que eu frequentara com ele desde pequeno. Foi uma recepção muito bonita, para os amigos dos pais, meus, de Terezinha e de nossos amigos e demais parentes, e que nós dois tínhamos montado. Transcorreu normalmente enquanto eu e Terezinha estávamos presentes, e depois de cortarmos o bolo nupcial, mudarmos de roupa e nos despedirmos dos convidados em direção à nossa lua de mel, no hotel-fazenda Três Pinheiros, em Engenheiro Passos, caminho para São Lourenço e Caxambu ocorreu a confusão, da qual só soubemos ao voltar da lua-de-mel. Minha mãe, contrária ao meu casamento com Terezinha, com raiva de Dona Hilda (que eu tratava como mãe) e também por eu não ter me casado com a afilhada dela foi tomar satisfações - e Dona Hilda respondeu à altura. Minha mãe estava acompanhada de minha madrinha Adyr, irmã dela, barraqueira de primeira, e atirou uns doces que estavam na mesa de Dona Hilda em cima desta, que revidou, havendo uma batalha doceira entre as alas femininas das famílias, batalha esta paralisada pela ação dos homens. Ao retornar e saber do ocorrido telefonei ao meu pai, e sentidamente (pelo amor e pelo respeito a ele) avisei que não iria mais em sua casa pelo comportamento de minha mãe, para não desrespeitá-la e assim brigarmos. Voltamos para Brasília e iniciamos nossa vida de casado com muitas dificuldades, pois o salário só dava para pagar as prestações para montar a casa e as do casamento, mas havia alegria e amor. Madeira

sábado, 10 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1965/2)


Asa Sul, Brasília


1965: em julho ocorreu o retorno à Brasília, reassumindo as funções na Interpol de chefe da seção de estudos, sendo responsável pela análise e andamento das solicitações de ações oriundas da central da Interpol em Paris (ou de órgãos policiais brasileiros e ainda de qualquer nação do mundo filiada à Interpol). Do Rio ficou uma forte saudade, com a despedida dos conhecidos, do futebol no departamento autônomo, das idas ao Maraca e dos meus pais, pois tinha definitivamente optado por Brasília como cidade de moradia. Ficava principalmente a noiva, aguardando as providências da morada própria para montarmos nosso lar. Enquanro ela montava o nosso enxoval de peças de cama, mesa e banho, eu me virava para conseguir o apartamento funcional para casar. Mais uma vez o destino (meus mentores) deram aquele empurrão e consegui um apto na Asa Sul, na superquadra 409, chamada de quadra do IAPI, quadra bem desenvolvida, com todo o apoio logístico indispensável de padaria, mercado, farmácia etc. Esta vitória devo a um amigo especial chamado Altamir Balbino, que eu tinha conhecido e aprendido a admirar quando na cia de trânsito da GEB. Na minha ausência do Rio, no BIB, Balbino tinha também optado pela ida para a parte civil do DFSP e havia sido lotado na Interpol como agente de polícia, mas antes disso ainda ficara requisitado por um período (enquanto eu estava na tropa de choque) na Novacap, órgão da prefeitura do DF responsável pelos projetos da nova capital e em especial pela distribuição e conservação dos aptos funcionais. Meu amigo, trabalhando junto e ainda com conhecimentos e amigos na Novacap, foi meu elo para conseguir me inscrever e arranjar esse apto. De posse das chaves do mesmo, Terezinha foi visitar-me, hospedou-se no Egydio e aprovou o imóvel, no quarto andar do bloco B da quadra 409-Sul. A partir daí foi uma correria para pintar e dar uma gabaritada no apto, tendo ela desenhado os móveis como queria e, numa ida ao Rio, os encomendamos em uma fábrica de um amigo de meu pai, Seu João Silva. Não foi frescura fazer móveis sob medida, mas uma necessidade pelo tamanho dos dois quartos e da sala. Concomitantemente escolhemos o tipo e as marcas dos utensílios domésticos, para que eu os comprasse em Brasília e demos andamento nos papéis de casamento e nas demais providências necessárias para tanto. Não foi mole, foi uma corrida só e sem dinheiro, apenas com o meu salário, pois Terezinha, a meu pedido, havia saído do emprego na Mesbla para dedicar-se no Rio a resolver tudo do casamento e da mudança dela para Brasília, e com isso assumi dar o dinheiro correspondente à parte dela em casa. O moral da história é que meus fins de semana passaram a ser dentro do apto, pintando-o (nunca pensei que conseguiria, mas o fiz). Ao final do ano estávamos prontos para casar, com tudo engrenado e muita dificuldade - mas felizes. Terminei o doutorado em dezembro com excelente aproveitamento, passei o natal com Terezinha, família e meus pais (de nariz torcido) e estava preparado para casamento e férias em fevereiro do ano seguinte, 1966, com a casa pronta e mobiliada - mas com a carência de algumas coisas pela falta do vil metal. O apto estava lindo, novinho e com sinteco, mas por falta de dinheiro não compramos um televisor, optando por uma máquina de lavar roupa, e no outro quarto colocamos um sofá-cama de casal para hospedar as visitas de sogros e de mais alguém que viesse do Rio. De resto, tinha todas as coisas que facilitam a vida doméstica. Lá vem novo ciclo. Madeira

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