"Ando devagar/porque já tive pressa..."

"Ando devagar/porque já tive pressa..."
"Nessa loooonga estraaaaada da viiidaaa..."

Blog destinado a narrar as vivências do autor, através de suas opiniões sobre fatos vividos, e de marcações cronológicas, objetivando deixar para descendentes e amigos suas impressões sobre passagens de sua vida, abrangendo pessoas com sd quais se relacionou e instituições em que laborou, tudo com a visão particular, própria de todo ser humano, individualizada, pois cada pessoa tem sua forma de pensar, ser e viver. Madeira

quarta-feira, 28 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1973)


Militares no Araguaia, 1972


1973: a vida seguia normalmente, no ritmo acelerado de sempre, que na verdade eu buscava imprimir a ela, dentro dos meus princípios de procurar fazer tudo certo e rápido e de aprender e desenvolver-me ao máximo nesta encarnação. Muito trabalho, e muita família em todos os momentos de folga. Viagens durante a semana, quando na presidência de inquéritos, com isto conhecendo todo o interior do Maranhão, muito pobre, porém tranquilo, com todo mundo formando um grande corpo familiar. O maranhense de início é desconfiado, mas depois de te conhecer entrega-se de corpo e alma. Tipo caboclo e altamente religioso, mas muito chegado a uma forte macumba. Terreiros espalham-se por São Luís, e do tipo de batuques, danças, cânticos africanos. Tambor de mina e tambor de crioula são duas marcas da cultura religiosa maranhense neste campo. À região da denominada Baixada Maranhense, cerca de quinze municípios, só se chegava então de avião teco-teco, pousando em campos improvisados, e com isso andei muito batendo asas por essa área do estado. Por terra conheci Imperatriz, Bacabal, Pindaré-Mirim, Viana...; enfim, tudo. Muito futebol, muita praia, visitas de meus pais e de Dona Hilda, um 73 tranquilo. Em contrapartida, face ao cargo ocupado, passei a fazer parte do CONDI-IV Exército, com sede em Recife/PE, e voltei a saber como andavam as ações terroristas/subversivas contra a ordem estabelecida, que estava levando o país a um desenvolvimento inédito. Os documentos e fotos apresentados e explicados eram assustadores pela covardia dos atentados, sempre contra pessoas que nada tinham com aqueles que agiam, ou seja, contra os membros do governo, de sua cúpula. Só atacavam pelas costas, à traição, pessoas que não tinham nada com o governo, que eram pacíficas. Xambioá era o principal assunto das reuniões mensais, e a realidade é que a população local toda era contra os guerrilheiros (por sua violência), e abastecia as forças da lei de dados sobre os passos dos militantes da esquerda armada. Também ocorreu a deserção do Carlos Lamarca, sujeito que desonrou a farda que vestia, os juramentos feitos, utilizando os conhecimentos adquiridos contra quem lhe havia ensinado a usá-los em defesa da pátria. Traidor e covarde, pois se não concordava com a ordem vigente deveria pedir baixa e partir para a luta, e não roubar o quartel em que servia e matar colegas de farda. Provocaram, buscaram o caminho da violência - e só podiam receber uma forte repressão. Madeira

terça-feira, 27 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1972/2)


Em São Luís do Maranhão, cuidado e firmeza para não escorregar nas pedras


1972: após a chegada estrelada no Maranhão, com grande apreensão de drogas, comecei a conhecer os maranhenses e fui saber porque tinha ocorrido a saída do superintendente anterior, e quem era cada um dos subordinados e das autoridades locais. Isto foi feito através de leitura de fichas funcionais, de dossiês existentes na nossa área de informações e de contatos com o SNI, agência de Fortaleza (não existia agência em São Luís). Foi muito pesado, mas encorajador: teria muito trabalho, enfrentaria os poderosos, haveria muita briga, conquistaria os bons e foderia só os vagabundos. Bom, o comandante anterior da PF por lá tinha sido afastado a pedido da igreja católica local, por ter (segundo ela) torturado dois padres estrangeiros subversivos que estavam pregando a luta armada na zona rural maranhense (uma vez confirmado o fato, foram expulsos do Brasil). Isto valeu-me a primeira briga local. Com menos de um mês como chefe da PF fui convidado para uma reunião na sede da CNBB/MA (conferência nacional dos bispos do Brasil), a qual compareci, inocentemente julgando que seria para um reencontro, para a formação de um novo elo Igreja/DPF. Lá chegando deparei-me com cerca de doze bispos sentados, com as cadeiras em forma de U e a destinada a mim na parte aberta do semi-círculo. Sentí-me na inquisição, mas guerra é guerra e aprendi a não ter medo na vida, pois o pior que pode acontecer é a morte, que na realidade é nova e melhor existência. O líder deles era dom Hélio Campos, denominado o bispo vermelho por suas declarações comunistas (ele pregava que Deus não colocou cercas nas terras, então todas deveriam ser derrubadas pelos camponeses para a sua ocupação). A primeira pergunta, sem maiores protocolos, foi se a PF era uma corporação de torturadores, de assassinos. De imediato perguntei a eles se a Igreja era uma corporação de pedófilos e homossexuais - isto para mostrar-lhes que toda organização tem gente que erra -, e eles viraram o bicho (aliás, as bichas, pois o próprio arcebispo do Maranhão era uma bichona); o diálogo ficara impossível. Daí virei as costas e fui embora. Como sempre, meu pavio meio curto botou pra quebrar. Descobri logo que o que queriam no Maranhão era a autoridade como a que eles tinham lá, ou seja, baseada no pior tipo de corrupção que existe, que é a afetiva, a de quebrar o galho dos conhecidos e dos conhecidos dos conhecidos, tudo chefiado pela família Sarney. Bem, resolvi - e só podia ser assim pela minha educação e pela formação que tive - que cumpriria a lei, e com muito cuidado para não ser traído. Foi um resto de ano difícil, só de trabalho, indo a uma ou outra cerimônia para representar o DPF, e até mesmo acordando e encontrando na porta de saída de casa (dentro, portanto, do terreno) despachos de macumba bem feios. Eu tratava de pulá-los, e então mandava limpar e jogar tudo no lixo, sem comentários. Mas São Luís (mesmo com muitos pobres, com dificuldade de tudo e com muita sujeira) tinha coisas agradáveis como a praia, o clima e a tranquilidade, pois o maranhense é como o baiano, calmo e devagar. Montei o time de futsal da SR (consegui alguns mais novos, que eram contratados da estação-rádio e dos serviços auxiliares) e as coisas começaram a ficar gostosas. Madeira

vivencias-madeira-cronológica (1972/1)



1972: vida de profissional, ainda mais federal, é feita de mudanças inesperadas, e em junho deste ano veio um novo ciclo, com mudança de estado. O meu trabalho no combate às drogas repercutiu em Brasília, na cúpula do DPF, e fui escolhido, entre cerca de vinte delegados, para fazer um concurso público interno para assessor de planejamento e controle da direção geral. Feito, acho que pela única vez na vida, fui classificado em primeiro lugar e recebi a ordem de aguardar novas instruções. Fiquei bastante desiludido, pois o que eu mais queria era continuar na linha de frente, não ir para um gabinete com ar refrigerado, de terno e gravata. Mas, felizmente, antes de que isto ocorresse, surgiu uma nova oportunidade de promoção com a vacância do cargo de superintendente regional (dirigente máximo - administrativo e policial - da PF em um estado) no Maranhão. A mudança seria radical (e foi) em termos de cidade, de vida familiar (educação e saúde, entre outros), de distância de nossa cidade natal (Rio, pois de Curitiba, em nove horas de ônibus, estávamos lá), mas era promoção, novas e muito maiores responsabilidades (o que me atraía muito) e a chance de fazer rodar todas as atribuições da PF à minha maneira, além de não ficar burocratizado, teórico. Aceitei, e em junho saímos de um frio de zero grau (no dia do embarque, no aeroporto de São José dos Pinhais) para um calor gostoso de vinte e cinco graus em São Luís do Maranhão. Sem mobília, o chefe da comunicação social da SR/MA arranjou um sítio na estrada que liga São Luís à São José do Ribamar, já mobiliado, e lá residimos por cerca de quinze dias, todos nós (eu, Tê, crianças e Hilda). Posse concorrida, pois à época o superintendente da PF era a segunda autoridade do executivo federal no estado, abaixo apenas do comandante da unidade do exército (na aeronáutica e na marinha os chefes eram sargentos ou sub-oficiais), identifiquei rapidamente - até por não gostar - os riscos das babações, dos puxa-sacos e, principalmente, da imprensa sensacionalista. Para completar, por pura sorte, no dia seguinte à posse, primeiro dia de trabalho, mandei averiguar uma carta anônima, manuscrita, que dizia que em um navio cargueiro que tinha chegado havia uma grande quantidade de droga em um dos compartimentos, que deveria estar cheio de água (lastro), e apreendemos a maior quantidade de drogas ocorrida no Nordeste. Foi manchete nacional e tome de imprensa na nossa sede. Tratei de mandar o chefe da comunicação atender os repórteres. Foi um resto de ano de muito trabalho, pois o efetivo era reduzidíssimo e de policiais optantes da polícia carioca, velhos, cansados e/ou com família no Rio, sozinhos e aí amasiados, ou de contínuas licenças médicas para ficarem em sua cidade de origem. Delegado havia apenas um, licenciado, o dr. Laís Loureiro Alves, que tinha brigado com o chefe anterior e estava no Rio de licença. Laís era da minha turma e fonei para ele, chamando-o para voltar e vir trabalhar comigo; ficamos nós dois, as únicas autoridades policiais federais no Maranhão. O jeito era eu administrar e também ser delegado, presidindo inquéritos e flagrantes. E assim o fiz, com trabalho adoidado e muito êxito. Alugado um bangalô (como eram chamadas as casas com quintal) próximo à superintendência, na rua Oswaldo Cruz 1828, denominada pelo povo de Rua Grande (por ser muito comprida), mobiliário recebido, crianças matriculadas no colégio Becassine (São Luís tem muito de sua cultura baseada na história do domínio francês), viramos maranhenses, com muita praia (principalmente Araçagi) nos feriados e finais de semana. Madeira

segunda-feira, 26 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1971/2)



1971: vida tranquila em Curitiba. Muito frio, muito trabalho, viagens constantes pelo interior do Paraná em diligências, combatendo o tráfico de drogas e de mulheres (as primeiras vinham do Paraguai, e as segundas eram levadas por lá ou pelo porto de Paranaguá, ou ainda de ônibus para São Paulo). Descoberta de um estado rico, de gente trabalhadora de variadas origens, a maioria alemã. Mas tínhamos, por exemplo, a cidade de Assaí, totalmente de colonização japonesa. Havia colônias, bem no fim de alguns municípios, onde os moradores só falavam a língua (ou o dialeto) da terra natal, aprendida com os primeiros imigrantes, como a colônia Adelaide, onde só falavam um dialeto alemão e alimentavam-se e bebiam tudo da forma feita no país de origem. Povo trabalhador que forjou um estado maravilhoso, organizado, próspero e do qual muitos saíram para fazer a pujança de estados próximos, como o Mato Grosso do Sul e Rondônia. Conheci locais de beleza e riqueza ímpares como Foz do Iguaçu e Guaíra (aquela antes de ser inundada pelas águas da barragem de Itaipu), Ponta Grossa (os homens que lá nascem são impedidos de casar com as mulheres nascidas em outra cidadezinha paranaense, Curralinho) e cidades históricas como Lapa e Antonina, além de praias razoáveis como Caiobá e Matinhos. Não se falava (da) nem se acessava a Ilha do Mel, hoje famosa. No trabalho, além das viagens e de flagrantes continuados de tóxicos, as palestras nos colégios eram, sempre que eu estava em Curitiba, uma constante, mostrando aos jovens os riscos da utilização das drogas. A ADESG (associação dos diplomados da Escola Superior de Guerra) também me levou para ser palestrante sobre este assunto e sobre as fronteiras do estado com o Paraguai, no que eu já estava um expert. Terezinha e as crianças muito bem, apenas com muito frio, mas com bastante visita de parentes e amigos do Rio (este é o problema de morar perto do lugar de nascimento...). As peladas firmes, no time da superintendência (futsal) e no time do bairro, o Brasinha F.C. (campo). Neste ano tivemos a primeira grande perda, no sentido de companhia corpórea: Seu José, pai de Terezinha, faleceu após alguns anos de luta contra o câncer. Como já era meio esperado e foi para não vê-lo sofrer muito, foi rapidamente assimilado. Madeira

sexta-feira, 23 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1971/1)



1971: ao voltar das minhas férias em fevereiro fui chamado à direção geral e indicado para ser transferido para o Paraná, para chefiar a delegacia de repressão ao tráfico de entorpecentes da superintendência local. De uma parte, vibração pelo fato de ser um policial federal, pronto a servir em qualquer estado brasileiro, e por voltar à linha de frente, ao combate direto ao crime, e não só o trabalho de gabinete, mas por outro lado a curiosidade da residência em lugar desconhecido e a preocupação com a família. Sabíamos que lá era muito frio, porém um lugar muito adiantado, com vida barata e disciplinada. Lá fomos e conseguimos uma casa excelente, bem próxima do centro de Curitiba, atrás do palácio do governador, no bairro de Ahú de Baixo. A casa tinha amplas salas de visitas e jantar (acopladas), três quartos, quarto de empregada, ampla cozinha e banheiro, com entrada de garagem lateral, jardim à frente - e nos fundos, ao lado da garagem, uma área gramada com uma churrasqueira no chão (fogo de chão, como o gaúcho diz) que conosco sempre serviu para inúmeros sapos morarem. Nesta rua, de nome Manoel Eufrásio, no número 1520, moramos por quase dois anos com Hilda e a visita constante de Dona Hilda, Seu José e meus pais, além de amigos do Rio que estivessem de passagem. Lá Terezinha reencontrou uma grande amiga da Mesbla, vendedora, colega de trabalho na seção de meias, a Cenira, que estava casada com o Mauro, também carioca e gerente da Casa Massom, filial de Curitiba, que era uma das maiores joalherias do Brasil. Foram nossos cicerones e introdutores nos costumes curitibanos, bem diferentes dos cariocas. Cenira e Mauro (já falecido) foram os padrinhos de batismo de Cintia, recém-nascida e já sofrendo um frio terrível. Na SR/DPF/Paraná acumulei, com a repressão aos tóxicos, a delegacia de repressão ao tráfico de pessoas, que combatia uma área criminosa não muito falada, mas imensa, que é o chamado tráfico de escravas brancas (recrutamento de mulheres para prostituição em outros países - e até no mesmo país, em lugar diverso do de moradia). Foi uma época de muito trabalho, com viagens constantes para o interior do Paraná, em especial para a área fronteiriça (Foz de Iguaçu e Guaíra, ainda não existia a barragem), com muitos riscos, diligências continuadas, prisões de traficantes internacionais, grandes apreensões de drogas, alguns tiroteios, lavratura de flagrantes, presidência de inquéritos policiais e muitas palestras em colégios para adolescentes (sobre os malefícios das drogas), deixando muito Terezinha sozinha com as crianças. Ainda bem que pertinho - praticamente na esquina da nossa rua com a avenida principal - havia um colégio muito bom para a faixa etária deles, que Caio e Flavia freqüentavam. O frio era (e é) demasiado, principalmente quando chovia, com um vento que cortava o rosto e rachava os lábios, não deixando a roupa secar e fazendo com que para tomar banho (nem todo dia, claro) tivéssemos que atear fogo ao álcool em uma bacia, abrindo ainda a torneira de água quente, para assim conseguirmos nos despir. Infecção de ouvido as crianças tinham direto; eu usava ceroulas e camiseta de lã de manga comprida por baixo da roupa. Curitiba era excelente para se morar: cidade organizada, povo respeitador que recebia muito bem, vida barata, comida e bebida fartas. Enfim, uma cidade européia em seus costumes. Madeira

quarta-feira, 21 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1970/3)


Manteiga derretida: nasce a Cintia


1970: à vida tranquila de professor e chefe de divisão na ANP, a que eu já estava acostumado e gostando no trabalho e que tinha tudo a ver com meus estudos de magistério, juntavam-se as peladas (vício tal que Dona Hilda sempre dizia que, se ela morresse na hora do meu futebol, eu não iria ao enterro - e acho que ela estava certa), o clube no fim de semana e a presença constante de Ivone, Egydio e filhos; enfim, era só aguardar a chegada de Cintia. O esquema era o mesmo, pois desejávamos que todos nascessem no Rio, com o Levy. Assim, Terezinha iria para lá ao final do oitavo mês e aguardaria o momento com o Levy, e eu em Brasília pronto. Acontece que ao contrário de Flavia, que atrasou quase um mês, Cintia adiantou quase dois e nasceu com oito de gestação. Tocou uma confusão danada quando Terezinha começou o trabalho de parto, e ainda bem que o médico que fazia o pré-natal dela era muito bom e foi de fácil acesso, pois estava de plantão no hospital distrital da L2-Sul, próximo de nosso apto, e rapidamente a levei para lá, por volta das seis e meia da manhã do dia dez de setembro. Às sete e quarenta e cinco nasceu Cintia, prematura (hoje, ao olhá-la, quem pode imaginar isto?), pequenininha, que teve de permanecer na incubadora por algumas horas (cuidado necessário), mas foi logo liberada para ficar no berçário e com a mãe, pois após examinada foi constatado que tinha a saúde perfeita. Mais um espírito amigo e amado incorporou-se à nossa família, para nossa alegria e felicidade. O mesmo cestinho-berço, que tinha recebido e hospedado os irmãos, serviu à Cintia, que como a Flavia não deu trabalho maior, sendo um bebê tranquilo, mantendo no entanto o costume de ser acelerada no andar e no desenvolvimento. Caçula querida, até hoje, juntamente com os irmãos, um dos grandes motivos de me sentir realizado nesta vida, e acrescentadora de alegrias e momentos continuadamente felizes. Madeira

terça-feira, 20 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1970/2)



1970: na ANP voltei à vida tranquila, de muito trabalho na montagem de cursos, seleção de alunos e docência, e estava desde o ano passado fazendo um curso de magistério com bacharelado em história no CEUB - centro universitário de Brasília. Sempre tive muita vontade de aprofundar meu conhecimento sobre a ciência da história e aproveitei a abertura do CEUB, com oferta de matrícula e menos tempo de estudos (pelo aproveitamento de disciplinas feitas, para quem já tivesse curso superior), e topei. Em casa tudo corria bem, apenas Terezinha com dificuldades por Flavia estar na fase de andar e ela grávida de Cintia. Então, como sempre, veio a mão divina e apareceu em nossa casa a Hilda, que se encantou com Flavia e Flavia com ela. De imediato contratada, foi uma mão na roda, como dizia meu pai. Fora isto, a Revolução sendo atacada covardemente, com inocentes como um soldado sentinela no II Exército, que foi morto sem ter nada com nada, estava apenas cumprindo o seu serviço militar. Hoje vejo meia dúzia de procuradores jovens, que não vivenciaram a época e que se acham os donos da justiça, propondo ações contra pessoal das FFAA que foi atacado e se limitou a fazer cumprir as leis (alguns cometeram excessos, mas muito mais os cometeram os que iniciaram - e covardemente - a luta armada contra o sistema vigente). Oposição sempre houve (MDB foi um exemplo) e foi respeitada, como direito para todos aqueles que não cometeram crimes, os quais nunca foram presos ou torturados (vejam o exemplo de Ulisses Guimarães, Teotônio Vilela, Jefferson Perez, Pedro Simon e até o próprio Lula, que esteve oito dias preso e não levou um tapa ou foi preso outras vezes). Portanto, é fácil comprovar que os que foram presos o foram porque assaltaram, seqüestraram ou assassinaram (até companheiros que queriam desistir da luta armada eram mortos por eles covardemente). No entanto, a mídia socialista, por sonho ou média, mas socialista da praia ou das noites cariocas/paulistas, nunca da pobreza, do sertão (lá a vida é dura) apóia e dá divulgação à mentiras de mentes obsedadas pelo poder, pois eles mesmos dizem que a luta é pelo poder. Poucos se atrevem hoje a dizer a verdade, pois esta não vende jornal nem anúncio em TV e rádio, nem garante aplausos fáceis. Estes corajosos são perseguidos e alguns que devem ser lidos são Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor (ex-comunista convicto) e Roberto Pompeu de Toledo. Apesar da Lei da Anistia, querem abrir arquivos, e eu entendo que devem ser abertos, mas com a presença de ou feito por analistas internacionais, ou então - como nessas indenizações absurdas, que alguns poucos honestos como Gabeira e Millôr não aceitaram - só virão as verdades de quem está no comando do país. Vai aparecer tortura de agentes policiais e militares, mas também vão aparecer justiçamentos (assassinatos) feitos por altas personalidades do atual governo, bem como riquezas conseguidas com o dinheiro desviado dos assaltos ou vindo de Cuba e da URSS. É fácil ser o tal, o dono único da verdade quando se tem a máquina governamental na mão. Na verdade foram e são até hoje mentirosos e covardes, ao contrário de um Ulisses, um Simon, cometendo, sob a desculpa de criar uma democracia (que existia forte, mas com o povo protegido, sem crime organizado, sem traficantes, sem violência), todo tipo de pusilanimidade, de poltronice e maldade. Hoje se locupletam escrevendo inverdades, dando palestras e prestando consultorias (com que preparo e em quê? - em mudança de face, em se esconder, em fugir após delinqüir?). Um dia, no entanto, far-se-á justiça, como o próprio Lula, este um líder sindical de peso, nunca um subversivo, faz volta e meia à revolução, reconhecendo as coisas boas feitas pelos seus presidentes. Madeira

segunda-feira, 19 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1970/1)



1970: mais uma vez deu-se a merda, ou seja, com a minha maneira de ser, de quem é fiel ao seu caráter, talvez teimoso, de quem não deixa que a coluna se envergue por causas mesquinhas ou materiais, não aceitando a covardia como forma de sobrevivência, só aceitando recuos ou humilhações por alguma causa maior que a do interesse pessoal, briguei com o diretor geral do DPF, um desses generais (a maioria é boa) que vão para a reserva e acham que continuam generais no meio civil. Aconteceu lá pelo meio do ano, quando a direção geral resolveu de vez unificar os dois serviços de informações (inteligência, hoje em dia) do DPF, o que eu chefiava (SI/DO) e o do DOPS (SI/DOPS), chefiado por um colega delegado, o dr. Firmiano Pacheco, ficando o DOPS somente com a parte operacional ligada ao DOI/CODI (nós éramos ligados ao SNI). Idéia muito boa esta, a de subir os arquivos do DOPS e ter um só órgão de informações na polícia federal. O problema, para a minha surpresa, é que o tal general chamou a mim e ao Pacheco, comunicou-nos a determinação e nos informou que chefiaríamos o órgão, ou seja, ele traria o seu pessoal e material e dividiria os trabalhos e decisões comigo. De imediato, na bucha, avisei que por princípio de comando eu não o dividiria, e a direção geral que ficasse à vontade para me exonerar do cargo, ficando apenas o Pacheco. OK, me fodi. Saí de cabeça erguida, certo de que os alfarrábios de comando me ensinaram isto e meus comportamentos profissionais também, mas perdi de imediato cerca de 50% do meu salário, pois a minha chefia era de cargo comissionado 5C. Isto pagando a prestação do apto e com as prestações de um carro novo comprado há pouco (um fusca 0 km, meu primeiro carro novo e com a família aumentando, pois inexplicavelmente - os médicos diziam que no pós-parto a mulher não engravidava - Terezinha estava grávida de Cintia). Pra completar, transferiram-me para a ANP (academia nacional de polícia, órgão de ensino da polícia federal), onde eu já dava muitas aulas, principalmente sobre inteligência policial. Novo ciclo, bem diferenciado, em uma área (dos males, o menor) com a qual já me identificava, o ensino. Assim afastava-me da Interpol e das informações, e na ANP acabei por (identificando-me mais com isto) aprender a montar cursos, traduzir livros policiais (traduzi provavelmente o primeiro manual de segurança empresarial - do inglês -, que tornou-se depois um manual da ANP), lecionar mais continuadamente e depois a aplicar concursos. No fim, foi bom. Com o meu senso profissional de fazer o que me era determinado com rapidez (e bem feito), logo na ANP recebi missões importantes, dentre as quais a de montar o plano de segurança da futura sede do ministério das relações exteriores, o Itamarati, na Esplanada dos Ministérios (o único prédio diferente) e de montar e aplicar o curso de formação do pessoal aprovado em concurso público para o quadro de segurança do mesmo. Também no final do ano fui designado para o cargo de chefe da divisão de cursos e seleção da academia, que, ainda que não representasse o mesmo quantum da anterior, diminuiu o sufoco financeiro. Novo ciclo vivencial - mais aprendizagem, mais bagagem. Madeira

domingo, 18 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1969/2)


Brasil 1X0 Paraguai, Maracanã: gol de Pelé, eliminatórias da Copa de 70.


1969: junto às mudanças com o aumento da família, as mudanças no trabalho. Antes de acompanhar o movimento político (as ações da revolução e os movimentos contrários) por força das atividades no centro de informações, minhas convicções sócio-políticas resumiam-se a cumprir minhas obrigações de cidadão, obedecendo ao conjunto de leis, sendo rigoroso comigo mesmo nos comportamentos do dia-a-dia, honesto, atuando como um servidor público responsável e entendendo que aqueles que elegemos são os responsáveis pela condução do país, por delegação dos eleitores, e isto forma uma democracia. Não adianta e não é correto, se a maioria quer um governante, você sabotá-lo ou querer tirá-lo do poder que lhe foi dado por vontade do povo. Você pode discordar, discursar contra, mas deve aceitar e até torcer para que dê certo, pois o importante é o respeito ao que a maior parte das pessoas quer e quis. Foi exatamente o que ocorreu em 1964, quando o povo todo estava revoltado com a baderna reinante no Brasil, com a falta de disciplina e respeito existente e tudo comandado pelo governo central (Jango). Isto ficou claro com a marcha da Família, que tomou conta das ruas do Rio sem convocações, sem condução para o povo, apenas por sua vontade soberana. Tudo muito evidente - menos para os pseudo-comunistas brasileiros, na realidade oportunistas que desejam apenas se perpetuar no poder e as riquezas inerentes a ele. De 64 a 67 a Brasil viveu um período de calma e progresso, com combate e vitória contra a fome e o analfabetismo, chegando a ser a sétima economia do mundo. Mas em 1968, impulsionados pelos movimentos estudantis de rua franceses, os oportunistas voltaram com violência. Hoje a mídia socialista, que quer fazer média e vender jornais e programas, fala (na maior parte da vezes, com raras exceções corajosas) da violência da Revolução. Houve, claro que houve, alguns abusaram, outros apenas se vingaram (o que é errado), mas a verdade é que ocorreu uma proposta de combate, uma proposta de luta armada iniciada por alguns idiotas preparados em Cuba, idiotas que mataram, seqüestraram, torturaram (principalmente os companheiros deles que tentaram desistir) e assaltaram bancos - e queriam o quê? Passividade de um governo forte? Os casos são de domínio público: explodiram o carro particular, no vale da Ribeira/SP, de um tenente nissei da PM/SP, um jovem que nada tinha com a Revolução; fizeram um PM/SP de trânsito ajoelhar-se no meio da avenida São João, durante um assalto a banco, e depois atiraram em sua cabeça; e inúmeros outros casos de covardia. Tinham suas células de subversão organizadas em uma de expropriação (assalto a banco), uma de controle de esconderijos (aparelhos), uma de ação armada e uma de justiçamento, onde torturavam e matavam aqueles que queriam desistir das ações de luta armada. A partir daí houve a criação dos DOI/CODI´s, que centralizaram as ações de combate às atividades deles. Assim, repito o que o presidente do Clube Militar disse há pouco: vamos reabrir, vamos apurar tudo sobre as ações da revolução, mas também vamos investigar todos os crimes cometidos pelos que atacaram, iniciaram a luta armada, quase todos hoje altos líderes do governo central, e aí que se fale a verdade e que os criminosos sejam punidos - e não somente aqueles que reagiram. Madeira

sábado, 17 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1969/1)


Maternidade São José, Mesquita: "dos três a mais pesada ao nascer."


1969: com o futuro centro de informações do DPF montado, recebendo pessoal e material para a centralização das informações anti-subversão e a Interpol rodando direitinho, seguia a vida. Com o Caio já na escolinha, andando, os finais de semana no Minas-Brasília e as visitas do pessoal do Rio (até meus pais foram conhecer nosso apto), nossa vidinha corria tranquila, e chega então a novidade: Terezinha grávida. Família planejada, era nossa vontade que Terezinha tivesse outro filho quando o anterior não mamasse mais e já andasse; enfim, que exigisse cuidados diferenciados dos de um recém-nascido. Era uma menina e deveria nascer em setembro, mesmo mês de Terezinha. Alegria geral, cuidados mil. Neste ínterim, uma viagem à Paris para um congresso na sede da Interpol sobre a utilização da informática no combate ao crime organizado. Lá fui eu rever Paris. Setembro chega e nada da menina chegar. Em todo caso, no final de setembro acertamos a ida de Terezinha e do Caio, com a babá, para o Rio, para ficar com Dona Hilda e o Levy acompanhando, pois o esquema era idêntico ao do primeiro filho (lá em Mesquita, na maternidade São José). Início de outubro, notícias de que estava chegando a hora, racho para o Rio no possante gordini azul escuro. Fui voando e cheguei lá no dia seguinte, dois de outubro, por volta das quatro horas da tarde. Terezinha começa a sentir as dores do parto. Vou com ela e Dona Hilda para a maternidade. Chegando lá, bem na porta, quando ia saindo do carro, estoura a bolsa d´água, e Terezinha é levada às pressas para a sala de parto. O médico obstetra de plantão, um japonesinho de que até hoje não sei o nome, começa o atendimento. Terezinha me implorava para ir buscar o Levy. Saí correndo (não existia celular, claro, e não consegui falar com ele pelo orelhão) e encontrei-o em outra casa de saúde, no Méier; voltamos correndo, ele em sua vemaguete e eu no possante. Chovia bem e lembro-me dele na minha frente, em cada curva derrapávamos. Quando chegamos, a atrasadinha (nos dias) e também apressadinha (no nascer) já tinha dado as caras. Dois de outubro, às dezoito horas, pelas mãos de um médico desconhecido, mas sob a orientação e o amor do Levy, que nos levou (eu e Dona Hilda) para ver Terezinha e Flavia. Ao contrário dos irmãos, já surgiu grandinha, e foi dos três a mais pesada ao nascer. Como os outros, já nasceu linda. Logo Terezinha, que se recuperava rápido quando em um hospital (sempre teve horror a eles, parece que já antevia o que iria passar), estava pronta para voltar para casa, e voltamos com tranquilidade para Brasília, a família aumentada. Flavia, como o Caio e depois a Cintia, veio a acrescentar e muito ao nosso viver. Bonita, corajosa, lutadora à sua maneira pelas causas que entende justas, companheira que não hesita em desafiar o que for preciso quando decide lutar, é também parte importantíssima desta minha vivência e com ela quero conviver o número necessário de vidas para aprender e me desenvolver. Madeira

sexta-feira, 16 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1968/2)


Forte Duque de Caxias, Leme


1968: passei os seis meses do primeiro semestre no Rio, e aprendi toda a teoria e toda a prática de atividades de combate à subversão da ordem social e política em um país, segundo a doutrina brasileira (com base na norte-americana e na israelense, de dois países adiantados na realidade anti-terrorismo e anti-sabotagem), lá no CEP, no Forte Duque de Caxias. Este curso, de formação de analista de informações, era para oficiais (havia o de operações, que era para nível médio, sargentos) e foi a base para a criação da escola nacional de informações (EsNI), ligada ao SNI (hoje ABIN). Éramos trinta alunos, quase todos oficiais das Forças Armadas e Auxiliares (PM´s) - com dois civis apenas, eu e o Jercides Dórea, da polícia federal. Terminei em terceiro lugar, num claro ajuste para não ser um civil o primeiro colocado (arranjaram umas pontuações por mérito, típicas de militar), mas foi bom, aprendi e entendi muita coisa do que ocorria no mundo e no Brasil, como guerra fria, comunismo internacional e outros. A morada no Leme foi uma delícia, até porque foi no tempo de verão, pós-carnaval, com uma praia ótima e tranquila à nossa porta. O estudo, apesar de puxado, levei numa boa, facilmente (não tinha números), e as presenças de Terezinha e Caio foram ótimas, com passeios e fins de semana gostosos. Voltando à Brasília no meio do ano, reassumi a Interpol e dediquei-me a montar o novo serviço de informações do DPF, que foi o núcleo embrionário do a seguir centro de informações, do qual fui o primeiro chefe e que é hoje o serviço de inteligência da PF, a todo momento falado na mídia como o órgão que, através de escutas, gravações e campanas descobre crimes praticados contra a União. A Interpol não ficava abandonada, e com muito trabalho tocava as duas áreas, já sabendo que logo teria de haver a separação e eu de optar por uma ou ser designado para a outra. Assim, em setembro, fomos eu e o chefe da seção de estudos (núcleo que era a Interpol), o dr. Paulo Nasi Brum, gaúcho, dono de inglês fluente com o diretor geral do DPF, o Cel. Florimar Campello para o Japão, mais exatamente para Kyoto, representar a Interpol/Brasil no congresso anual da entidade. Mais uma viagem de sonho, com ida antecipada (como recompensa) de quinze dias, passando este tempo entre Hollywood, Los Angeles (lá estive na então única Disneyworld) e Havaí, em Waikiki Beach. No Japão nos encontramos com o diretor geral e, após o congresso, fomos convidados pelos chefes da Interpol de países da Ásia para passarmos alguns dias em outros outros lugares. Assim conheci a Tailândia (Bangkok), Líbano (Beirute), Síria (Damasco), Índia (Nova Déli), Paquistão (Karachi), Itália (Roma) e terminando em Paris, onde conseguimos, eu e o Paulo, um estágio de quinze dias na sede da Interpol. Na volta ainda fiquei quatro dias em Portugal, para visitar o meu pai que lá estava. Enfim, a vida não é só trabalho... Madeira

quinta-feira, 15 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1968/1)



1968: vida transcorrendo tranquilamente, eu acompanhando à distância os acontecimentos no Brasil, pois a Interpol tem como obrigação dos países filiados a proibição de tratar de assuntos políticos, religiosos e raciais. Assim, tinha e tenho minha opinião extremamente favorável ao movimento de 31 de março de 1964, mas não acompanhava as ações do governo militar, a não ser pela imprensa ou por comentários de colegas de setores envolvidos com a repressão. Mas - sempre um mas - a direção geral do DPF resolveu criar um órgão para centralizar as informações sobre as atividades de subversivos, ganhando assim agilidade para informar (de forma unificada, completa) ao ministro da justiça e ao presidente da república os fatos ocorridos. Isto na realidade atendia a uma comprovação feita, nos anos anteriores, de que só se tem êxito nas ações de repressão com a centralização das mesmas, pois de início o combate às ações violentas fracassaram por haver muitos órgãos trabalhando no mesmo assunto, e desordenadamente. Somente com a unificação das ações, com a criação do DOI-CODI, é que veio a dar certo e a se desmontar as células comunistas/oportunistas. No DPF já existia o DOPS central, na sede, e um em cada superintendência, todos ligando-se com todo mundo (Exército, Marinha, Aeronáutica, PM´s, CB´s). Ao procurarem um lugar dentro da organização - não pretendiam, de início, mexer em sua estrutura, o que demandaria uma lei - bateram na minha área, na Interpol, esta já muito bem organizada, rodando redondinha junto à direção geral (no organograma, era esta a nossa subordinação). Expliquei que era impossível executar o pretendido, face ao regulamento da Interpol, mas recebi a determinação de desmembrar o meu pessoal e deixar a seção de estudos (que eu chefiei e montei na minha chegada à Interpol, em l963) como sendo o núcleo-base de um novo serviço de inteligência do DPF, um órgão da direção geral responsável pelo controle de todas as informações referentes à área de combate à subversão, ficando o outro setor da Interpol - o serviço de investigações - como a Interpol propriamente dita. Pronto, lá fui eu para o furacão, mas ordem é ordem e eu era e sou totalmente favorável ao movimento de 64 pelo aspecto anti-comunista e moralizador. Isso resultou em um curso no Rio de Janeiro, no centro de estudos de pessoal do Exército, o CEP, situado no Leme, no fim do mesmo, no Forte Duque de Caxias. Curso de seis meses e seria difícil, recém-casado e com filho pequeno me separar da família (apesar de ser carioca e ter a chance de morar na zona sul), e a solução foi, com as diárias, alugar um apto de temporada no Leme, perto do CEP, e foi o que fizemos. Assim, parte deste ano eu, Terezinha, Caio e uma babá fomos residentes do Leme, na rua Gustavo Sampaio, e isto foi melhor que deixar a família em Brasília, indo lá uma vez por mês, morando só e guardando o dinheiro das diárias. Ainda tinha o possante do meu gordini pra passear pelo Rio, então um mar de tranquilidade graças à denominada Revolução. Madeira

quarta-feira, 14 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1967)



1967: ano que se iniciou com uma visita à casa dos meus pais em janeiro, antes de retornar à Brasília, depois de passar todo o ano de sessenta e seis sem falar com eles, rompido por causa da palhaçada de minha mãe na festa de meu casamento. Fui até lá levar o Caio Fabio para eles conhecerem. Deixei Terezinha no carro, na porta da casa, e subi com o Caio recém-nascido para apresentá-lo aos avós. Meu pai recebeu-nos muito bem, saudoso, solicitou que Terezinha subisse e deu o assunto por encerrado (com minha mãe muito sem graça); aceitamos o esquecimento e tudo ficou bem. Em Brasília, terminamos de montar nosso apto (já muito bonito): comprei um televisor e um móvel conjugado de toca-discos, toca-fitas e rádio, o que fez com que Terezinha, após um ano de dona de casa, pudesse ouvir algo além do que ela escutou no ano anterior - como ela dizia, apenas os estalidos do sinteco novo. Caio Fabio teve o outro quarto montado para ele, com um sofá-cama colocado para prováveis visitas e logo foi habitá-lo, saindo do nosso quarto. Caio era espertíssimo: aos oito meses saiu do andador sem vermos e apareceu na cozinha empurrando-o. Com nove meses ele já estava andando e foi um problema, pois queimou a etapa de engatinhar e o pediatra, o dr. Edson Porto (excelente sob todos os aspectos) queria que ele aprendesse a engatinhar e tentamos de tudo, colocando-o de gatinhas, falando com ele e tal, mas não adiantou, nunca engatinhou. Caio também não usou chupeta, jogava-a fora quando lhe era dada e não mamou no seio, tínhamos de tirar (eu ajudava) o leite do seio de Terezinha e colocá-lo na chuquinha (pequena mamadeira para dar água à crianças recém-nascidas). Logo passou a comer umas sopinhas compradas em supermercado, daquelas para crianças pequenas. Conseguimos uma auxiliar do lar, a Léa, para os serviços de casa. Os finais de semana eram no clube com Egydio, Ivone e os filhos Raul e Mônica. Duas vezes por semana, à noite, eu e Egydio disputávamos o campeonato de Brasília de futebol society (a quadra era quase em frente ao meu apto) - e fomos campeões. No trabalho eu já chefiava a Interpol, e com isso acabei indo à minha segunda viagem internacional (a primeira quando fui para Portugal, aos dez anos, com meus pais) para representar o Brasil no congresso internacional da agência, realizado em Berna, Suiça, no mês de setembro. Fui em companhia de outro delegado, mais antigo, o dr. Gilberto Alves Siqueira, e foi um deslumbramento. Passaporte diplomático, mordomias mil, ida e volta por Paris, com direito a ficar lá na volta alguns dias. De Paris para Berna fomos de trem, veloz e então moderníssimo, com muito trabalho nas reuniões plenárias e nas temáticas, discutindo temas referentes à criminalidade internacional, a que migra na formatação ou no próprio criminoso. As noites eram de passeios noturnos, com shows maravilhosos; enfim, uma aprendizagem e um conhecimento espetaculares, com amizades internacionais novas. Ano tranquilo, com muito amor e paz, com Dona Hilda nos visitando com freqüência. Madeira

terça-feira, 13 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1966/3)



1966: no final do ano, já no Rio de Janeiro aguardando o nascimento do Caio Fabio, fomos na tarde do dia vinte e dois de dezembro até a maternidade São José, onde o Levy examinou Terezinha, confirmou que estava tudo bem e que nos próximos dias ocorreria o parto. À noite, no nosso possante Gordini, fomos eu e Terezinha à Mesbla do Méier para comprar uma banheirinha para os banhos do Caio, última coisa que faltava do enxoval dele. Acabamos de fazer a compra e ao voltarmos pra casa Terezinha começou a sentir as dores do parto, obrigando-me a ligar para o Levy, informando-o e dirigindo-me, com ela e Dona Hilda, para a maternidade por volta das vinte e três horas. Lá chegando, logo chegou o Levy e ela foi para a observação, entrando na sala de parto já com a dilatação informando que era mesmo a hora, isto cerca das duas da manhã do dia vinte e três de dezembro. Às quatro horas da manhã Levy apareceu e informou que tudo correra bem, Caio Fabio estava no banho para ir para o berçário e Terezinha terminando os cuidados médicos pós-parto. Às seis horas tive acesso à Terezinha, que estava muito bem, animada, com um ar de felicidade e bonita, apenas cansada, e depois pude ver o Caio, ainda através do vidro do berçário. A partir daí foi a guerra de Terezinha com Levy, porque ela não aceitava passar o dia de natal internada. Após muitas tratativas ele consentiu, e na tarde de vinte e quatro de dezembro, véspera de natal e dia de sua comemoração fomos embora da maternidade para a casa de Dona Hilda, à rua Proclamação, em Bonsucesso, onde passamos o natal e o ano novo. Mais um ciclo em meu viver (a paternidade), no qual me comprometi internamente a buscar ser o melhor possível, imitando em muito o meu pai, pois não há escola para pais e só pela análise de outros comportamentos paternos pode-se ter algum parâmetro, e eu entendia e entendo que a forma de meu pai educar era a correta. Valeu Caião, tua vinda nos marcou pela pessoa que és, de uma correção de comportamento, de uma honestidade e de uma coragem fortíssimas. Madeira

segunda-feira, 12 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1966/2)


Minas-Brasília Tênis Clube


1966: casado, com muito trabalho na Interpol, com orçamento apertadíssimo, os finais de semana e feriados eram no Minas-Brasília, clube social no setor de clubes do Lago Norte, muito gostoso, onde jogava com o Egydio pelo time de futebol do clube em um campo gramado (fato então raro em Brasília, onde os campos eram de terra vermelha) aos sábados à tarde, e lá ficávamos aos domingos pela manhã na piscina, nós dois com as famílias. Egydio e Ivone já eram pais de uma menina, a Mônica, que para variar foi nos dada como afilhada de batismo. Os almoços dos domingos eram sempre na casa do Egydio, ao voltarmos do clube. Minha parte era ser o motorista da família, pois desde 1963 tinha carro (primeiro um dauphine verde incrementado, depois um gordini azul forte), e como o Egydio não sabia dirigir (nunca aprendeu) a missão de pegá-los para ficarmos juntos sempre foi minha, isto durante os mais de quarenta anos de nossa convivência. Egydio também tinha trocado a farda pela recentemente criada polícia federal, e seguíamos nossas vidas juntos. Terezinha engravidou logo após o casamento (ela não era fácil neste ponto, engravidava até pelo cheiro do esperma), e o pré-natal indicava o nascimento no final do ano. Em paralelo, Ivone também tinha engravidado de novo, com previsão de nascimento para outubro do ano. Assim, com as duas primas-irmãs grávidas, passamos este ano na rotina de trabalho, dureza, cuidados com elas, peladas e jogos. Em outubro nasceu o filho deles, batizado de Raul, e em dezembro nasceu o nosso, o Caio Fabio, mais exatamente em 23 de dezembro, no Rio (pelos parentes tínhamos decidido que nossos filhos nasceriam no Rio, onde também seriam batizados), na maternidade São José, em Mesquita, local selecionado por lá trabalhar o médico por nós escolhido para o parto de Terezinha. Esse médico era o dr. Leon Levy, pessoa maravilhosa, profissional competente, à época recém-formado, que eu tinha conhecido e com ele me relacionado - com muito carinho e amor - quando no BIB, onde ele serviu como aspirante subordinado a mim. Amigo leal e interessado, nos afeiçoamos (até hoje é mais um irmão não sanguíneo dos que Deus me deu) e ele nos ajudou muito - espiritualmente - nos chiliques de Dona Hilda (ela desmaiava e passava mal com alguma freqüência, e em uma das vezes pedi ao Levy, como médico, que a atendesse; ele o fez, e daí veio a ligação forte). Caio nasceu de madrugada, às vésperas do natal, nós já no Rio de férias para o parto e foi uma felicidade muito grande. Pra variar, os padrinhos do Caio foram a Ivone e o Egydio. A família começava a se formar definitivamente, e dos dois chegamos aos três, com todas as lutas e dificuldades existentes, mas juntos e unidos para o que viesse. E muito mais coisas vieram. Madeira

domingo, 11 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1966/1)


Igreja de Santa Terezinha, Tijuca


1966: definitivamente um novo ciclo, como os anteriores totalmente desconhecido e muito mais importante e delicado, afinal eu passaria a ser responsável por outras pessoas (esposa e filhos). Assim eu estava preocupado, pois pela educação que tive, pelos costumes e até pela lei (código civil) de então o homem era o chefe da família, aquele que a conduzia, que decidia. Para mim, até então solteiro, fazendo meus horários e tomando as decisões sozinho era uma grande novidade passar a possuir essa cobrança interna e social, de dividir os comportamentos, as decisões com outra pessoa (certamente bem diferente de mim, da minha forma de pensar). Aos vinte e seis anos começaria a cumprir o príncípio bíblico de crescei e multiplicai-vos, mas ia com muito amor e a certeza da escolha acertada da companheira para tal. Bem, em fevereiro, na igreja de Santa Terezinha, no Rio de Janeiro (escolhida por ser o nome de Terezinha, dado a ela em homenagem à santa), no dia marcado - cinco de fevereiro -, casamo-nos com o habitual atraso da noiva (uma hora), tendo inclusive o casamento seguinte, das dezenove horas, passado à nossa frente, pois éramos o das dezoito horas. Enquanto esperava fiquei no ádrio da igreja comendo pipoca com os amigos da turma da José Higino, e sofrendo as gozações de que a noiva havia desistido. Mas às dezenove horas ela chegou muito bonita, classuda e amarramo-nos perante o altar com os compromissos oficiais. Depois disto fomos para a recepção no Centro Trasmontano, próximo ao Largo da Segunda-Feira, clube social da colônia portuguesa, dos nascidos em Trás-os-Montes, Portugal, onde meu pai era diretor e que eu frequentara com ele desde pequeno. Foi uma recepção muito bonita, para os amigos dos pais, meus, de Terezinha e de nossos amigos e demais parentes, e que nós dois tínhamos montado. Transcorreu normalmente enquanto eu e Terezinha estávamos presentes, e depois de cortarmos o bolo nupcial, mudarmos de roupa e nos despedirmos dos convidados em direção à nossa lua de mel, no hotel-fazenda Três Pinheiros, em Engenheiro Passos, caminho para São Lourenço e Caxambu ocorreu a confusão, da qual só soubemos ao voltar da lua-de-mel. Minha mãe, contrária ao meu casamento com Terezinha, com raiva de Dona Hilda (que eu tratava como mãe) e também por eu não ter me casado com a afilhada dela foi tomar satisfações - e Dona Hilda respondeu à altura. Minha mãe estava acompanhada de minha madrinha Adyr, irmã dela, barraqueira de primeira, e atirou uns doces que estavam na mesa de Dona Hilda em cima desta, que revidou, havendo uma batalha doceira entre as alas femininas das famílias, batalha esta paralisada pela ação dos homens. Ao retornar e saber do ocorrido telefonei ao meu pai, e sentidamente (pelo amor e pelo respeito a ele) avisei que não iria mais em sua casa pelo comportamento de minha mãe, para não desrespeitá-la e assim brigarmos. Voltamos para Brasília e iniciamos nossa vida de casado com muitas dificuldades, pois o salário só dava para pagar as prestações para montar a casa e as do casamento, mas havia alegria e amor. Madeira

sábado, 10 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1965/2)


Asa Sul, Brasília


1965: em julho ocorreu o retorno à Brasília, reassumindo as funções na Interpol de chefe da seção de estudos, sendo responsável pela análise e andamento das solicitações de ações oriundas da central da Interpol em Paris (ou de órgãos policiais brasileiros e ainda de qualquer nação do mundo filiada à Interpol). Do Rio ficou uma forte saudade, com a despedida dos conhecidos, do futebol no departamento autônomo, das idas ao Maraca e dos meus pais, pois tinha definitivamente optado por Brasília como cidade de moradia. Ficava principalmente a noiva, aguardando as providências da morada própria para montarmos nosso lar. Enquanro ela montava o nosso enxoval de peças de cama, mesa e banho, eu me virava para conseguir o apartamento funcional para casar. Mais uma vez o destino (meus mentores) deram aquele empurrão e consegui um apto na Asa Sul, na superquadra 409, chamada de quadra do IAPI, quadra bem desenvolvida, com todo o apoio logístico indispensável de padaria, mercado, farmácia etc. Esta vitória devo a um amigo especial chamado Altamir Balbino, que eu tinha conhecido e aprendido a admirar quando na cia de trânsito da GEB. Na minha ausência do Rio, no BIB, Balbino tinha também optado pela ida para a parte civil do DFSP e havia sido lotado na Interpol como agente de polícia, mas antes disso ainda ficara requisitado por um período (enquanto eu estava na tropa de choque) na Novacap, órgão da prefeitura do DF responsável pelos projetos da nova capital e em especial pela distribuição e conservação dos aptos funcionais. Meu amigo, trabalhando junto e ainda com conhecimentos e amigos na Novacap, foi meu elo para conseguir me inscrever e arranjar esse apto. De posse das chaves do mesmo, Terezinha foi visitar-me, hospedou-se no Egydio e aprovou o imóvel, no quarto andar do bloco B da quadra 409-Sul. A partir daí foi uma correria para pintar e dar uma gabaritada no apto, tendo ela desenhado os móveis como queria e, numa ida ao Rio, os encomendamos em uma fábrica de um amigo de meu pai, Seu João Silva. Não foi frescura fazer móveis sob medida, mas uma necessidade pelo tamanho dos dois quartos e da sala. Concomitantemente escolhemos o tipo e as marcas dos utensílios domésticos, para que eu os comprasse em Brasília e demos andamento nos papéis de casamento e nas demais providências necessárias para tanto. Não foi mole, foi uma corrida só e sem dinheiro, apenas com o meu salário, pois Terezinha, a meu pedido, havia saído do emprego na Mesbla para dedicar-se no Rio a resolver tudo do casamento e da mudança dela para Brasília, e com isso assumi dar o dinheiro correspondente à parte dela em casa. O moral da história é que meus fins de semana passaram a ser dentro do apto, pintando-o (nunca pensei que conseguiria, mas o fiz). Ao final do ano estávamos prontos para casar, com tudo engrenado e muita dificuldade - mas felizes. Terminei o doutorado em dezembro com excelente aproveitamento, passei o natal com Terezinha, família e meus pais (de nariz torcido) e estava preparado para casamento e férias em fevereiro do ano seguinte, 1966, com a casa pronta e mobiliada - mas com a carência de algumas coisas pela falta do vil metal. O apto estava lindo, novinho e com sinteco, mas por falta de dinheiro não compramos um televisor, optando por uma máquina de lavar roupa, e no outro quarto colocamos um sofá-cama de casal para hospedar as visitas de sogros e de mais alguém que viesse do Rio. De resto, tinha todas as coisas que facilitam a vida doméstica. Lá vem novo ciclo. Madeira

sexta-feira, 9 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1965/1)


Faculdade Nacional de Direito, rua Moncorvo Filho; à direita, vê-se a Praça da Aclamação (atual Campo de Santana).


1965: vida seguindo normalmente, quartel, esportes, formado em direito e inscrito na OAB sob o número 777, namoro firme e a necessidade de tomar uma decisão até julho, quando do fim do período obrigatório de estágio no exército: no Rio, continuando na vida militar até o máximo de nove anos ou advogando; em um retorno à Brasília, a opção seria dar continuidade à vida militar na então PM/DF. Decisão a ser tomada com antecedência, dadas as providências burocráticas e pessoais necessárias. Depois de muita conversa com Terezinha resolvemos que o melhor seria a volta para Brasília - já que se ficasse no exército ficaria desempregado passado algum tempo, tendo que procurar uma profissão com quase trinta anos e sem outra qualquer experiência que não fosse a militar. Se ficasse no Rio sem ser no exército teria de iniciar uma vida de advogado sem experiência e sem o apoio de um escritório de advocacia de peso. Além do mais, já que estávamos certos do nosso amor e do futuro casamento, não seria nada bom viver perto de nossos pais. Da parte dos pais de Terezinha pelas dificuldades que tinham - e seria (e foi) mais fácil ajudar à distância, para que um casal não atrapalhasse a vida do outro; da parte dos meus pelas reações de minha mãe, que influenciavam meu pai contra o meu casamento com Terezinha. Sonhavam, como todos os pais (principalmente os mais antiquados), com um casamento escolhido por eles, com alguém de posses (tipo Idade Média), do mesmo nível de estudos e que tivesse um jeito bem social, no sentido de titulações, e isso era tudo que Terezinha não tinha. Meus pais tentavam me empurrar para um casamento com a afilhada deles, professora, filha do Seu Gomes, também português, um contador que prestava serviços para os negócios de meu pai e que tinha muito dinheiro, sendo visita freqüente lá em casa e nós na dele. Era tão amigo de meu pai que comprou junto com ele um terreno na avenida Paranapuan, na Freguesia, Ilha do Governador e lá construíram, lado a lado, dois prédios de dois andares, de desenhos idênticos. A pretensa prometida até que não era feia, mas nada me dizia. Com isso tudo resolvemos ficar noivos e o fizemos contra a vontade de meus pais, e planejamos minha volta para Brasília, onde procuraria um apartamento funcional (a que, casado, eu teria direito) para casarmos em cinco de fevereiro do ano seguinte. Nesse ínterim recebi, via quartel, um documento do DFSP solicitando que eu optasse formalmente por continuar na PM (como oficial da GEB) - ou então que fosse para a parte civil. Recebi telefonemas de colegas vários que optaram pela PM (a maioria), todos solicitando que eu fizesse o mesmo. No entanto, informei-me que por decisão legal o pessoal que pertencia ao DFSP - quando a capital federal era no Rio - tinha o direito, se quisesse, de escolher a transferência para Brasília e assim continuar no DFSP (funcionários federais), ou então optar por ser transferido para o há pouco criado estado da Guanabara, ficando com todos os direitos (como funcionários estaduais). Muitos preferiram ir para Brasília, e assim o quadro de oficiais da PM/DF ficou misturado, com oficiais oriundos da GEB e do CPOR/RJ, e da outra parte oficiais ex-PMs vindos do Rio, sendo que à época a escola de formação de oficiais da PM no Rio pedia apenas ginasial completo para ingresso. Com isso as possibilidades de promoções apertaram, e seríamos comandados por capitães, majores e coronéis vindos do Rio, com formação totalmente diferente da nossa, com vícios policiais e outros. Daí preferi, já que estava formado em direito, ficar no setor civil (e estava bem, lotado na Interpol), com possibilidades de ser delegado mais adiante. Assim passou o primeiro semestre do ano, com os planos de retorno, já noivo, fazendo o enxoval e estudando (doutorado em direito público na faculdade nacional de direito, na qual tivera acesso direto por conta de meu histórico escolar da Cândido Mendes, já que o requisito era não ter nenhuma nota abaixo de sete por disciplina durante os cinco anos do curso de bacharelado, e média geral final acima de oito - e eu tinha oito e quatro décimos). Este curso era de dois anos e muito bom. Até julho, pois, muito trabalho, estudo e sonhos. Madeira

quinta-feira, 8 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1964/5)



1964: namoro firmíssimo, trabalho, esporte em dia: era então a hora de conhecer os familiares mais próximos de Terezinha (e ela os meus). De cara fui apresentado aos mais chegadas a ela, além de Ivone e pais, que eram a madrinha dela e a prima: Dona Arlete e Arminda. Dona Arlete era também uma figuraça. Aparentemente a calma personificada, e na realidade bem elétrica. Espírita, foi das primeiras pessoas com quem aprendi a (hoje) minha doutrina. Através dela Terezinha (anos depois) teve acesso ao espírito de luz (nesta encarnação) chamado Chico Xavier. Sempre a visitávamos no apto da Praça Mauá, e éramos magnificamente recebidos. Suas lembranças, que fizeram parte do nosso enxoval, eram panos de prato finamente decorados e sabonetes embalados artesanalmente, tudo feito e dado com muito carinho. Guerreira, depois de viúva prematuramente entregou-se à criação e educação da filha única, Arminda, com quem tinha (e tem) uma simbiose perfeita. Em muitas oportunidades convivi com Dona Arlete, e só tenho excelentes recordações de cada encontro, de cada momento, seja pelas conversas edificantes, seja pelo carinho e pela atenção que sempre me dedicou, muitas das vezes muito pelo olhar inesquecível, a um só tempo firme e carinhoso. Valeu Dona Arlete, você é uma das pessoas que espero reencontrar no Mundo Maior. Arminda, minha comadre amada, companheira de Terezinha na adolescência, prima-irmã pelas afinidades, é parte forte de minhas vivências. Ninguém mais do que ela e o esposo, o compadre Oswaldo que amo com paixão viveram e conviveram comigo, com Terezinha e com todos os meus sem quaisquer reservas ou dificuldades, tanto nos momentos de alegria quanto nos momentos de dor. Arminda, com a genética de Dona Arlete, efetivou também uma total e completa simbiose com a também filha única, minha afilhada Anna Luiza. Guerreira, entregue à filha e ao esposo, marca pela alegria, pela emoção, pela dedicação às pessoas e causas que ama, sendo um exemplo de esposa e mãe (e, para mim, um modelo de comadre). Inteligente e companheira, dedicou-se profissionalmente ao magistério e foi a professora que marcou cada e todos os seus alunos, o que se comprova pelo amor que estes (do Colégio Andrews) lhe transmitem. Não me é possível escrever toda a minha admiração por esta comadre, e sei que tal sentimento é extensivo aos meus filhos e netos, que inclusive volta e meia a ocupam em suas idas ao Rio. Valeu comadre, que possamos estar próximos ainda por algum tempo - e depois façamos grandes encontros no Mundo Maior. Os outros parentes de Terezinha (tios, primos etc) sempre me trataram muito bem, mas não tivemos ligações tão fortes. Os pais de Ivone - Seu Antônio e Dona Alice - e as primas Ivete e Ilma foram aqueles com os quais mais nos encontramos, mas não o suficiente para imprimir marcas tão fortes como essas. Dos meus parentes só mesmo meu irmão - e guru - Sidônio (e seus familiares mais próximos) é que foi apresentado e ligou-se à Terezinha. Os demais não tiveram peso na nossa vida. Mas valeu. Madeira

quarta-feira, 7 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1964/4)



1964: enquanto eu vibrava na BIB, Terezinha trabalhava na Mesbla, a maior loja de departamentos do Rio, situada na Lapa em frente ao Passeio Público, de frente para o aterro da Glória, em um prédio de nove andares próprio e utilizado somente por ela, tendo como símbolo um relógio no topo que até hoje (a Mesbla não mais existe) é conhecido como o relógio da Mesbla. As lojas de departamento (à época existia outra grande no Rio, a Sears) foram as precursoras dos shoppings, pois reuniam todos os artigos passíveis de comercialização em um só local - com tudo pertencendo a uma só empresa. A Mesbla vendia de tudo, até aviões de pequeno porte e lanchas, além de miudezas como bijuterias. Era de origem francesa, como algumas de suas gerentes. Loja chique, vendia somente artigos de primeira qualidade. Seus vendedores passavam por uma seleção rigorosa, cursos continuadamente e vestiam-se de forma impecável, com belos uniformes. A família de Terezinha tinha origem humilde, sendo o pai José Coelho, português, possuidor de uma inteligência apurada mas de poucas letras - como quase todo imigrante luso -, e tinha inclusive levado a esposa, a filha e a sobrinha Ivone para uma temporada em Portugal, onde nasceu o único irmão de Terezinha, o Ismael. Depois de alguns anos voltou ao Brasil, tendo - como era típico dos lusitanos - se estabelecido com um comércio (um bar). A mãe, Hilda Botelho Coelho, brasileira, filha de portugueses, raçuda e trabalhadora era a esposa dotada de gênio forte, ao contrário de Seu José, tranquilo, bom de papo. Formavam um casal que nada tinha em comum. Os negócios com o bar não deram resultado, perderam tudo e então viraram feirantes, com as dificuldades financeiras aumentando (e estas sempre existiram). Terezinha, aos quatorze anos, então idade mínima para trabalhar, candidatou-se a um emprego na Mesbla. Tendo sido aprovada, foi contratada e designada para trabalhar na seção de meias femininas, no térreo do prédio, sob a gerência de uma senhora francesa muitíssimo exigente (o que sempre é muito bom, pois força o desenvolvimento de quem quer crescer), enquanto que em paralelo a prima Ivone o era para trabalhar na seção de cama e mesa, no terceiro andar. Assim conheci Terezinha: pobre, trabalhando fora, sem poder estudar, inteligente, com muita garra. Pegava um ônibus para a Lapa cedinho (pois às oito horas já tinha de estar no trabalho), sempre em pé e espremida, e voltava quase sempre depois das vinte e duas, dada a necessidade de buscar a hora-extra. Muito bonita, com uma classe no vestir e comportar incomum, papo de primeira e personalidade forte, fortíssima. Todo esse conjunto impressionou-me e levou-me a um amor muito forte, e à certeza de que seria ela a companheira de uma vida a dois a ser construída. Desde o início procurei facilitar tudo para ela e protegê-la, indo buscá-la todas as noites e ficando ao máximo atento às suas necessidades e a dos pais. A feira nem sempre rendia bom dinheiro, além dos problemas com fiscais corruptos, e demandava sacrifícios imensos. Seu José tinha de ir comprar o que ele ia revender no dia (a feira era cada dia em um bairro diferente) de madrugada, no mercado central, o que correspondia a sair de casa às duas horas da manhã para comprar a melhor mercadoria, acertar a entrega na feira daquele dia, deslocar-se (tudo de ônibus) para a mesma, aguardar a entrega, montar a barraca e arrumar o que tinha sido comprado. Seu José era especializado em tomates. Só comprava e vendia tomates, e tinha freguesia certa pelo jeito tranquilo de vender. À tarde, acabados os tomates, tinha de desmontar a barraca, entregá-la para ser levada - para no dia seguinte ser entregue desmontada no outro local de feira - e então ia ao mercado central fazer a encomenda do material para o dia seguinte; ou seja, uma jornada que ia das duas da madrugada de um dia até as quatro/cinco horas da tarde, quando ele chegava em casa para almoçar. Em algumas feiras mais movimentadas Dona Hilda ia se encontrar com ele para apoiar na venda, o que quer dizer que ela saía às cinco/seis horas direto (de ônibus) para o local da feira e vinha pelas treze para casa. Eram dois leões trocando trabalho por subsistência, sobrevivendo. E quando chovia ou o tomate vinha ruim não tinha dinheiro. Por isso o dinheiro de Terezinha acabou sendo imprescindível. Assim os conheci e aprendi a admirá-los e honrá-los. Madeira

terça-feira, 6 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1964/3)


Viaduto Engenheiro Alves Antônio de Noronha em Laranjeiras, 1964


O exército brasileiro veio, através do BIB, mais uma vez complementar meus princípios morais e laborais. Preguiça? Sono? Cansaço? Deixar pra depois? Nem pensar. É fazer e fazer corretamente no tempo certo, sem escusas ou desculpas, tudo aquilo que for de sua responsabilidade, de sua competência. Não existe o Eu não sabia. Errou, assuma o erro e arque com as conseqüências. Mentir, nem pensar. Qualquer comportamento inadequado é analisado, vem a aceitação do erro e a conseqüente aprendizagem para que não seja repetido o mesmo - ou, se não explicado, vem a punição. Lá, efetivamente, todos são iguais. O ditado militar de que toda falha pode ser explicada, mas nunca justificada é correto, pois explicar um erro é humano, mas se você sabia o que é correto fazer e não o fez, nada o justifica. Falar claro, em voz alta, olhando nos olhos do companheiro, superior ou inferior hierarquico, é obrigatório e de bom tom, pois não demonstra receio do olhar e mostra a convicção da posição assumida, exercida. Assim, mentira, falta de cumprimento dos deveres, falsidade, desobediência às regras conhecidas, nem pensar. Isto é tudo que me agrada na vida: seriedade no labor, amizade com companheirismo, autenticidade, coragem muito mais moral que física (esta certas horas é burra, animalesca), combate ao medo, nunca desistir das boas causas, honestidade, principalmente de propósitos (mais importante do que a financeira, pois a corrupção moral é destruidora do âmago), alegria de estar junto aos companheiros... Bem, respeito a todos e a tudo que tenha valor maior, como a pátria. O BIB me proporcionou um aperfeiçoamento de valores já inseridos fortemente em meu íntimo por meus pais, meu irmão, pelos irmãos maristas e pelo CPOR. Vibrava muito em cada dia de quartel pela chance de orientar, preparar os recrutas da cia de comando (dentro do batalhão a companhia responsável pelas missões diretas do comando do mesmo) onde estava como oficial-subalterno, comandante do pelotão de metralhadoras, ensinando os comportamentos militares e os princípios da vida em geral. Afinal, eram jovens de origem humilde, obrigados a servir e aos quais tínhamos a obrigação de passar valores que pudessem ajudá-los mais tarde na vida civil. Nos serviços de oficial-de-dia buscava a perfeição na realização das tarefas de segurança do quartel; nos acampamentos buscava preparar a tropa sob meu comando para a perfeita movimentação de combate; e nas competições esportivas buscava sempre, a todo custo, a vitória. Obviamente era titular nos times de oficiais em todos os esportes, praticando até o atletismo, representando o BIB em lançamento de granada e pertencendo à equipe de esgrima nas olimpíadas da divisão blindada - e depois do I Exército (fui logo eliminado pelos oficiais da AMAN, muito mais bem preparados nos esportes militares). Terezinha firme ao meu lado, e sempre que meu serviço de oficial-de-dia era no sábado ou domingo eu pedia permissão ao comando para que ela almoçasse no quartel comigo. Começamos a fazer os planos para o casamento, e havia a dúvida de onde morar e trabalhar. Voltava para Brasília (para o emprego guardado) ou, formado, tentava a vida de advogado no Rio de Janeiro? Madeira

segunda-feira, 5 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1964/2)

1964: novo ciclo de vida - e quente, muito quente. Sem que eu soubesse, é lógico, estava chegado o momento de conhecer a mulher que ia ocupar a minha vida, constituir família comigo, dar-me o orgulho da paternidade, fazer-me feliz e principalmente ensinar-me uma série incomensurável de coisas que eu não tinha tido a percepção para conhecer. Ao retornar para Brasília, pós-revolução, no final de semana seguinte fui procurar o Egydio para, como era de costume, combinar passar junto o sábado e o domingo. Não o encontrei em casa e soube que ele estava na piscina de um hotel de luxo, próximo ao Pálacio da Alvorada. Fui até lá e o encontrei junto à sogra, a Dona Alice, e também ao lado da madrinha de sua esposa, a sua segunda sogra, a Dona Hilda - que criara a Ivone durante alguns anos, inclusive levando-a para Portugal - e da prima-irmã de Ivone, a Terezinha. Mal a conheci e me interessei por ela. Magra, muito bonita, papo cabeça, alto discernimento e de uma personalidade forte, que impressionava. Uma jovem de dezoito anos, do tipo que onde chegava marcava presença. Depois das apresentações e de um breve papo fui embora, pois tinha que trabalhar. Obviamente fui o assunto do papo após minha saída, devido à minha intimidade com Egydio e Ivone e a eles falarem muito de mim com Terezinha e Dona Hilda. Isto foi no dia cinco de abril e ficou marcado que no domingo, dia sete, eu iria almoçar com eles - e assim ocorreu. E também ocorreu que, acho que estrategicamente (Dona Hilda sempre foi um perigo quando queria algo), findo o almoço fomos - eu e Terezinha - deixados por todos, que se recolheram aos quartos, para lavarmos os pratos e conversarmos. Resultado: namoro iniciado, com cinema no final do domingo e visitas diárias durante os trinta dias de férias dela em Brasília. Resumindo: choveu na minha horta. Nunca fui de pular de namoro em namoro, só tinha tido um anterior de quase seis anos e agora estava de novo amarrado, amarradíssimo. Cartas, idas mais freqüentes ao Rio (agora aproveitava os feriados também), saudades mútuas e então Deus e nossos mentores resolveram colocar a mão sobre nós e checar se era isso mesmo: fui convocado para fazer um estágio de um ano, de tenente R2 (da reserva) no Rio de Janeiro, e aceitei correndo. Escolhi (tinha ótima colocação no curso, um terceiro lugar) para estagiar o 2º BIB (segundo batalhão de infantaria blindada), localizado ao lado da Quinta da Boa Vista, pelo portão próximo à estação de trem da Mangueira. O ministério da guerra (hoje ministério do exército) acertou a documentação de minha licença por um ano com o DFSP e em junho viajei para apresentar-me no BIB. Neste mesmo tempo, como eu já esperava, o IPM a que eu respondia foi arquivado pela Revolução, e eu cursava o último ano da faculdade (com o acompanhamento da OAB). Tudo se encaixando certinho, perfeito, com as bençãos dos meus mentores e, para completar, com uma namorada perfeita. Fui morar com meus pais, então residindo na rua Souza Franco, em Vila Isabel, próximo da Atlética Vila Isabel, no Boulevard 28 de setembro, já que meu pai tinha se aposentado, vendido a Padaria Laís e comprado um sobrado no número 462 dessa rua. Voltei a ser carioca. Desfiz-me de meu quarto e de meu enxoval de Brasília, voltei a freqüentar o Maraca, a ver minha turma de infância e até inscrevi-me para disputar o campeonato do departamento autônomo da federação carioca de futebol, agora pelo time da colônia árabe, o Senhor dos Passos Futebol Clube, nome da rua principal do bairro chamado Saara, no centro do Rio, onde ficam as lojas dos árabes, grandes comerciantes de varejo da cidade. Não voltei para o Confiança, o amor esportivo de minha vida, onde pela primeira vez calcei chuteiras e cuja camisa sempre amei pela simples questão de sentir-me em um outro nível. Não estava mais disposto a ir de caminhão com bancos de madeira aos jogos nos campos dos outros times, e coisas desse tipo. No Senhor dos Passos, que neste ano fez um timaço (a colônia tinha muito dinheiro, e o marketing futebolístico pesava muito), íamos de ônibus confortável e, além disto, as cores do time eram as do Fluminense. Fomos muito bem e até nos classificamos para as finais, sendo vice-campeões do D.A. Jovem, esportista, acadêmico de direito, já inscrito na ordem dos advogados como solicitador, oficial do exército, um namoro perfeito... Enfim, como sempre, uma vida não para agradecer a DEUS, mas para reverenciá-LO e a melhor forma de fazê-lo, hoje tenho a certeza, é a que meu pai me ensinou e meu irmâo pratica - ser correto em todos os momentos com todos ao redor; o que busco fazer, ainda que com as dificuldades próprias de um encarnado. Madeira

quarta-feira, 30 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1964/1)



1964: desta vez veio um ciclo totalmente diferente dos anteriores. O namoro no Rio, pela diminuição das idas, pela distância, talvez pelo amadurecimento tinha ido para o espaço no final do ano passado. Eu entrava no último ano da faculdade, já inscrito na OAB/RJ como solicitador (hoje não existe mais isto; era uma pré-inscrição, pela qual a ordem dos advogados acompanhava os estudos na faculdade, fiscalizando-os, acompanhando as provas e medindo o aproveitamento dos que queriam ser advogados) e apaixonado pelo trabalho lindo feito pela Interpol no combate aos criminosos e grupos de altíssimo nível intelectual, que bolavam delitos grandiosos e fugiam para outros países cheios de dinheiro. Lembro que à época nos debruçávamos sobre três grandes delitos de interesse mundial: a fuga de criminosos nazistas para a América do Sul (Josef Mengele era o mais procurado: quase o prendemos em São Paulo); a Operação Marselha da polícia francesa (tráfico de drogas escondidas em carros de luxo importados); e o assalto ao trem pagador em Londres. Os grandes crimes eram como o enredo dos grandes filmes, muito bem bolados, crimes quase perfeitos. Bem, o grande e diferente ciclo ocorreu no fim do mês de março, quando eu estava no Rio em aula: o movimento de 31 de março, que salvou o país da esculhambação generalizada e sindicalista reinante. Eram greves direto, falta de respeito com o direito de ir e vir, quebra continuada de hierarquia, indisciplina total, tudo culminando em uma grande marcha pelas ruas do Rio, denominada Marcha com Deus pela liberdade, que disseram os meios de comunicação ter reunido mais de cem mil pessoas. Jango, presidente à época, era extremamente fraco, um corno assumido (Maria Tereza, sua esposa, era linda e muito mais nova que ele - a conheci em Brasília ao fazer, ainda na GEB, a segurança ostensiva de uma festa em que ela esteve) e não o creio comunista, mas um populista conduzido por oportunistas que sempre existem e só querem o poder para a própria locupletação. O povo ordeiro não gostava e não queria isso. As Forças Armadas, claro, totalmente insatisfeitas com as repetidas manifestações de indisciplina e quebra de hierarquia patrocinadas pelos clubes de sargentos e de praças, com o apoio dos generais do povo (??!!!) esperavam para ver até onde esse estado de coisas iria. E chegou o limite, o famoso comício da Central do Brasil onde os clubes militares de sargentos e praças carregaram Jango nas costas e fizeram discursos ofensivos ao oficialato. No dia 31 de março eu viajava para Brasília de carona em um carro com outros estudantes, funcionários públicos, nenhum policial como eu, quando fomos em Juiz de Fora interceptados pelo exército e informados da revolução, comandada naquela área pelo Gen. Mourão Filho, que ocupava as estradas de Minas cortando a comunicação entre o Rio - ainda com a força de capital federal e a massa da tropa militar - e Brasília, sede real do poder central. Fui orientado a voltar ao Rio e aguardar as ocorrências - e o fiz, voltando para casa. No dia três de abril, vitorioso o movimento (com o apoio da massa da população brasileira e a fuga dos valentes que se diziam legalistas - não sei de que, pois estavam desrespeitando a constituição e as demais leis), voltei para Brasília e apresentei-me na Interpol sem problemas. Madeira

terça-feira, 29 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1963/4)

1963: de novo tranquilo, com nova dinâmica de vida, muito trabalho burocrático (novidade) e tendo que organizar - dentro dos princípios oriundos da central da Interpol - a OIPC, organização internacional de polícia criminal, entidade internacional mantida por contribuições das polícias de todo o mundo (como uma ONU de assuntos e de cooperação no campo da delinqüência internacional) destinada a combater o crime e os criminosos internacionais que mudam de países. Tendo recebido os arquivos da polícia do Rio, que até então, por ser lá a capital do Brasil, representava-nos, totalmente bagunçados e fora de qualquer ordem, tive um trabalho de leão, ao qual me dediquei muitas vezes também aos sábados e domingos. Mas o fiz com a rapidez possível. As idas ao Rio serviam para atualizar-me nos estudos e matar a saudade de meus pais, da namorada (a mesma desde os tempos de Confiança, cerca de seis anos), da turma da José Higino e do Maraca. Era um banho de civilização, perto de Brasília. Nesta, tinha aos domingos uma colher de chá familiar: Egydio me levava para almoçar na casa dele, sempre. Conheci então aquela que seria minha futura comadre e cunhada, a esposa do Egydio: Ivone. Pessoa calma, muito boa, compreensiva, dona de casa e companheira completa que me aceitou e adotou com o mesmo carinho e dedicação do Egydio. Assim, os três tornamo-nos companheiros inseparáveis nos finais de semana, quando passamos a freqüentar um clube excelente às margens do Lago Sul, o Minas-Brasília Tênis Clube, pelo qual eu e Egydio passamos a jogar nos sábados à tarde. Acabamos por ficar juntos direto, da manhã de sábado, quando almoçávamos no clube e jogávamos ao domingo de manhã, na piscina e almoçando lá. Isto tudo amenizava meus dias em Brasília, que continuava sendo lugar de passagem para políticos - que, como até hoje, chegavam na terça-feira e voltavam para seus estados nas sextas. Brasília tinha como diversão única dois cinemas e os clubes, normalmente de funcionários, que dentro da idéia imbecil dos comunistas (idéia para melhor controle das pessoas) trabalhavam juntos na mesma repartição a semana toda, moravam juntos na mesma quadra, iam para o trabalho juntos no ônibus da repartição e no fim de semana para o mesmo clube - clube dos funcionários do mesmo local de trabalho! Brilhante, bem igualitário e nada tedioso, não? Com isso era um tal de homem com mulher de outro e mulher de um com o homem de outra... Madeira

segunda-feira, 28 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1963/3)

1963: afastado do comando e da tropa que havia ajudado a criar, do recrutamento e seleção dos homens ao seu treinamento, da tradução e adaptação de manuais à escolha de armamento, tudo, fui mandado para a parte civil do DFSP, uma prova fortíssima de proteção divina, com o melhor caminho a seguir nesta encarnação. Por quê? Porque o normal seria ficar recolhido ao quartel, em serviços internos (oficial-de-dia, expediente administrativo) e não continuar trabalhando normalmente. E o pior, respondendo a um IPM (inquérito policial-militar) para apurar a nossa ação policial. Fiquei tranquilo, pois já sabia que o ferimento causado na vítima não era de calibre 38, o que usávamos. Era dos vagabundos agitadores, que na confusão e na escuridão feriram um participante seu colega. Bem, a proteção divina veio forte mesmo, pois fui deslocado da superintendência de polícia metropolitana - órgão a que estava ligada a GEB, dentro do DFSP (órgão do ministério da justiça que controlava todas as áreas de policiamento do DF) - para a superintendência de polícia federal, que seria depois o embrião do departamento de polícia federal, que reunia à época os serviços que a União, por força do direito internacional público, tinha de gerenciar (estrangeiros, passaporte, Interpol, outros). E então fui lotado, como tenente, na Interpol... Era ou não destino? De culpado por violências policiais à sub-chefe do BCN (bureau central nacional)/Interpol no Brasil. O chefe era um delegado de polícia da metropolitana, o dr. Edson Lasmar, um mineiro tranquilo, sábio e educadíssimo que me acolheu muito bem, ensinou-me os primeiros passos e designou-me para sub-chefe do BCN e chefe da seção de estudos de lá, parte responsável pelas análises criminológicas, relações internacionais na área policial, ligações com as polícias estaduais e tarefas outras. A outra seção era a de investigações. Enquanto isso, volta e meia eu era chamado para depor no ministério do exército (no IPM) e sempre assumia a responsabilidade pela ação de desembarcar a tropa e dissolver a baderna, e negava, por não ser verdade, a responsabilidade minha de ter dado qualquer ordem de atirar e de ter sido um dos nossos que o tivesse feito. Tinha acertado com o dr. Edson Lasmar que pelo menos uma vez por mês eu teria de ir ao Rio, afinal já estava acabando o penúltimo ano de direito - e fui autorizado a ir. Egydio já casado, morando na Asa Norte e eu todo domingo pegando um rango na casa dele, e às vezes depois, pela manhã, jogando futebol de campo em algum time de várzea que ele arrumava. Durante a semana, às noites, batia minhas peladas de salão com o pessoal do quartel. Com a mudança de Egydio do nosso quarto e minha saída forçada da S.E., tratei logo de arrumar outro lugar para residir. Já paisano (andando sem farda), descobri postos policiais existentes em todas as superquadras, postos construídos para a prestação de serviços públicos aos moradores da quadra (sediariam serviços para tirar carteira de identidade, de trabalho...), que não vingaram e estavam servindo de moradia para servidores públicos solteiros. Catei um que tivesse um compartimento vazio (eram quatro saletas, com banheiro privativo) e encontrei na Asa Sul, na superquadra 411, ótima localização, principalmente para mim, que morava na Velhacap e estava trabalhando no edifício do então BNDE. Mudei-me logo com meu pequeno enxoval (cama, colchão e armário) - e ficou bom. Um pouco antes tinha comprado meu primeiro carro, um renault dauphine verde claro, ano 1960, de 31 hp, um rabinho quente muito econômico, e assim tudo estava tranquilo (apesar do IPM). Logo dominei o funcionamento da Interpol e comecei a apresentar resultados, reorganizando os arquivos, descobrindo formas de dinamizar o andamento dos serviços, traduzindo do francês e inglês; enfim, dando certo. Brasília e o Brasil cada vez mais caóticos, sem governo, com os movimentos sociais mandando e desmandando e os brasileiros, salvo os cúmplices da bagunça, aqueles que se beneficiavam dela, insatisfeitos com os desmandos dos governantes. Então, em uma ida ao Rio, falei com meu pai que estava a fim de me mudar para Portugal, onde existia ordem - pois esse negócio de ditadura afeta apenas quem é vagabundo e baderneiro -, e quase (depois de muitos anos) levei mais uma surra. Meu pai me disse, curta e grossamente: Aqui nascestes e aqui é teu lugar. Trates de ser correto, estudar e lutar para que teu país melhore sempre. Eu saí do meu para não passar necessidade, mas este não é o teu caso. Nunca mais pensei em sair da minha pátria - por nada. Madeira

domingo, 27 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1963/2)



1963: no dia sete de setembro deste ano teve início um novo ciclo de vida, face a um grande conflito ocorrido na rodoviária de Brasília. Neste dia, no Rio de Janeiro, o Egydio casava e eu estava no comando da S.E. Brasília vivia então, assim como o Brasil de hoje, uma época de badernas, de falta de respeito total, de uma indisciplina generalizada apoiada claramente pelo governo federal, governo este conduzido por um presidente fraco, dominado pelos sindicalistas - na realidade, grupos de comunistas que desejavam (como hoje) apropriar-se da máquina governamental para o seu próprio proveito. Era um bando de analfabetos, ávidos por abocanharem funções de mando (sem competência para tanto), sob a capa de nacionalismo, de o proletariado dominar o pais para redistribuir a renda, esquecendo-se (como agora) que sem o capital não há o trabalho e que a centralização administrativa é um erro crasso, principalmente estatizada, pois não é função do Estado empregar (como está sendo agora); isto gera mais tributos pela necessidade de arrecadar mais e mais, e ainda inflação e fuga de dinheiro. A prova disso veio logo depois, com o fim do comunismo no mundo, mas esses imbecis (José Dirceu e camarilha) querem as mordomias que os ditadores e seus acólitos têm, protegendo os puxa-sacos e enriquecendo a si mesmos, sempre com discursos populistas, demagógicos. O pobre que só quer melhorar de vida e não consegue entender muitas coisas fica seduzido por essa fala populista, pelos discursos demagógicos; fazem uso de um raciocínio simplista: sou eu que estou na presidência, pois é um operário como eu que lá está: alguém que bebe cachaça, fala errado, é amigo e simples. Eles não conseguem ver as mentiras e golpes perpetrados diuturnamente pelos socialistas, pretensos defensores do povo que estão no poder, a cada dia mais ricos e empanturrados por suas benesses, pagas pelos tributos recolhidos dos próprios pobres em cada quilo de feijão/arroz comprado. Assim estava Brasília - e o Brasil todo - na época. Bem, no dia em questão havia um grande movimento popular previsto para o anoitecer na rodoviária, contra o aumento das passagens de ônibus, e todo o nosso efetivo (sob o meu comando) foi deslocado para lá. O desfile militar, pela manhã, já tinha sido prenúncio de confusão, com os cartazes pregando rebelião popular, tomada do poder pela força (pelo proletariado), vaias às Forças Armadas e outras manifestações. Com a tropa embarcada na rodoviária, nos três choques, fui procurado por um negão líder sindicalista com uma carta da Casa Civil assinada pelo Darcy Ribeiro - homem inteligentíssimo, depois cabeça da atual LDB, mas fraco, medroso e comuna -, determinando que a força policial ficasse à sua disposição (sob o seu comando, o comando do companheiro Manuelão - era grande mesmo). Obviamente mandei ele se foder e informei que quem comandava era eu, e que se houvesse baderna e quebra-quebra nós iríamos agir - e que se ele era tão líder assim que segurasse os manifestantes. Se só houvesse discurso (já estava lá um caminhão de som cheio de lideranças discursando) e deixassem parte das ruas com trânsito tudo ficaria bem, ou então iríamos atuar. Na época, no entorno da rodoviária, não havia iluminação, era tudo mato e barro na direção da Torre de Televisão. Às tantas horas, já escuro, chegaram os estudantes da UNB (universidade nacional - pública - de Brasília) e começou um quebra-quebra indiscriminado dos ônibus que estavam estacionados na rodoviária. De imediato ordenei o desembarque e uma varredura na rodoviária, no sentido da Esplanada, para o lado oposto ao da torre, ou seja, tirando-os da direção dos ministérios. Ocorreu um confronto, pedradas e tiros contra nós e a gente na porrada e no gás lacrimogêneo, pois não havia qualquer treinamento ou ordem para atirar. Eram usados os cassetetes e gás e as formações de evacuação - no caso, usei a em linha. Nós (uns cem) contra uma multidão, mas treinados e com coragem. Resultado: soldados feridos por pedras, muitos manifestantes por cassetete e um ferido a tiro, que obviamente não havia sido dado por nós. Mas a manifestação acabou - e no dia seguinte eu fui afastado do comando. Madeira

sábado, 26 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1963/1)



1963: até setembro continuou a mesma a minha vidinha de Gebiano (integrante da GEB). Muito trabalho, idas de estudo ao Rio, muito futebol - mais de salão, pois este, apesar de ser a maioria em quadra de asfalto (a do quartel, que comia um tênis por semana e ralava quando se caía) ainda era melhor que o barro vermelho dos campos de futebol. No quartel, nos dois dias de expediente administrativo, eu gastava a manhã toda em educação física com a turma que estava retornando da folga, e fechava com peladas de salão de duas horas de duração. À noite, muitas vezes arrumávamos jogos (em diversas quadras) pro nosso do time de salão, o dos oficiais (muito bom, formado por mim, Egydio, Rezende - mineiro bom de bola - e Barbalho - carioca de São Cristóvão, atacante rápido e goleador -, completando o time com um sargento da cavalaria, o Moslaves, muito bom), e levávamos uns dois outros reservas quaisquer, pois ninguém queria dar lugar e éramos os melhores, dificilmente perdíamos e fizemos nome em Brasília. Das passagens mais marcantes, sempre com o Egydio, duas foram inesquecíveis, assim como a nossa amizade. Uma quando eu, no quartel de serviço em um sábado, recebi um telefonema avisando que na rodoviária de Brasília havia um oficial da GEB enfrentando uma patrulha do exército. Desloquei-me rápido e lá chegando encontrei Egydio, à paisana (sem farda), encostado em uma das grandes pilastras, cercado de soldados do exército que portavam fuzis com as baionetas colocadas. Os soldados investiam contra ele para tentar imobilizá-lo; ele recuava e quando chegavam perto se abaixava, tentando dar rasteiras e rabos-de-arraia - e então os soldados recuavam. Cheguei fardado, identifiquei-me ao sargento-comandante dos soldados e consegui apaziguar os ânimos quando o apresentei como oficial, sanando o problema com a patrulha, problema gerado por olhares mútuos e desafiadores entre Egydio e os soldados, certamente fruto dos fechamentos da zona. A outra, na qual fiquei de babá do Egydio, ocorreu quando houve uma tragédia com um ônibus interestadual que fazia a linha Brasília x Rio; ele caiu da ponte do Rio Prata, na divisa Brasília/Minas, matando quase todos os passageiros (incluindo os três filhos, todos homens, do nosso comandante, o Ten. João - a esposa se salvou e, por marco divino, ainda tiveram uma filha). O Egydio foi de viatura ajudar nas buscas e a Ford F-100 em que ele estava (chovia muito naquela noite) capotou. Ele, pois, ficou preso nas ferragens, com o tórax comprimido. Pelo rádio me informaram e lá fui eu buscá-lo; chegando, eu o encontrei todo arranhado, com dificuldade de respiração, cheio de dores nas costas. Tratei de colocá-lo na ambulância e trazê-lo para o hospital distrital, limpando os sangramentos e animando-o. Ainda bem que nada de mortal ocorreu (ele ficou com problemas de coluna o resto da vida, mas tudo bem então). Depois de alguns poucos dias de hospital, nos quais eu levava comida e dormia com ele, recebeu a alta e foi para o nosso quarto, onde eu dava sopa em sua boca, fato aliás repetido outra vez, quando ele teve uma hepatite (benigna) e devia ficar em repouso, deitado, só podendo comer coisas doces - e então eu comprava umas latas grandes de doce de quatro cores (vermelho, amarelo, marrom e verde - goiabada, marmelada, bananada e figada), cortava e dava novamente em sua boca. Foi um companheiro inesquecível e fraterno. Além de fechar a zona toda noite, esvaziávamos locais ocupados por grevistas, impedíamos invasões (planejadas ou não), combatíamos rebeliões no presídio ao lado do quartel (único presídio de Brasília), policiávamos jogos de futebol decisivos e de alto risco, baile oficial de aniversário da cidade, parada de sete de setembro, eleição de miss Brasil, vinda de altos dignatários de outros países... Ou seja, tudo que não fosse policiamento normal, do dia-a-dia, que representasse perigo maior ou que necessitasse de uma tropa coesa, unida e treinada diariamente, era com a S.E. O restante da GEB fazia o Cosme e Damião (policiamento a pé, em duplas), a rádio-patrulha e tinha a cavalaria para a zona rural. Toda rebordosa era com a tropa de elite - e nós resolvíamos. Havia uma flama, um orgulho muito grande pelo fato de sermos reconhecidos, eficientes, eficazes, vencedores. Madeira

sexta-feira, 25 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1962/2)



1962: este ano na S.E. da GEB foi, além de um ano de muito trabalho (quando em Brasília era dia e noite, para compensar as idas de estudo ao Rio), aquele em que ganhei um dos dois novos irmãos, não de sangue, mas de amizade canina que a vida reservara pra mim: Egydio de Souza Fernandes (do outro falarei mais à frente, o Oswaldo Mattos). Ao ser criada a S.E. fomos escolhidos como implantadores eu e um tenente magrinho, falador, um carioca da gema que tinha chegado uns dias antes de mim e estava lotado na cia de policiamento, o ten. Fernandes. Alegre, desenrolado, amigo dedicado, corajoso, elétrico, jogador de futebol de mão cheia -tanto salão (tinha jogado no Rio no Grajaú Tênis Clube, e eu me lembrava vagamente dele no primeiro time do Grajaú quando eu era do juvenil da Atlética Carioca e fomos jogar contra, fazendo a preliminar) quanto campo (tinha jogado no juvenil do América, time de coração dele e próximo donde morava, e mesmo sendo destro jogava de lateral-esquerdo) -, era mais velho e antigo como oficial do que eu, cerca de quatro anos, sendo também infante pelo CPOR/RJ. Fernandes no serviço, Egydio fora, foi o companheiro de todos os momentos neste ano e depois por cerca de quarenta e cinco anos. Logo que começamos a trabalhar juntos nos afeiçoamos e decidimos - até por ser nossa companhia também a responsável pelo policiamento dos outros policiais, fazendo o serviço de prendê-los quando em ações irregulares - morar fora do quartel (numa residência particular), e ele arranjou um quarto bem encostado, ao lado, que era para os funcionários mais graduados do SAPS, uma autarquia responsável pela manutenção e funcionamento de restaurantes e mercados populares na nova capital. Era um alojamento de madeira, como todas as construções da Velhacap, com um corredor comprido e, virado para este, os quartos pequenos, apertados, com duas camas, uma após a outra em coluna e armário em frente a cada uma, e uma janela ao fundo que dava para o nada, ou seja, para a imensidão reta, plana, com pequenas árvores, muito mato e a terra vermelha de Brasília. Eram cerca de vinte quartos e no meio havia os banheiros (essas construções eram feitas para moradores masculinos ou femininos, nada misto), de um lado os vasos sanitários e as pias e do outro os chuveiros. Ia-se de cueca até esses locais e fazia-se tudo coletivamente, como em um vestiário de futebol, militar ou de clube. Foram dois anos dessa moradia em dupla até o Egydio casar, e muito tranquilos. Egydio era o companheiro pronto a brigar do teu lado, a entender as dificuldades de relacionamento, e tínhamos gostos parecidos. No futebol sempre jogávamos no mesmo time, sendo que no salão ficamos famosos em Brasília como a zaga dos tenentes, ganhando todos os torneios que disputávamos. No campo também juntos, cinema ídem e até os lupanares frequentávamos juntos, até porque ele não dirigia e eu era então o motorista da nossa viatura. Almoçávamos juntos nos dias úteis, com muita poeira em um restaurante em frente ao alojamento, sempre feijão, arroz, bife e ovo, com uma salada de tomate, alface e cebola, de uma senhora apelidada, não sei a razão, de Tequila. Nos finais de semana havia os macetes - e Egydio era o rei dos macetes. Ele tinha amigas na Telefônica (telefonava de graça para a noiva), chamada à época de DTUI (departamento telefônico urbano e interurbano de Brasília); no zoológico (volta e meia íamos lá); em supermercado (as nossas compras eram sempre mais robustas ou mais baratas) e até em hospitais. Isso tudo facilitava nossa vida, barateando-a, principalmente a dele, e nos fins de semana almoçávamos na casa de alguma dessas amigas. Egydio dava nó em pingo d´água. As separações aconteciam apenas nas suas idas ao Rio, onde ele ia para ajustar o casamento (estava noivo e eu não conhecia a noiva). Com esse viver junto, agarrado até nas brigas contra outros, viramos irmãos - com respeito, entendimento e apoio mútuos. Valeu Velho. Madeira

quinta-feira, 24 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1962/1)



1962: vida que seguia tranquila, com as idas ao Rio e o estudo na faculdade, namoro no mesmo Rio nessas idas e muito trabalho na quinzena em Brasília. A primeira grande e perigosa missão dos S.E.´s foi a de toda noite fechar a zona do baixo meretrício, que funcionava dia e noite na Cidade Livre - nome não oficial, por ter sido no início da construção o lugar onde se instalaram os aventureiros que chegavam invadindo terras e construindo barracos, e que logicamente foi onde se instalaram também as prostitutas, os cafetões, os desempregados e os malandros em geral. O nome oficial era e até hoje é Núcleo Bandeirante. Os servidores que vinham nos núcleos precursores ficavam em construções de madeira coletivas na Velhacap, onde também ficavam o quartel da GEB e o presídio anexo. A decisão da chefia de polícia de a tropa de choque, a uma hora da manhã de todo dia fazer cessar as atividades de prostituição (à época eram cerca de quatro mil mulheres lá trabalhando em barracos de madeira, que na frente eram bares com música tocada em radiolas naqueles lp´s de vinil, aos berros, vendendo bebida livremente, e atrás um longo corredor e quartos dos dois lados) foi resultado do nível altíssimo de homicídios, de gente armada e também de brigas entre os soldados fardados das três forças e os nossos. Redigiram uma circular na Casa Militar da presidência, informando e disciplinando nossa atuação para os três ministérios militares, e lá fomos nós. As primeiras operações foram terríveis. Depois de elaborarmos o plano de ação da operação, tendo de dia feito o mapeamento do lugar (mais de setecentas casas), resolvemos que o melhor seria chegar por trás, por um lixão a céu aberto, local em que terminavam as casas e mais alto face ao buraco para jogar o lixo, e a partir de lá fazer uma varredura na qual parte da tropa, em duplas, ia de casa em casa, rua por rua determinando o desligamento do som e o fechamento das contas, e avisando que no retorno, se preciso, fecharíamos tudo na marra. O resto da tropa, com o sargento à frente, vinha checando se as ordens eram obedecidas, e aí quem ainda não estava se movimentando para pagar e ir embora era revistado e expulso com delicadeza (na porrada) da zona. Saíamos sempre de lá por volta das quatro, cinco horas da manhã. É óbvio que a criminalidade diminuiu e a S.E. marcou positivamente o nome da GEB. No início houve reação de militares, e então por rádio nos comunicávamos com o oficial-de-dia da Arma do praça e este, ao observar tal providência, preferia ir embora; em caso negativo era enviada uma tropa da Arma dele para levá-lo detido ao quartel. Também ocorreu de sermos atacados a tiros ao desembarcar do choque, numa tentativa de amedrontar-nos; era terrível, pois onde desembarcávamos era escuro e só se ouvia o estampido, via-se a chama do projétil e escutávamos o barulho da bala furando a lataria do caminhão-choque. Não respondíamos aos tiros nem perseguíamos os autores: simplesmente buscávamos abrigo e depois de um tempo fazíamos o serviço, nessas noites com muito mais rigor e raiva, procurando desde o início armas através de revistas pessoais. Era encagaçante de início, depois nos acostumamos e terminamos com isso pela ação firme. Tivemos gente ferida, poucos, mas nunca por bala, geralmente por faca ou pancada ao dominar algum recalcitrante; este ficava, é claro, em pior estado que o nosso companheiro ferido - numa ação de legítima defesa. Nesse tempo a polícia tinha um melhor conceito, pois não existia corrupção (nunca soube ou vi), agindo com firmeza somente com os vagabundos, os criminosos, os que se negavam a seguir as ordens legais. Madeira

Arquivo do blog

um homem experiente

Vila Velha, ES, Brazil
Pai,avô,amigo,experiente, companheiro,divertido.