"Ando devagar/porque já tive pressa..."

"Ando devagar/porque já tive pressa..."
"Nessa loooonga estraaaaada da viiidaaa..."

Blog destinado a narrar as vivências do autor, através de suas opiniões sobre fatos vividos, e de marcações cronológicas, objetivando deixar para descendentes e amigos suas impressões sobre passagens de sua vida, abrangendo pessoas com sd quais se relacionou e instituições em que laborou, tudo com a visão particular, própria de todo ser humano, individualizada, pois cada pessoa tem sua forma de pensar, ser e viver. Madeira

sábado, 17 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1969/1)


Maternidade São José, Mesquita: "dos três a mais pesada ao nascer."


1969: com o futuro centro de informações do DPF montado, recebendo pessoal e material para a centralização das informações anti-subversão e a Interpol rodando direitinho, seguia a vida. Com o Caio já na escolinha, andando, os finais de semana no Minas-Brasília e as visitas do pessoal do Rio (até meus pais foram conhecer nosso apto), nossa vidinha corria tranquila, e chega então a novidade: Terezinha grávida. Família planejada, era nossa vontade que Terezinha tivesse outro filho quando o anterior não mamasse mais e já andasse; enfim, que exigisse cuidados diferenciados dos de um recém-nascido. Era uma menina e deveria nascer em setembro, mesmo mês de Terezinha. Alegria geral, cuidados mil. Neste ínterim, uma viagem à Paris para um congresso na sede da Interpol sobre a utilização da informática no combate ao crime organizado. Lá fui eu rever Paris. Setembro chega e nada da menina chegar. Em todo caso, no final de setembro acertamos a ida de Terezinha e do Caio, com a babá, para o Rio, para ficar com Dona Hilda e o Levy acompanhando, pois o esquema era idêntico ao do primeiro filho (lá em Mesquita, na maternidade São José). Início de outubro, notícias de que estava chegando a hora, racho para o Rio no possante gordini azul escuro. Fui voando e cheguei lá no dia seguinte, dois de outubro, por volta das quatro horas da tarde. Terezinha começa a sentir as dores do parto. Vou com ela e Dona Hilda para a maternidade. Chegando lá, bem na porta, quando ia saindo do carro, estoura a bolsa d´água, e Terezinha é levada às pressas para a sala de parto. O médico obstetra de plantão, um japonesinho de que até hoje não sei o nome, começa o atendimento. Terezinha me implorava para ir buscar o Levy. Saí correndo (não existia celular, claro, e não consegui falar com ele pelo orelhão) e encontrei-o em outra casa de saúde, no Méier; voltamos correndo, ele em sua vemaguete e eu no possante. Chovia bem e lembro-me dele na minha frente, em cada curva derrapávamos. Quando chegamos, a atrasadinha (nos dias) e também apressadinha (no nascer) já tinha dado as caras. Dois de outubro, às dezoito horas, pelas mãos de um médico desconhecido, mas sob a orientação e o amor do Levy, que nos levou (eu e Dona Hilda) para ver Terezinha e Flavia. Ao contrário dos irmãos, já surgiu grandinha, e foi dos três a mais pesada ao nascer. Como os outros, já nasceu linda. Logo Terezinha, que se recuperava rápido quando em um hospital (sempre teve horror a eles, parece que já antevia o que iria passar), estava pronta para voltar para casa, e voltamos com tranquilidade para Brasília, a família aumentada. Flavia, como o Caio e depois a Cintia, veio a acrescentar e muito ao nosso viver. Bonita, corajosa, lutadora à sua maneira pelas causas que entende justas, companheira que não hesita em desafiar o que for preciso quando decide lutar, é também parte importantíssima desta minha vivência e com ela quero conviver o número necessário de vidas para aprender e me desenvolver. Madeira

sexta-feira, 16 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1968/2)


Forte Duque de Caxias, Leme


1968: passei os seis meses do primeiro semestre no Rio, e aprendi toda a teoria e toda a prática de atividades de combate à subversão da ordem social e política em um país, segundo a doutrina brasileira (com base na norte-americana e na israelense, de dois países adiantados na realidade anti-terrorismo e anti-sabotagem), lá no CEP, no Forte Duque de Caxias. Este curso, de formação de analista de informações, era para oficiais (havia o de operações, que era para nível médio, sargentos) e foi a base para a criação da escola nacional de informações (EsNI), ligada ao SNI (hoje ABIN). Éramos trinta alunos, quase todos oficiais das Forças Armadas e Auxiliares (PM´s) - com dois civis apenas, eu e o Jercides Dórea, da polícia federal. Terminei em terceiro lugar, num claro ajuste para não ser um civil o primeiro colocado (arranjaram umas pontuações por mérito, típicas de militar), mas foi bom, aprendi e entendi muita coisa do que ocorria no mundo e no Brasil, como guerra fria, comunismo internacional e outros. A morada no Leme foi uma delícia, até porque foi no tempo de verão, pós-carnaval, com uma praia ótima e tranquila à nossa porta. O estudo, apesar de puxado, levei numa boa, facilmente (não tinha números), e as presenças de Terezinha e Caio foram ótimas, com passeios e fins de semana gostosos. Voltando à Brasília no meio do ano, reassumi a Interpol e dediquei-me a montar o novo serviço de informações do DPF, que foi o núcleo embrionário do a seguir centro de informações, do qual fui o primeiro chefe e que é hoje o serviço de inteligência da PF, a todo momento falado na mídia como o órgão que, através de escutas, gravações e campanas descobre crimes praticados contra a União. A Interpol não ficava abandonada, e com muito trabalho tocava as duas áreas, já sabendo que logo teria de haver a separação e eu de optar por uma ou ser designado para a outra. Assim, em setembro, fomos eu e o chefe da seção de estudos (núcleo que era a Interpol), o dr. Paulo Nasi Brum, gaúcho, dono de inglês fluente com o diretor geral do DPF, o Cel. Florimar Campello para o Japão, mais exatamente para Kyoto, representar a Interpol/Brasil no congresso anual da entidade. Mais uma viagem de sonho, com ida antecipada (como recompensa) de quinze dias, passando este tempo entre Hollywood, Los Angeles (lá estive na então única Disneyworld) e Havaí, em Waikiki Beach. No Japão nos encontramos com o diretor geral e, após o congresso, fomos convidados pelos chefes da Interpol de países da Ásia para passarmos alguns dias em outros outros lugares. Assim conheci a Tailândia (Bangkok), Líbano (Beirute), Síria (Damasco), Índia (Nova Déli), Paquistão (Karachi), Itália (Roma) e terminando em Paris, onde conseguimos, eu e o Paulo, um estágio de quinze dias na sede da Interpol. Na volta ainda fiquei quatro dias em Portugal, para visitar o meu pai que lá estava. Enfim, a vida não é só trabalho... Madeira

quinta-feira, 15 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1968/1)



1968: vida transcorrendo tranquilamente, eu acompanhando à distância os acontecimentos no Brasil, pois a Interpol tem como obrigação dos países filiados a proibição de tratar de assuntos políticos, religiosos e raciais. Assim, tinha e tenho minha opinião extremamente favorável ao movimento de 31 de março de 1964, mas não acompanhava as ações do governo militar, a não ser pela imprensa ou por comentários de colegas de setores envolvidos com a repressão. Mas - sempre um mas - a direção geral do DPF resolveu criar um órgão para centralizar as informações sobre as atividades de subversivos, ganhando assim agilidade para informar (de forma unificada, completa) ao ministro da justiça e ao presidente da república os fatos ocorridos. Isto na realidade atendia a uma comprovação feita, nos anos anteriores, de que só se tem êxito nas ações de repressão com a centralização das mesmas, pois de início o combate às ações violentas fracassaram por haver muitos órgãos trabalhando no mesmo assunto, e desordenadamente. Somente com a unificação das ações, com a criação do DOI-CODI, é que veio a dar certo e a se desmontar as células comunistas/oportunistas. No DPF já existia o DOPS central, na sede, e um em cada superintendência, todos ligando-se com todo mundo (Exército, Marinha, Aeronáutica, PM´s, CB´s). Ao procurarem um lugar dentro da organização - não pretendiam, de início, mexer em sua estrutura, o que demandaria uma lei - bateram na minha área, na Interpol, esta já muito bem organizada, rodando redondinha junto à direção geral (no organograma, era esta a nossa subordinação). Expliquei que era impossível executar o pretendido, face ao regulamento da Interpol, mas recebi a determinação de desmembrar o meu pessoal e deixar a seção de estudos (que eu chefiei e montei na minha chegada à Interpol, em l963) como sendo o núcleo-base de um novo serviço de inteligência do DPF, um órgão da direção geral responsável pelo controle de todas as informações referentes à área de combate à subversão, ficando o outro setor da Interpol - o serviço de investigações - como a Interpol propriamente dita. Pronto, lá fui eu para o furacão, mas ordem é ordem e eu era e sou totalmente favorável ao movimento de 64 pelo aspecto anti-comunista e moralizador. Isso resultou em um curso no Rio de Janeiro, no centro de estudos de pessoal do Exército, o CEP, situado no Leme, no fim do mesmo, no Forte Duque de Caxias. Curso de seis meses e seria difícil, recém-casado e com filho pequeno me separar da família (apesar de ser carioca e ter a chance de morar na zona sul), e a solução foi, com as diárias, alugar um apto de temporada no Leme, perto do CEP, e foi o que fizemos. Assim, parte deste ano eu, Terezinha, Caio e uma babá fomos residentes do Leme, na rua Gustavo Sampaio, e isto foi melhor que deixar a família em Brasília, indo lá uma vez por mês, morando só e guardando o dinheiro das diárias. Ainda tinha o possante do meu gordini pra passear pelo Rio, então um mar de tranquilidade graças à denominada Revolução. Madeira

quarta-feira, 14 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1967)



1967: ano que se iniciou com uma visita à casa dos meus pais em janeiro, antes de retornar à Brasília, depois de passar todo o ano de sessenta e seis sem falar com eles, rompido por causa da palhaçada de minha mãe na festa de meu casamento. Fui até lá levar o Caio Fabio para eles conhecerem. Deixei Terezinha no carro, na porta da casa, e subi com o Caio recém-nascido para apresentá-lo aos avós. Meu pai recebeu-nos muito bem, saudoso, solicitou que Terezinha subisse e deu o assunto por encerrado (com minha mãe muito sem graça); aceitamos o esquecimento e tudo ficou bem. Em Brasília, terminamos de montar nosso apto (já muito bonito): comprei um televisor e um móvel conjugado de toca-discos, toca-fitas e rádio, o que fez com que Terezinha, após um ano de dona de casa, pudesse ouvir algo além do que ela escutou no ano anterior - como ela dizia, apenas os estalidos do sinteco novo. Caio Fabio teve o outro quarto montado para ele, com um sofá-cama colocado para prováveis visitas e logo foi habitá-lo, saindo do nosso quarto. Caio era espertíssimo: aos oito meses saiu do andador sem vermos e apareceu na cozinha empurrando-o. Com nove meses ele já estava andando e foi um problema, pois queimou a etapa de engatinhar e o pediatra, o dr. Edson Porto (excelente sob todos os aspectos) queria que ele aprendesse a engatinhar e tentamos de tudo, colocando-o de gatinhas, falando com ele e tal, mas não adiantou, nunca engatinhou. Caio também não usou chupeta, jogava-a fora quando lhe era dada e não mamou no seio, tínhamos de tirar (eu ajudava) o leite do seio de Terezinha e colocá-lo na chuquinha (pequena mamadeira para dar água à crianças recém-nascidas). Logo passou a comer umas sopinhas compradas em supermercado, daquelas para crianças pequenas. Conseguimos uma auxiliar do lar, a Léa, para os serviços de casa. Os finais de semana eram no clube com Egydio, Ivone e os filhos Raul e Mônica. Duas vezes por semana, à noite, eu e Egydio disputávamos o campeonato de Brasília de futebol society (a quadra era quase em frente ao meu apto) - e fomos campeões. No trabalho eu já chefiava a Interpol, e com isso acabei indo à minha segunda viagem internacional (a primeira quando fui para Portugal, aos dez anos, com meus pais) para representar o Brasil no congresso internacional da agência, realizado em Berna, Suiça, no mês de setembro. Fui em companhia de outro delegado, mais antigo, o dr. Gilberto Alves Siqueira, e foi um deslumbramento. Passaporte diplomático, mordomias mil, ida e volta por Paris, com direito a ficar lá na volta alguns dias. De Paris para Berna fomos de trem, veloz e então moderníssimo, com muito trabalho nas reuniões plenárias e nas temáticas, discutindo temas referentes à criminalidade internacional, a que migra na formatação ou no próprio criminoso. As noites eram de passeios noturnos, com shows maravilhosos; enfim, uma aprendizagem e um conhecimento espetaculares, com amizades internacionais novas. Ano tranquilo, com muito amor e paz, com Dona Hilda nos visitando com freqüência. Madeira

terça-feira, 13 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1966/3)



1966: no final do ano, já no Rio de Janeiro aguardando o nascimento do Caio Fabio, fomos na tarde do dia vinte e dois de dezembro até a maternidade São José, onde o Levy examinou Terezinha, confirmou que estava tudo bem e que nos próximos dias ocorreria o parto. À noite, no nosso possante Gordini, fomos eu e Terezinha à Mesbla do Méier para comprar uma banheirinha para os banhos do Caio, última coisa que faltava do enxoval dele. Acabamos de fazer a compra e ao voltarmos pra casa Terezinha começou a sentir as dores do parto, obrigando-me a ligar para o Levy, informando-o e dirigindo-me, com ela e Dona Hilda, para a maternidade por volta das vinte e três horas. Lá chegando, logo chegou o Levy e ela foi para a observação, entrando na sala de parto já com a dilatação informando que era mesmo a hora, isto cerca das duas da manhã do dia vinte e três de dezembro. Às quatro horas da manhã Levy apareceu e informou que tudo correra bem, Caio Fabio estava no banho para ir para o berçário e Terezinha terminando os cuidados médicos pós-parto. Às seis horas tive acesso à Terezinha, que estava muito bem, animada, com um ar de felicidade e bonita, apenas cansada, e depois pude ver o Caio, ainda através do vidro do berçário. A partir daí foi a guerra de Terezinha com Levy, porque ela não aceitava passar o dia de natal internada. Após muitas tratativas ele consentiu, e na tarde de vinte e quatro de dezembro, véspera de natal e dia de sua comemoração fomos embora da maternidade para a casa de Dona Hilda, à rua Proclamação, em Bonsucesso, onde passamos o natal e o ano novo. Mais um ciclo em meu viver (a paternidade), no qual me comprometi internamente a buscar ser o melhor possível, imitando em muito o meu pai, pois não há escola para pais e só pela análise de outros comportamentos paternos pode-se ter algum parâmetro, e eu entendia e entendo que a forma de meu pai educar era a correta. Valeu Caião, tua vinda nos marcou pela pessoa que és, de uma correção de comportamento, de uma honestidade e de uma coragem fortíssimas. Madeira

segunda-feira, 12 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1966/2)


Minas-Brasília Tênis Clube


1966: casado, com muito trabalho na Interpol, com orçamento apertadíssimo, os finais de semana e feriados eram no Minas-Brasília, clube social no setor de clubes do Lago Norte, muito gostoso, onde jogava com o Egydio pelo time de futebol do clube em um campo gramado (fato então raro em Brasília, onde os campos eram de terra vermelha) aos sábados à tarde, e lá ficávamos aos domingos pela manhã na piscina, nós dois com as famílias. Egydio e Ivone já eram pais de uma menina, a Mônica, que para variar foi nos dada como afilhada de batismo. Os almoços dos domingos eram sempre na casa do Egydio, ao voltarmos do clube. Minha parte era ser o motorista da família, pois desde 1963 tinha carro (primeiro um dauphine verde incrementado, depois um gordini azul forte), e como o Egydio não sabia dirigir (nunca aprendeu) a missão de pegá-los para ficarmos juntos sempre foi minha, isto durante os mais de quarenta anos de nossa convivência. Egydio também tinha trocado a farda pela recentemente criada polícia federal, e seguíamos nossas vidas juntos. Terezinha engravidou logo após o casamento (ela não era fácil neste ponto, engravidava até pelo cheiro do esperma), e o pré-natal indicava o nascimento no final do ano. Em paralelo, Ivone também tinha engravidado de novo, com previsão de nascimento para outubro do ano. Assim, com as duas primas-irmãs grávidas, passamos este ano na rotina de trabalho, dureza, cuidados com elas, peladas e jogos. Em outubro nasceu o filho deles, batizado de Raul, e em dezembro nasceu o nosso, o Caio Fabio, mais exatamente em 23 de dezembro, no Rio (pelos parentes tínhamos decidido que nossos filhos nasceriam no Rio, onde também seriam batizados), na maternidade São José, em Mesquita, local selecionado por lá trabalhar o médico por nós escolhido para o parto de Terezinha. Esse médico era o dr. Leon Levy, pessoa maravilhosa, profissional competente, à época recém-formado, que eu tinha conhecido e com ele me relacionado - com muito carinho e amor - quando no BIB, onde ele serviu como aspirante subordinado a mim. Amigo leal e interessado, nos afeiçoamos (até hoje é mais um irmão não sanguíneo dos que Deus me deu) e ele nos ajudou muito - espiritualmente - nos chiliques de Dona Hilda (ela desmaiava e passava mal com alguma freqüência, e em uma das vezes pedi ao Levy, como médico, que a atendesse; ele o fez, e daí veio a ligação forte). Caio nasceu de madrugada, às vésperas do natal, nós já no Rio de férias para o parto e foi uma felicidade muito grande. Pra variar, os padrinhos do Caio foram a Ivone e o Egydio. A família começava a se formar definitivamente, e dos dois chegamos aos três, com todas as lutas e dificuldades existentes, mas juntos e unidos para o que viesse. E muito mais coisas vieram. Madeira

domingo, 11 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1966/1)


Igreja de Santa Terezinha, Tijuca


1966: definitivamente um novo ciclo, como os anteriores totalmente desconhecido e muito mais importante e delicado, afinal eu passaria a ser responsável por outras pessoas (esposa e filhos). Assim eu estava preocupado, pois pela educação que tive, pelos costumes e até pela lei (código civil) de então o homem era o chefe da família, aquele que a conduzia, que decidia. Para mim, até então solteiro, fazendo meus horários e tomando as decisões sozinho era uma grande novidade passar a possuir essa cobrança interna e social, de dividir os comportamentos, as decisões com outra pessoa (certamente bem diferente de mim, da minha forma de pensar). Aos vinte e seis anos começaria a cumprir o príncípio bíblico de crescei e multiplicai-vos, mas ia com muito amor e a certeza da escolha acertada da companheira para tal. Bem, em fevereiro, na igreja de Santa Terezinha, no Rio de Janeiro (escolhida por ser o nome de Terezinha, dado a ela em homenagem à santa), no dia marcado - cinco de fevereiro -, casamo-nos com o habitual atraso da noiva (uma hora), tendo inclusive o casamento seguinte, das dezenove horas, passado à nossa frente, pois éramos o das dezoito horas. Enquanto esperava fiquei no ádrio da igreja comendo pipoca com os amigos da turma da José Higino, e sofrendo as gozações de que a noiva havia desistido. Mas às dezenove horas ela chegou muito bonita, classuda e amarramo-nos perante o altar com os compromissos oficiais. Depois disto fomos para a recepção no Centro Trasmontano, próximo ao Largo da Segunda-Feira, clube social da colônia portuguesa, dos nascidos em Trás-os-Montes, Portugal, onde meu pai era diretor e que eu frequentara com ele desde pequeno. Foi uma recepção muito bonita, para os amigos dos pais, meus, de Terezinha e de nossos amigos e demais parentes, e que nós dois tínhamos montado. Transcorreu normalmente enquanto eu e Terezinha estávamos presentes, e depois de cortarmos o bolo nupcial, mudarmos de roupa e nos despedirmos dos convidados em direção à nossa lua de mel, no hotel-fazenda Três Pinheiros, em Engenheiro Passos, caminho para São Lourenço e Caxambu ocorreu a confusão, da qual só soubemos ao voltar da lua-de-mel. Minha mãe, contrária ao meu casamento com Terezinha, com raiva de Dona Hilda (que eu tratava como mãe) e também por eu não ter me casado com a afilhada dela foi tomar satisfações - e Dona Hilda respondeu à altura. Minha mãe estava acompanhada de minha madrinha Adyr, irmã dela, barraqueira de primeira, e atirou uns doces que estavam na mesa de Dona Hilda em cima desta, que revidou, havendo uma batalha doceira entre as alas femininas das famílias, batalha esta paralisada pela ação dos homens. Ao retornar e saber do ocorrido telefonei ao meu pai, e sentidamente (pelo amor e pelo respeito a ele) avisei que não iria mais em sua casa pelo comportamento de minha mãe, para não desrespeitá-la e assim brigarmos. Voltamos para Brasília e iniciamos nossa vida de casado com muitas dificuldades, pois o salário só dava para pagar as prestações para montar a casa e as do casamento, mas havia alegria e amor. Madeira

sábado, 10 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1965/2)


Asa Sul, Brasília


1965: em julho ocorreu o retorno à Brasília, reassumindo as funções na Interpol de chefe da seção de estudos, sendo responsável pela análise e andamento das solicitações de ações oriundas da central da Interpol em Paris (ou de órgãos policiais brasileiros e ainda de qualquer nação do mundo filiada à Interpol). Do Rio ficou uma forte saudade, com a despedida dos conhecidos, do futebol no departamento autônomo, das idas ao Maraca e dos meus pais, pois tinha definitivamente optado por Brasília como cidade de moradia. Ficava principalmente a noiva, aguardando as providências da morada própria para montarmos nosso lar. Enquanro ela montava o nosso enxoval de peças de cama, mesa e banho, eu me virava para conseguir o apartamento funcional para casar. Mais uma vez o destino (meus mentores) deram aquele empurrão e consegui um apto na Asa Sul, na superquadra 409, chamada de quadra do IAPI, quadra bem desenvolvida, com todo o apoio logístico indispensável de padaria, mercado, farmácia etc. Esta vitória devo a um amigo especial chamado Altamir Balbino, que eu tinha conhecido e aprendido a admirar quando na cia de trânsito da GEB. Na minha ausência do Rio, no BIB, Balbino tinha também optado pela ida para a parte civil do DFSP e havia sido lotado na Interpol como agente de polícia, mas antes disso ainda ficara requisitado por um período (enquanto eu estava na tropa de choque) na Novacap, órgão da prefeitura do DF responsável pelos projetos da nova capital e em especial pela distribuição e conservação dos aptos funcionais. Meu amigo, trabalhando junto e ainda com conhecimentos e amigos na Novacap, foi meu elo para conseguir me inscrever e arranjar esse apto. De posse das chaves do mesmo, Terezinha foi visitar-me, hospedou-se no Egydio e aprovou o imóvel, no quarto andar do bloco B da quadra 409-Sul. A partir daí foi uma correria para pintar e dar uma gabaritada no apto, tendo ela desenhado os móveis como queria e, numa ida ao Rio, os encomendamos em uma fábrica de um amigo de meu pai, Seu João Silva. Não foi frescura fazer móveis sob medida, mas uma necessidade pelo tamanho dos dois quartos e da sala. Concomitantemente escolhemos o tipo e as marcas dos utensílios domésticos, para que eu os comprasse em Brasília e demos andamento nos papéis de casamento e nas demais providências necessárias para tanto. Não foi mole, foi uma corrida só e sem dinheiro, apenas com o meu salário, pois Terezinha, a meu pedido, havia saído do emprego na Mesbla para dedicar-se no Rio a resolver tudo do casamento e da mudança dela para Brasília, e com isso assumi dar o dinheiro correspondente à parte dela em casa. O moral da história é que meus fins de semana passaram a ser dentro do apto, pintando-o (nunca pensei que conseguiria, mas o fiz). Ao final do ano estávamos prontos para casar, com tudo engrenado e muita dificuldade - mas felizes. Terminei o doutorado em dezembro com excelente aproveitamento, passei o natal com Terezinha, família e meus pais (de nariz torcido) e estava preparado para casamento e férias em fevereiro do ano seguinte, 1966, com a casa pronta e mobiliada - mas com a carência de algumas coisas pela falta do vil metal. O apto estava lindo, novinho e com sinteco, mas por falta de dinheiro não compramos um televisor, optando por uma máquina de lavar roupa, e no outro quarto colocamos um sofá-cama de casal para hospedar as visitas de sogros e de mais alguém que viesse do Rio. De resto, tinha todas as coisas que facilitam a vida doméstica. Lá vem novo ciclo. Madeira

sexta-feira, 9 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1965/1)


Faculdade Nacional de Direito, rua Moncorvo Filho; à direita, vê-se a Praça da Aclamação (atual Campo de Santana).


1965: vida seguindo normalmente, quartel, esportes, formado em direito e inscrito na OAB sob o número 777, namoro firme e a necessidade de tomar uma decisão até julho, quando do fim do período obrigatório de estágio no exército: no Rio, continuando na vida militar até o máximo de nove anos ou advogando; em um retorno à Brasília, a opção seria dar continuidade à vida militar na então PM/DF. Decisão a ser tomada com antecedência, dadas as providências burocráticas e pessoais necessárias. Depois de muita conversa com Terezinha resolvemos que o melhor seria a volta para Brasília - já que se ficasse no exército ficaria desempregado passado algum tempo, tendo que procurar uma profissão com quase trinta anos e sem outra qualquer experiência que não fosse a militar. Se ficasse no Rio sem ser no exército teria de iniciar uma vida de advogado sem experiência e sem o apoio de um escritório de advocacia de peso. Além do mais, já que estávamos certos do nosso amor e do futuro casamento, não seria nada bom viver perto de nossos pais. Da parte dos pais de Terezinha pelas dificuldades que tinham - e seria (e foi) mais fácil ajudar à distância, para que um casal não atrapalhasse a vida do outro; da parte dos meus pelas reações de minha mãe, que influenciavam meu pai contra o meu casamento com Terezinha. Sonhavam, como todos os pais (principalmente os mais antiquados), com um casamento escolhido por eles, com alguém de posses (tipo Idade Média), do mesmo nível de estudos e que tivesse um jeito bem social, no sentido de titulações, e isso era tudo que Terezinha não tinha. Meus pais tentavam me empurrar para um casamento com a afilhada deles, professora, filha do Seu Gomes, também português, um contador que prestava serviços para os negócios de meu pai e que tinha muito dinheiro, sendo visita freqüente lá em casa e nós na dele. Era tão amigo de meu pai que comprou junto com ele um terreno na avenida Paranapuan, na Freguesia, Ilha do Governador e lá construíram, lado a lado, dois prédios de dois andares, de desenhos idênticos. A pretensa prometida até que não era feia, mas nada me dizia. Com isso tudo resolvemos ficar noivos e o fizemos contra a vontade de meus pais, e planejamos minha volta para Brasília, onde procuraria um apartamento funcional (a que, casado, eu teria direito) para casarmos em cinco de fevereiro do ano seguinte. Nesse ínterim recebi, via quartel, um documento do DFSP solicitando que eu optasse formalmente por continuar na PM (como oficial da GEB) - ou então que fosse para a parte civil. Recebi telefonemas de colegas vários que optaram pela PM (a maioria), todos solicitando que eu fizesse o mesmo. No entanto, informei-me que por decisão legal o pessoal que pertencia ao DFSP - quando a capital federal era no Rio - tinha o direito, se quisesse, de escolher a transferência para Brasília e assim continuar no DFSP (funcionários federais), ou então optar por ser transferido para o há pouco criado estado da Guanabara, ficando com todos os direitos (como funcionários estaduais). Muitos preferiram ir para Brasília, e assim o quadro de oficiais da PM/DF ficou misturado, com oficiais oriundos da GEB e do CPOR/RJ, e da outra parte oficiais ex-PMs vindos do Rio, sendo que à época a escola de formação de oficiais da PM no Rio pedia apenas ginasial completo para ingresso. Com isso as possibilidades de promoções apertaram, e seríamos comandados por capitães, majores e coronéis vindos do Rio, com formação totalmente diferente da nossa, com vícios policiais e outros. Daí preferi, já que estava formado em direito, ficar no setor civil (e estava bem, lotado na Interpol), com possibilidades de ser delegado mais adiante. Assim passou o primeiro semestre do ano, com os planos de retorno, já noivo, fazendo o enxoval e estudando (doutorado em direito público na faculdade nacional de direito, na qual tivera acesso direto por conta de meu histórico escolar da Cândido Mendes, já que o requisito era não ter nenhuma nota abaixo de sete por disciplina durante os cinco anos do curso de bacharelado, e média geral final acima de oito - e eu tinha oito e quatro décimos). Este curso era de dois anos e muito bom. Até julho, pois, muito trabalho, estudo e sonhos. Madeira

quinta-feira, 8 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1964/5)



1964: namoro firmíssimo, trabalho, esporte em dia: era então a hora de conhecer os familiares mais próximos de Terezinha (e ela os meus). De cara fui apresentado aos mais chegadas a ela, além de Ivone e pais, que eram a madrinha dela e a prima: Dona Arlete e Arminda. Dona Arlete era também uma figuraça. Aparentemente a calma personificada, e na realidade bem elétrica. Espírita, foi das primeiras pessoas com quem aprendi a (hoje) minha doutrina. Através dela Terezinha (anos depois) teve acesso ao espírito de luz (nesta encarnação) chamado Chico Xavier. Sempre a visitávamos no apto da Praça Mauá, e éramos magnificamente recebidos. Suas lembranças, que fizeram parte do nosso enxoval, eram panos de prato finamente decorados e sabonetes embalados artesanalmente, tudo feito e dado com muito carinho. Guerreira, depois de viúva prematuramente entregou-se à criação e educação da filha única, Arminda, com quem tinha (e tem) uma simbiose perfeita. Em muitas oportunidades convivi com Dona Arlete, e só tenho excelentes recordações de cada encontro, de cada momento, seja pelas conversas edificantes, seja pelo carinho e pela atenção que sempre me dedicou, muitas das vezes muito pelo olhar inesquecível, a um só tempo firme e carinhoso. Valeu Dona Arlete, você é uma das pessoas que espero reencontrar no Mundo Maior. Arminda, minha comadre amada, companheira de Terezinha na adolescência, prima-irmã pelas afinidades, é parte forte de minhas vivências. Ninguém mais do que ela e o esposo, o compadre Oswaldo que amo com paixão viveram e conviveram comigo, com Terezinha e com todos os meus sem quaisquer reservas ou dificuldades, tanto nos momentos de alegria quanto nos momentos de dor. Arminda, com a genética de Dona Arlete, efetivou também uma total e completa simbiose com a também filha única, minha afilhada Anna Luiza. Guerreira, entregue à filha e ao esposo, marca pela alegria, pela emoção, pela dedicação às pessoas e causas que ama, sendo um exemplo de esposa e mãe (e, para mim, um modelo de comadre). Inteligente e companheira, dedicou-se profissionalmente ao magistério e foi a professora que marcou cada e todos os seus alunos, o que se comprova pelo amor que estes (do Colégio Andrews) lhe transmitem. Não me é possível escrever toda a minha admiração por esta comadre, e sei que tal sentimento é extensivo aos meus filhos e netos, que inclusive volta e meia a ocupam em suas idas ao Rio. Valeu comadre, que possamos estar próximos ainda por algum tempo - e depois façamos grandes encontros no Mundo Maior. Os outros parentes de Terezinha (tios, primos etc) sempre me trataram muito bem, mas não tivemos ligações tão fortes. Os pais de Ivone - Seu Antônio e Dona Alice - e as primas Ivete e Ilma foram aqueles com os quais mais nos encontramos, mas não o suficiente para imprimir marcas tão fortes como essas. Dos meus parentes só mesmo meu irmão - e guru - Sidônio (e seus familiares mais próximos) é que foi apresentado e ligou-se à Terezinha. Os demais não tiveram peso na nossa vida. Mas valeu. Madeira

quarta-feira, 7 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1964/4)



1964: enquanto eu vibrava na BIB, Terezinha trabalhava na Mesbla, a maior loja de departamentos do Rio, situada na Lapa em frente ao Passeio Público, de frente para o aterro da Glória, em um prédio de nove andares próprio e utilizado somente por ela, tendo como símbolo um relógio no topo que até hoje (a Mesbla não mais existe) é conhecido como o relógio da Mesbla. As lojas de departamento (à época existia outra grande no Rio, a Sears) foram as precursoras dos shoppings, pois reuniam todos os artigos passíveis de comercialização em um só local - com tudo pertencendo a uma só empresa. A Mesbla vendia de tudo, até aviões de pequeno porte e lanchas, além de miudezas como bijuterias. Era de origem francesa, como algumas de suas gerentes. Loja chique, vendia somente artigos de primeira qualidade. Seus vendedores passavam por uma seleção rigorosa, cursos continuadamente e vestiam-se de forma impecável, com belos uniformes. A família de Terezinha tinha origem humilde, sendo o pai José Coelho, português, possuidor de uma inteligência apurada mas de poucas letras - como quase todo imigrante luso -, e tinha inclusive levado a esposa, a filha e a sobrinha Ivone para uma temporada em Portugal, onde nasceu o único irmão de Terezinha, o Ismael. Depois de alguns anos voltou ao Brasil, tendo - como era típico dos lusitanos - se estabelecido com um comércio (um bar). A mãe, Hilda Botelho Coelho, brasileira, filha de portugueses, raçuda e trabalhadora era a esposa dotada de gênio forte, ao contrário de Seu José, tranquilo, bom de papo. Formavam um casal que nada tinha em comum. Os negócios com o bar não deram resultado, perderam tudo e então viraram feirantes, com as dificuldades financeiras aumentando (e estas sempre existiram). Terezinha, aos quatorze anos, então idade mínima para trabalhar, candidatou-se a um emprego na Mesbla. Tendo sido aprovada, foi contratada e designada para trabalhar na seção de meias femininas, no térreo do prédio, sob a gerência de uma senhora francesa muitíssimo exigente (o que sempre é muito bom, pois força o desenvolvimento de quem quer crescer), enquanto que em paralelo a prima Ivone o era para trabalhar na seção de cama e mesa, no terceiro andar. Assim conheci Terezinha: pobre, trabalhando fora, sem poder estudar, inteligente, com muita garra. Pegava um ônibus para a Lapa cedinho (pois às oito horas já tinha de estar no trabalho), sempre em pé e espremida, e voltava quase sempre depois das vinte e duas, dada a necessidade de buscar a hora-extra. Muito bonita, com uma classe no vestir e comportar incomum, papo de primeira e personalidade forte, fortíssima. Todo esse conjunto impressionou-me e levou-me a um amor muito forte, e à certeza de que seria ela a companheira de uma vida a dois a ser construída. Desde o início procurei facilitar tudo para ela e protegê-la, indo buscá-la todas as noites e ficando ao máximo atento às suas necessidades e a dos pais. A feira nem sempre rendia bom dinheiro, além dos problemas com fiscais corruptos, e demandava sacrifícios imensos. Seu José tinha de ir comprar o que ele ia revender no dia (a feira era cada dia em um bairro diferente) de madrugada, no mercado central, o que correspondia a sair de casa às duas horas da manhã para comprar a melhor mercadoria, acertar a entrega na feira daquele dia, deslocar-se (tudo de ônibus) para a mesma, aguardar a entrega, montar a barraca e arrumar o que tinha sido comprado. Seu José era especializado em tomates. Só comprava e vendia tomates, e tinha freguesia certa pelo jeito tranquilo de vender. À tarde, acabados os tomates, tinha de desmontar a barraca, entregá-la para ser levada - para no dia seguinte ser entregue desmontada no outro local de feira - e então ia ao mercado central fazer a encomenda do material para o dia seguinte; ou seja, uma jornada que ia das duas da madrugada de um dia até as quatro/cinco horas da tarde, quando ele chegava em casa para almoçar. Em algumas feiras mais movimentadas Dona Hilda ia se encontrar com ele para apoiar na venda, o que quer dizer que ela saía às cinco/seis horas direto (de ônibus) para o local da feira e vinha pelas treze para casa. Eram dois leões trocando trabalho por subsistência, sobrevivendo. E quando chovia ou o tomate vinha ruim não tinha dinheiro. Por isso o dinheiro de Terezinha acabou sendo imprescindível. Assim os conheci e aprendi a admirá-los e honrá-los. Madeira

terça-feira, 6 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1964/3)


Viaduto Engenheiro Alves Antônio de Noronha em Laranjeiras, 1964


O exército brasileiro veio, através do BIB, mais uma vez complementar meus princípios morais e laborais. Preguiça? Sono? Cansaço? Deixar pra depois? Nem pensar. É fazer e fazer corretamente no tempo certo, sem escusas ou desculpas, tudo aquilo que for de sua responsabilidade, de sua competência. Não existe o Eu não sabia. Errou, assuma o erro e arque com as conseqüências. Mentir, nem pensar. Qualquer comportamento inadequado é analisado, vem a aceitação do erro e a conseqüente aprendizagem para que não seja repetido o mesmo - ou, se não explicado, vem a punição. Lá, efetivamente, todos são iguais. O ditado militar de que toda falha pode ser explicada, mas nunca justificada é correto, pois explicar um erro é humano, mas se você sabia o que é correto fazer e não o fez, nada o justifica. Falar claro, em voz alta, olhando nos olhos do companheiro, superior ou inferior hierarquico, é obrigatório e de bom tom, pois não demonstra receio do olhar e mostra a convicção da posição assumida, exercida. Assim, mentira, falta de cumprimento dos deveres, falsidade, desobediência às regras conhecidas, nem pensar. Isto é tudo que me agrada na vida: seriedade no labor, amizade com companheirismo, autenticidade, coragem muito mais moral que física (esta certas horas é burra, animalesca), combate ao medo, nunca desistir das boas causas, honestidade, principalmente de propósitos (mais importante do que a financeira, pois a corrupção moral é destruidora do âmago), alegria de estar junto aos companheiros... Bem, respeito a todos e a tudo que tenha valor maior, como a pátria. O BIB me proporcionou um aperfeiçoamento de valores já inseridos fortemente em meu íntimo por meus pais, meu irmão, pelos irmãos maristas e pelo CPOR. Vibrava muito em cada dia de quartel pela chance de orientar, preparar os recrutas da cia de comando (dentro do batalhão a companhia responsável pelas missões diretas do comando do mesmo) onde estava como oficial-subalterno, comandante do pelotão de metralhadoras, ensinando os comportamentos militares e os princípios da vida em geral. Afinal, eram jovens de origem humilde, obrigados a servir e aos quais tínhamos a obrigação de passar valores que pudessem ajudá-los mais tarde na vida civil. Nos serviços de oficial-de-dia buscava a perfeição na realização das tarefas de segurança do quartel; nos acampamentos buscava preparar a tropa sob meu comando para a perfeita movimentação de combate; e nas competições esportivas buscava sempre, a todo custo, a vitória. Obviamente era titular nos times de oficiais em todos os esportes, praticando até o atletismo, representando o BIB em lançamento de granada e pertencendo à equipe de esgrima nas olimpíadas da divisão blindada - e depois do I Exército (fui logo eliminado pelos oficiais da AMAN, muito mais bem preparados nos esportes militares). Terezinha firme ao meu lado, e sempre que meu serviço de oficial-de-dia era no sábado ou domingo eu pedia permissão ao comando para que ela almoçasse no quartel comigo. Começamos a fazer os planos para o casamento, e havia a dúvida de onde morar e trabalhar. Voltava para Brasília (para o emprego guardado) ou, formado, tentava a vida de advogado no Rio de Janeiro? Madeira

segunda-feira, 5 de maio de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1964/2)

1964: novo ciclo de vida - e quente, muito quente. Sem que eu soubesse, é lógico, estava chegado o momento de conhecer a mulher que ia ocupar a minha vida, constituir família comigo, dar-me o orgulho da paternidade, fazer-me feliz e principalmente ensinar-me uma série incomensurável de coisas que eu não tinha tido a percepção para conhecer. Ao retornar para Brasília, pós-revolução, no final de semana seguinte fui procurar o Egydio para, como era de costume, combinar passar junto o sábado e o domingo. Não o encontrei em casa e soube que ele estava na piscina de um hotel de luxo, próximo ao Pálacio da Alvorada. Fui até lá e o encontrei junto à sogra, a Dona Alice, e também ao lado da madrinha de sua esposa, a sua segunda sogra, a Dona Hilda - que criara a Ivone durante alguns anos, inclusive levando-a para Portugal - e da prima-irmã de Ivone, a Terezinha. Mal a conheci e me interessei por ela. Magra, muito bonita, papo cabeça, alto discernimento e de uma personalidade forte, que impressionava. Uma jovem de dezoito anos, do tipo que onde chegava marcava presença. Depois das apresentações e de um breve papo fui embora, pois tinha que trabalhar. Obviamente fui o assunto do papo após minha saída, devido à minha intimidade com Egydio e Ivone e a eles falarem muito de mim com Terezinha e Dona Hilda. Isto foi no dia cinco de abril e ficou marcado que no domingo, dia sete, eu iria almoçar com eles - e assim ocorreu. E também ocorreu que, acho que estrategicamente (Dona Hilda sempre foi um perigo quando queria algo), findo o almoço fomos - eu e Terezinha - deixados por todos, que se recolheram aos quartos, para lavarmos os pratos e conversarmos. Resultado: namoro iniciado, com cinema no final do domingo e visitas diárias durante os trinta dias de férias dela em Brasília. Resumindo: choveu na minha horta. Nunca fui de pular de namoro em namoro, só tinha tido um anterior de quase seis anos e agora estava de novo amarrado, amarradíssimo. Cartas, idas mais freqüentes ao Rio (agora aproveitava os feriados também), saudades mútuas e então Deus e nossos mentores resolveram colocar a mão sobre nós e checar se era isso mesmo: fui convocado para fazer um estágio de um ano, de tenente R2 (da reserva) no Rio de Janeiro, e aceitei correndo. Escolhi (tinha ótima colocação no curso, um terceiro lugar) para estagiar o 2º BIB (segundo batalhão de infantaria blindada), localizado ao lado da Quinta da Boa Vista, pelo portão próximo à estação de trem da Mangueira. O ministério da guerra (hoje ministério do exército) acertou a documentação de minha licença por um ano com o DFSP e em junho viajei para apresentar-me no BIB. Neste mesmo tempo, como eu já esperava, o IPM a que eu respondia foi arquivado pela Revolução, e eu cursava o último ano da faculdade (com o acompanhamento da OAB). Tudo se encaixando certinho, perfeito, com as bençãos dos meus mentores e, para completar, com uma namorada perfeita. Fui morar com meus pais, então residindo na rua Souza Franco, em Vila Isabel, próximo da Atlética Vila Isabel, no Boulevard 28 de setembro, já que meu pai tinha se aposentado, vendido a Padaria Laís e comprado um sobrado no número 462 dessa rua. Voltei a ser carioca. Desfiz-me de meu quarto e de meu enxoval de Brasília, voltei a freqüentar o Maraca, a ver minha turma de infância e até inscrevi-me para disputar o campeonato do departamento autônomo da federação carioca de futebol, agora pelo time da colônia árabe, o Senhor dos Passos Futebol Clube, nome da rua principal do bairro chamado Saara, no centro do Rio, onde ficam as lojas dos árabes, grandes comerciantes de varejo da cidade. Não voltei para o Confiança, o amor esportivo de minha vida, onde pela primeira vez calcei chuteiras e cuja camisa sempre amei pela simples questão de sentir-me em um outro nível. Não estava mais disposto a ir de caminhão com bancos de madeira aos jogos nos campos dos outros times, e coisas desse tipo. No Senhor dos Passos, que neste ano fez um timaço (a colônia tinha muito dinheiro, e o marketing futebolístico pesava muito), íamos de ônibus confortável e, além disto, as cores do time eram as do Fluminense. Fomos muito bem e até nos classificamos para as finais, sendo vice-campeões do D.A. Jovem, esportista, acadêmico de direito, já inscrito na ordem dos advogados como solicitador, oficial do exército, um namoro perfeito... Enfim, como sempre, uma vida não para agradecer a DEUS, mas para reverenciá-LO e a melhor forma de fazê-lo, hoje tenho a certeza, é a que meu pai me ensinou e meu irmâo pratica - ser correto em todos os momentos com todos ao redor; o que busco fazer, ainda que com as dificuldades próprias de um encarnado. Madeira

quarta-feira, 30 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1964/1)



1964: desta vez veio um ciclo totalmente diferente dos anteriores. O namoro no Rio, pela diminuição das idas, pela distância, talvez pelo amadurecimento tinha ido para o espaço no final do ano passado. Eu entrava no último ano da faculdade, já inscrito na OAB/RJ como solicitador (hoje não existe mais isto; era uma pré-inscrição, pela qual a ordem dos advogados acompanhava os estudos na faculdade, fiscalizando-os, acompanhando as provas e medindo o aproveitamento dos que queriam ser advogados) e apaixonado pelo trabalho lindo feito pela Interpol no combate aos criminosos e grupos de altíssimo nível intelectual, que bolavam delitos grandiosos e fugiam para outros países cheios de dinheiro. Lembro que à época nos debruçávamos sobre três grandes delitos de interesse mundial: a fuga de criminosos nazistas para a América do Sul (Josef Mengele era o mais procurado: quase o prendemos em São Paulo); a Operação Marselha da polícia francesa (tráfico de drogas escondidas em carros de luxo importados); e o assalto ao trem pagador em Londres. Os grandes crimes eram como o enredo dos grandes filmes, muito bem bolados, crimes quase perfeitos. Bem, o grande e diferente ciclo ocorreu no fim do mês de março, quando eu estava no Rio em aula: o movimento de 31 de março, que salvou o país da esculhambação generalizada e sindicalista reinante. Eram greves direto, falta de respeito com o direito de ir e vir, quebra continuada de hierarquia, indisciplina total, tudo culminando em uma grande marcha pelas ruas do Rio, denominada Marcha com Deus pela liberdade, que disseram os meios de comunicação ter reunido mais de cem mil pessoas. Jango, presidente à época, era extremamente fraco, um corno assumido (Maria Tereza, sua esposa, era linda e muito mais nova que ele - a conheci em Brasília ao fazer, ainda na GEB, a segurança ostensiva de uma festa em que ela esteve) e não o creio comunista, mas um populista conduzido por oportunistas que sempre existem e só querem o poder para a própria locupletação. O povo ordeiro não gostava e não queria isso. As Forças Armadas, claro, totalmente insatisfeitas com as repetidas manifestações de indisciplina e quebra de hierarquia patrocinadas pelos clubes de sargentos e de praças, com o apoio dos generais do povo (??!!!) esperavam para ver até onde esse estado de coisas iria. E chegou o limite, o famoso comício da Central do Brasil onde os clubes militares de sargentos e praças carregaram Jango nas costas e fizeram discursos ofensivos ao oficialato. No dia 31 de março eu viajava para Brasília de carona em um carro com outros estudantes, funcionários públicos, nenhum policial como eu, quando fomos em Juiz de Fora interceptados pelo exército e informados da revolução, comandada naquela área pelo Gen. Mourão Filho, que ocupava as estradas de Minas cortando a comunicação entre o Rio - ainda com a força de capital federal e a massa da tropa militar - e Brasília, sede real do poder central. Fui orientado a voltar ao Rio e aguardar as ocorrências - e o fiz, voltando para casa. No dia três de abril, vitorioso o movimento (com o apoio da massa da população brasileira e a fuga dos valentes que se diziam legalistas - não sei de que, pois estavam desrespeitando a constituição e as demais leis), voltei para Brasília e apresentei-me na Interpol sem problemas. Madeira

terça-feira, 29 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1963/4)

1963: de novo tranquilo, com nova dinâmica de vida, muito trabalho burocrático (novidade) e tendo que organizar - dentro dos princípios oriundos da central da Interpol - a OIPC, organização internacional de polícia criminal, entidade internacional mantida por contribuições das polícias de todo o mundo (como uma ONU de assuntos e de cooperação no campo da delinqüência internacional) destinada a combater o crime e os criminosos internacionais que mudam de países. Tendo recebido os arquivos da polícia do Rio, que até então, por ser lá a capital do Brasil, representava-nos, totalmente bagunçados e fora de qualquer ordem, tive um trabalho de leão, ao qual me dediquei muitas vezes também aos sábados e domingos. Mas o fiz com a rapidez possível. As idas ao Rio serviam para atualizar-me nos estudos e matar a saudade de meus pais, da namorada (a mesma desde os tempos de Confiança, cerca de seis anos), da turma da José Higino e do Maraca. Era um banho de civilização, perto de Brasília. Nesta, tinha aos domingos uma colher de chá familiar: Egydio me levava para almoçar na casa dele, sempre. Conheci então aquela que seria minha futura comadre e cunhada, a esposa do Egydio: Ivone. Pessoa calma, muito boa, compreensiva, dona de casa e companheira completa que me aceitou e adotou com o mesmo carinho e dedicação do Egydio. Assim, os três tornamo-nos companheiros inseparáveis nos finais de semana, quando passamos a freqüentar um clube excelente às margens do Lago Sul, o Minas-Brasília Tênis Clube, pelo qual eu e Egydio passamos a jogar nos sábados à tarde. Acabamos por ficar juntos direto, da manhã de sábado, quando almoçávamos no clube e jogávamos ao domingo de manhã, na piscina e almoçando lá. Isto tudo amenizava meus dias em Brasília, que continuava sendo lugar de passagem para políticos - que, como até hoje, chegavam na terça-feira e voltavam para seus estados nas sextas. Brasília tinha como diversão única dois cinemas e os clubes, normalmente de funcionários, que dentro da idéia imbecil dos comunistas (idéia para melhor controle das pessoas) trabalhavam juntos na mesma repartição a semana toda, moravam juntos na mesma quadra, iam para o trabalho juntos no ônibus da repartição e no fim de semana para o mesmo clube - clube dos funcionários do mesmo local de trabalho! Brilhante, bem igualitário e nada tedioso, não? Com isso era um tal de homem com mulher de outro e mulher de um com o homem de outra... Madeira

segunda-feira, 28 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1963/3)

1963: afastado do comando e da tropa que havia ajudado a criar, do recrutamento e seleção dos homens ao seu treinamento, da tradução e adaptação de manuais à escolha de armamento, tudo, fui mandado para a parte civil do DFSP, uma prova fortíssima de proteção divina, com o melhor caminho a seguir nesta encarnação. Por quê? Porque o normal seria ficar recolhido ao quartel, em serviços internos (oficial-de-dia, expediente administrativo) e não continuar trabalhando normalmente. E o pior, respondendo a um IPM (inquérito policial-militar) para apurar a nossa ação policial. Fiquei tranquilo, pois já sabia que o ferimento causado na vítima não era de calibre 38, o que usávamos. Era dos vagabundos agitadores, que na confusão e na escuridão feriram um participante seu colega. Bem, a proteção divina veio forte mesmo, pois fui deslocado da superintendência de polícia metropolitana - órgão a que estava ligada a GEB, dentro do DFSP (órgão do ministério da justiça que controlava todas as áreas de policiamento do DF) - para a superintendência de polícia federal, que seria depois o embrião do departamento de polícia federal, que reunia à época os serviços que a União, por força do direito internacional público, tinha de gerenciar (estrangeiros, passaporte, Interpol, outros). E então fui lotado, como tenente, na Interpol... Era ou não destino? De culpado por violências policiais à sub-chefe do BCN (bureau central nacional)/Interpol no Brasil. O chefe era um delegado de polícia da metropolitana, o dr. Edson Lasmar, um mineiro tranquilo, sábio e educadíssimo que me acolheu muito bem, ensinou-me os primeiros passos e designou-me para sub-chefe do BCN e chefe da seção de estudos de lá, parte responsável pelas análises criminológicas, relações internacionais na área policial, ligações com as polícias estaduais e tarefas outras. A outra seção era a de investigações. Enquanto isso, volta e meia eu era chamado para depor no ministério do exército (no IPM) e sempre assumia a responsabilidade pela ação de desembarcar a tropa e dissolver a baderna, e negava, por não ser verdade, a responsabilidade minha de ter dado qualquer ordem de atirar e de ter sido um dos nossos que o tivesse feito. Tinha acertado com o dr. Edson Lasmar que pelo menos uma vez por mês eu teria de ir ao Rio, afinal já estava acabando o penúltimo ano de direito - e fui autorizado a ir. Egydio já casado, morando na Asa Norte e eu todo domingo pegando um rango na casa dele, e às vezes depois, pela manhã, jogando futebol de campo em algum time de várzea que ele arrumava. Durante a semana, às noites, batia minhas peladas de salão com o pessoal do quartel. Com a mudança de Egydio do nosso quarto e minha saída forçada da S.E., tratei logo de arrumar outro lugar para residir. Já paisano (andando sem farda), descobri postos policiais existentes em todas as superquadras, postos construídos para a prestação de serviços públicos aos moradores da quadra (sediariam serviços para tirar carteira de identidade, de trabalho...), que não vingaram e estavam servindo de moradia para servidores públicos solteiros. Catei um que tivesse um compartimento vazio (eram quatro saletas, com banheiro privativo) e encontrei na Asa Sul, na superquadra 411, ótima localização, principalmente para mim, que morava na Velhacap e estava trabalhando no edifício do então BNDE. Mudei-me logo com meu pequeno enxoval (cama, colchão e armário) - e ficou bom. Um pouco antes tinha comprado meu primeiro carro, um renault dauphine verde claro, ano 1960, de 31 hp, um rabinho quente muito econômico, e assim tudo estava tranquilo (apesar do IPM). Logo dominei o funcionamento da Interpol e comecei a apresentar resultados, reorganizando os arquivos, descobrindo formas de dinamizar o andamento dos serviços, traduzindo do francês e inglês; enfim, dando certo. Brasília e o Brasil cada vez mais caóticos, sem governo, com os movimentos sociais mandando e desmandando e os brasileiros, salvo os cúmplices da bagunça, aqueles que se beneficiavam dela, insatisfeitos com os desmandos dos governantes. Então, em uma ida ao Rio, falei com meu pai que estava a fim de me mudar para Portugal, onde existia ordem - pois esse negócio de ditadura afeta apenas quem é vagabundo e baderneiro -, e quase (depois de muitos anos) levei mais uma surra. Meu pai me disse, curta e grossamente: Aqui nascestes e aqui é teu lugar. Trates de ser correto, estudar e lutar para que teu país melhore sempre. Eu saí do meu para não passar necessidade, mas este não é o teu caso. Nunca mais pensei em sair da minha pátria - por nada. Madeira

domingo, 27 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1963/2)



1963: no dia sete de setembro deste ano teve início um novo ciclo de vida, face a um grande conflito ocorrido na rodoviária de Brasília. Neste dia, no Rio de Janeiro, o Egydio casava e eu estava no comando da S.E. Brasília vivia então, assim como o Brasil de hoje, uma época de badernas, de falta de respeito total, de uma indisciplina generalizada apoiada claramente pelo governo federal, governo este conduzido por um presidente fraco, dominado pelos sindicalistas - na realidade, grupos de comunistas que desejavam (como hoje) apropriar-se da máquina governamental para o seu próprio proveito. Era um bando de analfabetos, ávidos por abocanharem funções de mando (sem competência para tanto), sob a capa de nacionalismo, de o proletariado dominar o pais para redistribuir a renda, esquecendo-se (como agora) que sem o capital não há o trabalho e que a centralização administrativa é um erro crasso, principalmente estatizada, pois não é função do Estado empregar (como está sendo agora); isto gera mais tributos pela necessidade de arrecadar mais e mais, e ainda inflação e fuga de dinheiro. A prova disso veio logo depois, com o fim do comunismo no mundo, mas esses imbecis (José Dirceu e camarilha) querem as mordomias que os ditadores e seus acólitos têm, protegendo os puxa-sacos e enriquecendo a si mesmos, sempre com discursos populistas, demagógicos. O pobre que só quer melhorar de vida e não consegue entender muitas coisas fica seduzido por essa fala populista, pelos discursos demagógicos; fazem uso de um raciocínio simplista: sou eu que estou na presidência, pois é um operário como eu que lá está: alguém que bebe cachaça, fala errado, é amigo e simples. Eles não conseguem ver as mentiras e golpes perpetrados diuturnamente pelos socialistas, pretensos defensores do povo que estão no poder, a cada dia mais ricos e empanturrados por suas benesses, pagas pelos tributos recolhidos dos próprios pobres em cada quilo de feijão/arroz comprado. Assim estava Brasília - e o Brasil todo - na época. Bem, no dia em questão havia um grande movimento popular previsto para o anoitecer na rodoviária, contra o aumento das passagens de ônibus, e todo o nosso efetivo (sob o meu comando) foi deslocado para lá. O desfile militar, pela manhã, já tinha sido prenúncio de confusão, com os cartazes pregando rebelião popular, tomada do poder pela força (pelo proletariado), vaias às Forças Armadas e outras manifestações. Com a tropa embarcada na rodoviária, nos três choques, fui procurado por um negão líder sindicalista com uma carta da Casa Civil assinada pelo Darcy Ribeiro - homem inteligentíssimo, depois cabeça da atual LDB, mas fraco, medroso e comuna -, determinando que a força policial ficasse à sua disposição (sob o seu comando, o comando do companheiro Manuelão - era grande mesmo). Obviamente mandei ele se foder e informei que quem comandava era eu, e que se houvesse baderna e quebra-quebra nós iríamos agir - e que se ele era tão líder assim que segurasse os manifestantes. Se só houvesse discurso (já estava lá um caminhão de som cheio de lideranças discursando) e deixassem parte das ruas com trânsito tudo ficaria bem, ou então iríamos atuar. Na época, no entorno da rodoviária, não havia iluminação, era tudo mato e barro na direção da Torre de Televisão. Às tantas horas, já escuro, chegaram os estudantes da UNB (universidade nacional - pública - de Brasília) e começou um quebra-quebra indiscriminado dos ônibus que estavam estacionados na rodoviária. De imediato ordenei o desembarque e uma varredura na rodoviária, no sentido da Esplanada, para o lado oposto ao da torre, ou seja, tirando-os da direção dos ministérios. Ocorreu um confronto, pedradas e tiros contra nós e a gente na porrada e no gás lacrimogêneo, pois não havia qualquer treinamento ou ordem para atirar. Eram usados os cassetetes e gás e as formações de evacuação - no caso, usei a em linha. Nós (uns cem) contra uma multidão, mas treinados e com coragem. Resultado: soldados feridos por pedras, muitos manifestantes por cassetete e um ferido a tiro, que obviamente não havia sido dado por nós. Mas a manifestação acabou - e no dia seguinte eu fui afastado do comando. Madeira

sábado, 26 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1963/1)



1963: até setembro continuou a mesma a minha vidinha de Gebiano (integrante da GEB). Muito trabalho, idas de estudo ao Rio, muito futebol - mais de salão, pois este, apesar de ser a maioria em quadra de asfalto (a do quartel, que comia um tênis por semana e ralava quando se caía) ainda era melhor que o barro vermelho dos campos de futebol. No quartel, nos dois dias de expediente administrativo, eu gastava a manhã toda em educação física com a turma que estava retornando da folga, e fechava com peladas de salão de duas horas de duração. À noite, muitas vezes arrumávamos jogos (em diversas quadras) pro nosso do time de salão, o dos oficiais (muito bom, formado por mim, Egydio, Rezende - mineiro bom de bola - e Barbalho - carioca de São Cristóvão, atacante rápido e goleador -, completando o time com um sargento da cavalaria, o Moslaves, muito bom), e levávamos uns dois outros reservas quaisquer, pois ninguém queria dar lugar e éramos os melhores, dificilmente perdíamos e fizemos nome em Brasília. Das passagens mais marcantes, sempre com o Egydio, duas foram inesquecíveis, assim como a nossa amizade. Uma quando eu, no quartel de serviço em um sábado, recebi um telefonema avisando que na rodoviária de Brasília havia um oficial da GEB enfrentando uma patrulha do exército. Desloquei-me rápido e lá chegando encontrei Egydio, à paisana (sem farda), encostado em uma das grandes pilastras, cercado de soldados do exército que portavam fuzis com as baionetas colocadas. Os soldados investiam contra ele para tentar imobilizá-lo; ele recuava e quando chegavam perto se abaixava, tentando dar rasteiras e rabos-de-arraia - e então os soldados recuavam. Cheguei fardado, identifiquei-me ao sargento-comandante dos soldados e consegui apaziguar os ânimos quando o apresentei como oficial, sanando o problema com a patrulha, problema gerado por olhares mútuos e desafiadores entre Egydio e os soldados, certamente fruto dos fechamentos da zona. A outra, na qual fiquei de babá do Egydio, ocorreu quando houve uma tragédia com um ônibus interestadual que fazia a linha Brasília x Rio; ele caiu da ponte do Rio Prata, na divisa Brasília/Minas, matando quase todos os passageiros (incluindo os três filhos, todos homens, do nosso comandante, o Ten. João - a esposa se salvou e, por marco divino, ainda tiveram uma filha). O Egydio foi de viatura ajudar nas buscas e a Ford F-100 em que ele estava (chovia muito naquela noite) capotou. Ele, pois, ficou preso nas ferragens, com o tórax comprimido. Pelo rádio me informaram e lá fui eu buscá-lo; chegando, eu o encontrei todo arranhado, com dificuldade de respiração, cheio de dores nas costas. Tratei de colocá-lo na ambulância e trazê-lo para o hospital distrital, limpando os sangramentos e animando-o. Ainda bem que nada de mortal ocorreu (ele ficou com problemas de coluna o resto da vida, mas tudo bem então). Depois de alguns poucos dias de hospital, nos quais eu levava comida e dormia com ele, recebeu a alta e foi para o nosso quarto, onde eu dava sopa em sua boca, fato aliás repetido outra vez, quando ele teve uma hepatite (benigna) e devia ficar em repouso, deitado, só podendo comer coisas doces - e então eu comprava umas latas grandes de doce de quatro cores (vermelho, amarelo, marrom e verde - goiabada, marmelada, bananada e figada), cortava e dava novamente em sua boca. Foi um companheiro inesquecível e fraterno. Além de fechar a zona toda noite, esvaziávamos locais ocupados por grevistas, impedíamos invasões (planejadas ou não), combatíamos rebeliões no presídio ao lado do quartel (único presídio de Brasília), policiávamos jogos de futebol decisivos e de alto risco, baile oficial de aniversário da cidade, parada de sete de setembro, eleição de miss Brasil, vinda de altos dignatários de outros países... Ou seja, tudo que não fosse policiamento normal, do dia-a-dia, que representasse perigo maior ou que necessitasse de uma tropa coesa, unida e treinada diariamente, era com a S.E. O restante da GEB fazia o Cosme e Damião (policiamento a pé, em duplas), a rádio-patrulha e tinha a cavalaria para a zona rural. Toda rebordosa era com a tropa de elite - e nós resolvíamos. Havia uma flama, um orgulho muito grande pelo fato de sermos reconhecidos, eficientes, eficazes, vencedores. Madeira

sexta-feira, 25 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1962/2)



1962: este ano na S.E. da GEB foi, além de um ano de muito trabalho (quando em Brasília era dia e noite, para compensar as idas de estudo ao Rio), aquele em que ganhei um dos dois novos irmãos, não de sangue, mas de amizade canina que a vida reservara pra mim: Egydio de Souza Fernandes (do outro falarei mais à frente, o Oswaldo Mattos). Ao ser criada a S.E. fomos escolhidos como implantadores eu e um tenente magrinho, falador, um carioca da gema que tinha chegado uns dias antes de mim e estava lotado na cia de policiamento, o ten. Fernandes. Alegre, desenrolado, amigo dedicado, corajoso, elétrico, jogador de futebol de mão cheia -tanto salão (tinha jogado no Rio no Grajaú Tênis Clube, e eu me lembrava vagamente dele no primeiro time do Grajaú quando eu era do juvenil da Atlética Carioca e fomos jogar contra, fazendo a preliminar) quanto campo (tinha jogado no juvenil do América, time de coração dele e próximo donde morava, e mesmo sendo destro jogava de lateral-esquerdo) -, era mais velho e antigo como oficial do que eu, cerca de quatro anos, sendo também infante pelo CPOR/RJ. Fernandes no serviço, Egydio fora, foi o companheiro de todos os momentos neste ano e depois por cerca de quarenta e cinco anos. Logo que começamos a trabalhar juntos nos afeiçoamos e decidimos - até por ser nossa companhia também a responsável pelo policiamento dos outros policiais, fazendo o serviço de prendê-los quando em ações irregulares - morar fora do quartel (numa residência particular), e ele arranjou um quarto bem encostado, ao lado, que era para os funcionários mais graduados do SAPS, uma autarquia responsável pela manutenção e funcionamento de restaurantes e mercados populares na nova capital. Era um alojamento de madeira, como todas as construções da Velhacap, com um corredor comprido e, virado para este, os quartos pequenos, apertados, com duas camas, uma após a outra em coluna e armário em frente a cada uma, e uma janela ao fundo que dava para o nada, ou seja, para a imensidão reta, plana, com pequenas árvores, muito mato e a terra vermelha de Brasília. Eram cerca de vinte quartos e no meio havia os banheiros (essas construções eram feitas para moradores masculinos ou femininos, nada misto), de um lado os vasos sanitários e as pias e do outro os chuveiros. Ia-se de cueca até esses locais e fazia-se tudo coletivamente, como em um vestiário de futebol, militar ou de clube. Foram dois anos dessa moradia em dupla até o Egydio casar, e muito tranquilos. Egydio era o companheiro pronto a brigar do teu lado, a entender as dificuldades de relacionamento, e tínhamos gostos parecidos. No futebol sempre jogávamos no mesmo time, sendo que no salão ficamos famosos em Brasília como a zaga dos tenentes, ganhando todos os torneios que disputávamos. No campo também juntos, cinema ídem e até os lupanares frequentávamos juntos, até porque ele não dirigia e eu era então o motorista da nossa viatura. Almoçávamos juntos nos dias úteis, com muita poeira em um restaurante em frente ao alojamento, sempre feijão, arroz, bife e ovo, com uma salada de tomate, alface e cebola, de uma senhora apelidada, não sei a razão, de Tequila. Nos finais de semana havia os macetes - e Egydio era o rei dos macetes. Ele tinha amigas na Telefônica (telefonava de graça para a noiva), chamada à época de DTUI (departamento telefônico urbano e interurbano de Brasília); no zoológico (volta e meia íamos lá); em supermercado (as nossas compras eram sempre mais robustas ou mais baratas) e até em hospitais. Isso tudo facilitava nossa vida, barateando-a, principalmente a dele, e nos fins de semana almoçávamos na casa de alguma dessas amigas. Egydio dava nó em pingo d´água. As separações aconteciam apenas nas suas idas ao Rio, onde ele ia para ajustar o casamento (estava noivo e eu não conhecia a noiva). Com esse viver junto, agarrado até nas brigas contra outros, viramos irmãos - com respeito, entendimento e apoio mútuos. Valeu Velho. Madeira

quinta-feira, 24 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1962/1)



1962: vida que seguia tranquila, com as idas ao Rio e o estudo na faculdade, namoro no mesmo Rio nessas idas e muito trabalho na quinzena em Brasília. A primeira grande e perigosa missão dos S.E.´s foi a de toda noite fechar a zona do baixo meretrício, que funcionava dia e noite na Cidade Livre - nome não oficial, por ter sido no início da construção o lugar onde se instalaram os aventureiros que chegavam invadindo terras e construindo barracos, e que logicamente foi onde se instalaram também as prostitutas, os cafetões, os desempregados e os malandros em geral. O nome oficial era e até hoje é Núcleo Bandeirante. Os servidores que vinham nos núcleos precursores ficavam em construções de madeira coletivas na Velhacap, onde também ficavam o quartel da GEB e o presídio anexo. A decisão da chefia de polícia de a tropa de choque, a uma hora da manhã de todo dia fazer cessar as atividades de prostituição (à época eram cerca de quatro mil mulheres lá trabalhando em barracos de madeira, que na frente eram bares com música tocada em radiolas naqueles lp´s de vinil, aos berros, vendendo bebida livremente, e atrás um longo corredor e quartos dos dois lados) foi resultado do nível altíssimo de homicídios, de gente armada e também de brigas entre os soldados fardados das três forças e os nossos. Redigiram uma circular na Casa Militar da presidência, informando e disciplinando nossa atuação para os três ministérios militares, e lá fomos nós. As primeiras operações foram terríveis. Depois de elaborarmos o plano de ação da operação, tendo de dia feito o mapeamento do lugar (mais de setecentas casas), resolvemos que o melhor seria chegar por trás, por um lixão a céu aberto, local em que terminavam as casas e mais alto face ao buraco para jogar o lixo, e a partir de lá fazer uma varredura na qual parte da tropa, em duplas, ia de casa em casa, rua por rua determinando o desligamento do som e o fechamento das contas, e avisando que no retorno, se preciso, fecharíamos tudo na marra. O resto da tropa, com o sargento à frente, vinha checando se as ordens eram obedecidas, e aí quem ainda não estava se movimentando para pagar e ir embora era revistado e expulso com delicadeza (na porrada) da zona. Saíamos sempre de lá por volta das quatro, cinco horas da manhã. É óbvio que a criminalidade diminuiu e a S.E. marcou positivamente o nome da GEB. No início houve reação de militares, e então por rádio nos comunicávamos com o oficial-de-dia da Arma do praça e este, ao observar tal providência, preferia ir embora; em caso negativo era enviada uma tropa da Arma dele para levá-lo detido ao quartel. Também ocorreu de sermos atacados a tiros ao desembarcar do choque, numa tentativa de amedrontar-nos; era terrível, pois onde desembarcávamos era escuro e só se ouvia o estampido, via-se a chama do projétil e escutávamos o barulho da bala furando a lataria do caminhão-choque. Não respondíamos aos tiros nem perseguíamos os autores: simplesmente buscávamos abrigo e depois de um tempo fazíamos o serviço, nessas noites com muito mais rigor e raiva, procurando desde o início armas através de revistas pessoais. Era encagaçante de início, depois nos acostumamos e terminamos com isso pela ação firme. Tivemos gente ferida, poucos, mas nunca por bala, geralmente por faca ou pancada ao dominar algum recalcitrante; este ficava, é claro, em pior estado que o nosso companheiro ferido - numa ação de legítima defesa. Nesse tempo a polícia tinha um melhor conceito, pois não existia corrupção (nunca soube ou vi), agindo com firmeza somente com os vagabundos, os criminosos, os que se negavam a seguir as ordens legais. Madeira

quarta-feira, 23 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1961/5)



1961: com a instalação definitiva em Brasília e o fato, à época, de a cidade ainda estar visceralmente ligada ao Rio, não ficando ninguém (literalmente) por lá nos finais de semana e feriados (nem carnaval ela tinha, nem clubes, e apenas dois cinemas), e recebendo dois salários por mês - pagos aos funcionários que lá moravam, a famosa dobradinha -, foi fácil engrenar com os colegas, com a anuência do comando, a ida ao Rio a cada quinze dias através do macete de dobrar o serviço; ou seja, em vez de tirar o expediente direto você ia para a sua terra de origem e outro fazia o seu serviço em revezamento: com isso, o efetivo estava sempre completo, uns trabalhando e outros viajando. Portanto, não precisei transferir meu curso de direito para Brasília, já que trabalhava quinze dias e passava os outros no Rio cursando a Cândido Mendes, fazendo as provas e participando das aulas. A presença era um galho quebrado junto ao próprio professor ou através de um colega, quando das listas de chamada. Foi fácil porque eu me dedicava e estudava mesmo, cobrindo as dificuldades dos dias ausentes. Acabada a montagem da cia de serviços especiais, a S.R., com todo o treinamento teórico em sala de aula e o prático (formações de combate em coluna, usada hoje pelo BOPE/PM/RJ, em linha e em cunha, muito treinamento físico de resistência, de defesa pessoal - principalmente imobilizações), entramos em ação. Fiquei no sub-comando com o Egydio no comando, pois o tenente João foi para o comando da Geb com a saída do major Ribas, que voltou para o exército; piruei também tirar escala, abrindo mão da minha folga de quarenta e oito horas, o que me interessava, pois além de Brasília não ter nada para fazer (aos sábados, domingos e feriados era de uma tristeza imensa, pois não havia ninguém nas ruas, e só restavam as grandes e terríves peladas em campos de barro ou em quadras de asfalto, com as redes sendo de arame) era a forma de ganhar meus quinze dias no Rio e estudar. A cia era composta de comandante, pessoal burocrático e três pelotões de vinte soldados cada um, mais o tenente-comandante (vieram mais dois tenentes para se juntar a mim e ao Egydio, o Estevam Iemini de Rezende - mineirão - e o Orlando Kalil, paranaense), um sargento-adjunto (capixaba, parente dos Zouain, do supermercado Santo Antônio de Guarapari), dois cabos, um motorista (comigo trouxe o do trânsito, o Barbosa) e os soldados-combatentes, que embarcados no caminhão-choque aberto iam distribuídos em dez homens de cada lado, mais o cabo que comandava o grupo; na cabine com o motorista iam o sargento e o tenente, este na porta dando as ordens para o desembarque e a formação a ser adotada. O fato é que a tropa, fora uma situação de calma, de observação, quando permanecia embarcada, se descesse do choque era pra cair de pau, ou seja, dissolver o que estivesse pela frente - e nós dissolvíamos mesmo. Nas vinte e quatro horas de serviço permanecia-se fardado e equipado todo o tempo, de botina, capacete ao lado, cinto de guarnição com o armamento e a munição reserva, dormindo-se assim, pronto para embarcar no choque em um minuto - um minuto mesmo, do toque da sirene de alarme até a saída do caminhão, que deixava para trás quem não estivesse embarcado no minuto treinado. Tínhamos itinerários prontos e marcados, com alternativas de trânsito para chegar ao local do conflito no tempo mínimo e agir. A GEB era respeitada e a S.E. (serviços especiais), temida. Os soldados usavam revólver trinta e oito e cassetete de madeira, utilizado para imobilizações e ataques; os cabos usavam o mesmo revólver e um lança-granada de gás que hoje não vejo mais; o sargento ainda o revólver .38 e uma metralhadora INA.45; e o tenente apenas o trinta e oito. Nas quarenta e oito horas de folga, a primeira era de folga mesmo e a outra era de expediente administrativo para treinamentos práticos (tiro, defesa pessoal, halteres, corda - para dominar o rapel e penetrações de ataque -, formações, educação física, peladas intermináveis) e limpeza do material (botinas, cintos, cantis, tudo brilhando para o dia seguinte de serviço). Vida para mim gostosa, cheia de ação, movimento, brilho. Madeira

terça-feira, 22 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1961/4)



1961: no quartel da GEB, na cidade-satélite denominada Velhacap - assim chamada por ser o ponto de instalação dos primeiros candangos (nome dado àqueles que chegaram à futura capital no início de sua construção, fossem operários de construção civil, fossem funcionários públicos transferidos) -, toda de prédios de madeira, uma verdadeira barracolândia sem calçamento, com água e luz mas assolada, quando da época da seca, por redemoinhos de terra vermelha - que, ao pegar alguém, forçava o coitado a de imediato tomar um banho e mudar de roupa, dada a quantidade de poeira com que ficava coberto -, apresentei-me e fui encaminhado ao rancho para almoço, com a ordem de depois dirigir-me ao comandante. Essas fortes nuvens de poeira vermelha, que feriam os olhos e as partes do corpo descobertas, eram chamadas de lacerdinhas em homenagem ao governador do já estado da Guanabara, o Carlos Lacerda, crítico contumaz e cri-cri da construção de Brasília. Na época era presidente do Brasil o Jânio Quadros - no qual votei, e foi o meu primeiro e péssimo voto, pois o cara era um doido de pedra -, e Brasília tinha todos os cargos em comissão ocupados por paulistas, inclusive sendo o comandante da GEB um coronel da força pública de SP (nome da PM/SP de então). O diretor da academia nacional de polícia (um major) e o chefe de polícia, bem como outros em cargos do ministério da justiça - todos paulistas. Bem, apresentei-me após o almoço. Foi determinado que eu me alojasse no quartel e logo fosse à ANP para a apresentação da documentação, mais os exames médicos, físicos e intelectuais, o que fiz no mesmo dia e no dia seguinte, passando em todos com sobras. Parecia, pela pressa, haver algo no ar - e havia. Dois dias depois, dia 23 de agosto, foi publicada no boletim a minha admissão na GEB, e recebi o fardamento completo, todo cáqui (era todo de sobra do uniforme original da FAB, que dois anos antes trocara o cáqui pelo azul atual), roupa de cama e banho. Na tarde desse dia entramos de prontidão, pois o maluco do Jânio tinha renunciado e os rumores de conflagração corriam soltos. Até hoje brinco, pelo inesperado da situação, que o Jânio renunciou ao saber que eu tinha sido admitido na GEB. Depois de alguns dias de prontidão, sem sair do quartel e pronto para o combate, foi acertada a volta de João Goulart, vice-presidente que estava fora do Brasil, e sua assunção ao poder presidencial no sistema parlamentarista, solução bem brasileira (tiraram o sofá da sala, o resto continuou igual; aliás, pior). Fui então designado para assumir o sub-comando da companhia de trânsito como segundo-tenente (o comandante era o primeiro-tenente Nelson Marabuto, CPOR/RJ de Cavalaria que tinha de entrar de férias e estava sozinho na companhia). Fui para lá e apropriei-me dos conhecimentos do código nacional de trânsito e das peculiariedades administrativas em um fim de semana, e nos dias seguintes cuidei da parte prática com o apoio de dois primos cariocas, soldados, um escolhido, o Altamir Balbino, por ser o melhor soldado de trânsito sob todos os ângulos, e o outro o Vaucrence Barbosa, que era o motorista do comandante. A ambos devo muito ou tudo que aprendi e foi possível realizar na cia. Bem, com a posse do Jango foram embora todos os paulistas e vieram todos os gaúchos que cabiam no governo federal e em Brasília, assumindo a chefia do DFSP, o departamento federal de segurança pública - órgão do ministério da justiça responsável pelas polícias - um coronel do exército amigo do Goulart, o Carlos Molinari Cairoli, e o comando da GEB um major do exército, o Ribas. Em novembro, com menos de três meses no trânsito, a chefia do DFSP - a pedido do major Ribas - decidiu criar uma tropa de elite, uma companhia de choque, e para comandar a mesma foi indicado um ex-integrante da polícia especial do Rio (os boinas vermelhas, tropa de choque do presidente e ditador Getúlio Vargas), o mais antigo dos oficiais da GEB - veio bem no início das obras -, o João Gonçalves Netto, que me escolheu, junto com outro oficial (este do policiamento), o Egydio de Souza Fernandes (que teve depois uma participação muito especial e importantíssima em minha vida) para montá-la no papel, escolher e treinar os seus integrantes. E lá fui eu estudar táticas, formações e ações específicas de controle de tumultos, de enfrentamento legal e outras de alto risco e de especialização notória. Madeira

segunda-feira, 21 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1961/3)


Inauguração de Brasília.


1961: o segundo semestre veio inaugurando um novo ciclo, totalmente diferente do que eu havia vivido até então, pois a partir de agosto comecei a trabalhar, a ter uma profissão, um emprego. Bem, em 31 de julho me formei oficial da reserva do exército brasileiro, da arma de infantaria, recebendo a carta-patente de oficial e o posto de aspirante em cerimônia de recebimento da espada, símbolo do oficialato, no estádio do Vasco da Gama, onde eu já tinha jogado. Como terceiro colocado do curso entre os mais de duzentos e cinqüenta infantes, tive de recebê-la das mãos de um integrante do alto comando do exército, um general de quatro estrelas, na tribuna de honra do estádio, com todos os formandos perfilados. Imaginem o orgulho de meus pais, que ainda que tivessem perdido a oportunidade de me dar a espada (hoje com o Caio e com a homenagem pela colocação gravada no punho) acompanhavam tudo de perto, em lugar reservado aos pais dos homenageados. Lá estava eu com o uniforme de gala (o branco e cinza), vibrando. Formado, ao ir ao CPOR nos primeiros dias de agosto para retirar meus últimos pertences do armário (tênis, calção, camisetas e apostilas), fui informado de que eles tinham recebido uma correspondência do ministério da justiça. Este solicitava a difusão entre os novos aspirantes do recrutamento de oficiais da reserva para a composição do quadro da PM do distrito federal, então em fase de reestruturação ao sair da Novacap (empresa vinculada à prefeitura do DF, responsável pela construção de Brasília) e passar à jurisdição do MJ. Interessei-me de imediato, pois apesar da cobertura total de meu pai e de suas dicas de que após formado eu arranjaria um bom emprego na prefeitura ou no governo estadual, eu não queria esperar mais quatro anos de estudos vivendo novamente de mesada (não tinha mais o salário de aluno), e ansiava pela independência absoluta, queria ser dono de meu nariz; afinal, eu já me virava muito bem em tudo. Assim, após algumas elucubrações, conversas com meus pais, tomei a decisão de ir para a Brasília recentemente inaugurada fazer o concurso para oficial da guarda especial, então o nome da PM/DF. Com a carta-patente e demais documentos na bagagem (uma bolsa do CPOR contendo uma muda de roupa civil e objetos pessoais), fardado de aspirante, fui ao aeroporto do Galeão (que não era o atual, era o que hoje é a base aérea da Ilha do Governador - o aeroporto do Rio, o civil, era o Santos Dumont, de onde partiam todos os vôos, sendo o Galeão apenas militar) e, depois de me identificar, consegui no CAN (correio aéreo nacional da FAB que levava passageiros e correspondência oficial - e mesmo dos Correios - para as regiões inóspitas deste país) uma passagem de ida para Brasília para o dia 21 de agosto, dia do aniversário de meu pai, às sete horas da manhã, com a apresentação no aeroporto às cinco horas. Como nunca tivemos frescuras com datas, desde que uma causa maior houvesse, ele entendeu bem e colocou-se à disposição, mas eu tinha o último salário de aluno e de nada precisava, a não ser a coragem de enfrentar o desconhecido. No dia 21 embarquei num DC-3 da FAB. Este avião não tinha pressurização, viajava baixinho e você via tudo no chão com clareza; para respirar e circular o ar havia buraquinhos nas pequenas janelas redondas (lembravam escotilhas de navio, destampadas e pendentes em arames quando estava muito quente). Sentava-se de lado em um banco de metal (eram aviões militares, portanto sem conforto), e quando pousados ficavam inclinados para trás sobre a única roda, a de trás. Nas situações de calor eram muito quentes, e nas de frio muito frios. O vôo durava mais de cinco horas, pois tinha de haver um pouso em Belo Horizonte, na Pampulha para reabastecimento, coisa de uma hora, quando todos desciam. Demorava mais ou menos uma hora e quarenta do Rio até BH, mais uma hora no solo em BH e quase três horas de BH à Brasília. Cheguei e deslumbrei-me com a cidade vista do alto, pois o seu desenho era diferente de qualquer outro, e também fiquei fascinado pelas grandes áreas sem nada construído, um nada de terra avermelhada, seca. No aeroporto militar, fardado, logo consegui uma carona numa kombi da FAB que ia para o centro, e me deixaram no quartel da GEB pela hora do almoço. Novo ciclo, nova vida. Madeira

domingo, 20 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1961/2)

1961: neste fim de ciclo cursei o segundo ano do CPOR, também já veterano e dominando os macetes da vida militar, pois gostava muito dos princípios vigentes de hierarquia, disciplina, camaradagem, honra, responsabilidade e coragem - tudo feito com uma alegria e uma dedicação muito grandes. O segundo ano era de estudo e prática de comportamentos de comandante, ao contrário do primeiro - ano de subordinado, de serviços de quartel (sentinela, faxina de alojamento, de banheiro, outras) -; as ações eram de chefia, de comando (auxiliar de oficial-de-dia e, nas marchas e acampamentos, de comando). Enquanto antes carregava fuzil e equipamentos de combate completos, parecendo um caracol de tantas coisas às costas, agora levava apenas o cantil e uma pistola quarenta e cinco na cintura. Ficou tudo, depois do que eu havia passado, uma delícia. Imagine que no último acampamento eu era o combatente que, no pelotão, carregava a placa-base do morteiro sessenta (peça onde se firmava o morteiro, arma de lançamento de granadas por sobre a tropa amiga e de curva ascendente/descendente), e a desgraçada, além de incômoda de carregar, pesava paca - e eu agora jovem, forte, atleta, cheio de gás com vinte anos e sem nada nas mãos nem nas costas. Para melhorar, com a minha facilidade de aprendizagem fiz no primeiro ano, no somatório das notas das vc´s (verficações de aprendizagem: provas, no exército) e dos conceitos (opiniões justificadas que são emitidas pelos superiores, colegas e subordinados) o terceiro lugar do curso. Com isso, dentro do posto máximo que um oficial da reserva pode alcançar, que é o de capitão, fiquei com este, que era para ser exercido pelos três primeiros colocados. Cada ano do CPOR, no curso de infantaria, possuía cerca de quinhentos alunos. Um total de mil das mais variadas matizes, todos cursando alguma faculdade. É óbvio que se espalhavam pelos cursos, pela afinidade e pelas áreas de nível superior que estavam fazendo. Assim aprendi, tanto na teoria (disciplinas como situações de combate, chefia e liderança, operações contra guerrilha, inteligência, outras) quanto na prática (comandando no quartel, nas marchas e no acampamento), a me comportar frente às situações, às dificuldades próprias de cada uma e principalmente a cuidar dos comandados. No exército é princípio fundamental de comando acompanhar, orientar e auxiliar os subordinados, e isso entranhou-se de tal forma em meu interior, já de fundo humanístico, que fez com que eu sempre me realizasse nos comandos exercidos pela possibilidade de orientar, ensinar os que estavam sob as minhas ordens. Punições devem ser aplicadas, mas o chefe tem de ter a certeza de que os erros não são de sua responsabilidade (pela falha de observação quanto à capacidade de entendimento de quem recebe a ordem, pela não clareza da mesma, pelo não acompanhamento por ele da missão...). Muitas e muitas vezes a vaidade e o orgulho não permitem aos chefes perceber os próprios erros, na covardia atribuindo-os aos outros e salvando sua pele. Isso eu nunca fiz, pois fui educado para sempre assumir os meus atos; afinal, errar é do jogo e um modo de aprendizagem, e sempre arquei com as conseqüências do que eu praticava. Ou seja, nunca tirei o cu da reta. Madeira

sábado, 19 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1961/1)

1961: este ano foi dividido claramente em dois, de acordo com a cronologia semestral. No primeiro, já veterano na faculdade e com a base do estudo jurídico adquirida no ano de calouro - pois como um iniciante em qualquer atividade tudo era motivo de dúvida e de grande curiosidade -, ficou mais fácil e macetosa a aprendizagem. De fato, no ano anterior as disciplinas introdução ao estudo do direito, sociologia política, teoria geral do Estado, direito romano (hoje muitas faculdades não a ensinam e ela é definitiva para a interpretação do direito pátrio) e economia política me deram um amplo entendimento do que era a ciência do direito, e fizeram com que me apaixonasse por ela em sua teoria. Mais para a frente, ao trabalhá-la no dia-a-dia, verifiquei como na prática o homem, com suas imperfeições, interesses particulares, vaidades, orgulhos e paixões a deturpa e violenta em seus princípios básicos, tornando-a não mais uma ciência social, mas um instrumento pessoal para conseguir realizar os seus mais torpes desejos e suas vontades mais mesquinhas. O que não me desespera é que ainda há um pequeno número de homens de bem também na área jurídica, e que esses deslizes praticados por juízes, legisladores, promotores e advogados corruptos serão julgados em um tribunal maior, na eternidade. Nunca fiz parte desse time nojento em minha vida profissional. Bem, no segundo ano - com a base muito boa e a entrada das disciplinas profissionalizantes - foi tudo mais fácil e gostoso. A faculdade Cândido Mendes, a mais antiga particular do Rio de Janeiro, criada no século dezenove como Escola de Comércio e construída, à epoca, em um local estratégico - em frente ao cais da cidade, na Praça Quinze, local de entrada e saída de mercadorias e de comércio -, e que depois criou o curso de direito, funcionava em um prédio erguido então para esse fim (hoje tombado), com uma grande torre no centro do grande pátio existente. Era impecavelmente limpa, com grandes janelões e piso de tábua corrida sempre muito bem encerado. Vetusta, tradicional, dirigida por um educador e pensador de esquerda (mas não fanático), o dr. Cândido Mendes, da família que a originou, com professores-doutores em direito (não por esses doutorados atuais baseados em teorias e fórmulas nerds, mas pela excelência de estudos, pareceres e livros publicados, tribunos de conteúdo, não de blá blá blá), deu-me um embasamento e uma confiança que me servem até hoje nas leituras e compreensões de fatos cotidianos. Quando mais adiante lecionei direito, passei informações ao profissional da área que já não se transmitem, oriundas de meus estudos de introdução à disciplina, coisas que nem constam mais dos livros, como o que são e quando devem ser usados ítem, inciso e alínea e até quando se usa a numeração cardinal nos artigos - e mesmo quando se redige no futuro ou no presente. Ao não saber isso um advogado - em uma firma ou no serviço público -, ao redigir uma ordem de serviço ou uma portaria (também hoje não sabem diferenciá-las), certamente vai escrever um mau documento jurídico. Madeira

sexta-feira, 18 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1960/2)



1960: na faculdade de direito Cândido Mendes descobri o que era ser acadêmico, estudante de nível superior, ou seja, o maior interessado em aprender, em dominar o conhecimento necessário a um futuro exercício profissional. Docentes competentes, todos catedráticos - donos da cátedra, professores titulares - dotados do mais completo domínio das disciplinas que lecionavam, pois atuavam na área (juízes, promotores, advogados de renome) e/ou possuíam titulações conseguidas no Brasil e/ou no exterior. Quase todos também lecionavam na Nacional de Direito e tinham livros publicados. À época o ensino ainda era anual, o curso de direito em cinco anos divididos em anos letivos, com cinco disciplinas cada e cento e oitenta dias de aula. As provas eram nos primeiros quinze dias de julho; primeiro as provas parciais (somente os conteúdos do primeiro semestre), depois quinze dias de férias e no final do ano mais quinze dias de provas, as finais (todo o conteúdo do ano) - as duas fases de avaliação divididas em provas escritas e orais, sempre com três questões sorteadas pelo inspetor federal (uma dissertação e duas perguntas também dissertativas, no valor total de dez pontos). Atenção!: erro de português tirava ponto... As provas finais funcionavam como já descrevi no vestibular, ou seja, banca de três examinadores, um presidente para a dissertação e os outros dois para as perguntas; cada um dava a sua nota e dali era tirada a média final da oral, que - junto com as notas das primeiras provas (escritas e orais) e da final escrita - dava a nota final da disciplina. Era possível, uma vez, ter-se duas matérias em dependência, fazendo-se no ano seguinte as duas disciplinas, ou uma se fosse o caso, e aí o curso era atrasado um ano. Em seis anos, no máximo, formava-se um bacharel em direito. O exame da ordem dos advogados era feito junto com o quinto ano e acompanhado pelo inspetor federal (estava todo dia na faculdade, supervisionando as aulas e provas e dando visto nos diários de classe) e por um membro da ordem - isto nas provas finais -, sendo este muitas vezes membro honorário da banca de examinadores. Caso se ficase em mais de duas dependências, perdia-se o curso: ocorria a jubilação. Como pode ser visto, não era esta moleza atual que redunda em uma número expressivo de reprovações no exame da ordem, e também em advogados semi-analfabetos a usar um português lulal... Livros e apostilas eram companheiros diuturnos de estudos, e o grande amigo era o vade mecum jurídico, coletânea de todos os códigos em vigor e leis que os modificaram. Nos dias seguintes às aulas eu relia e estudava os conteúdos da véspera, buscando apropriar-me de todo o conhecimento passado pelos professores. Assim, com muito estudo teórico e prático, diário, tinha o lazer subordinado ao calendário e só via a turma da José Higino, já mais madura, nas férias da faculdade (que equivaliam ao CPOR diário), nos finais de semana, então ocasião das peladas e jogos amistosos de araque, e na época das aulas, quando o CPOR era aos sábados e domingos. Namoro ídem - tumultuado. Maraca quando dava, pois nunca fui de matar aula. Mas eu estava satisfeito, pois entendia que estava crescendo no intelecto e na ética. Além desses sacrifícios, tinha o de manter-me com o pequenino soldo (sálario, em termos militares), pois sempre tive vergonha de pedir qualquer dinheiro ao meu pai. Acordava, nos dias de CPOR, às três e meia da madruga, passava minha farda, engraxava os sapatos, preparava minha bolsa militar com os livros, apostilas e uniformes de educação física ou camisetas reservas, ia à padaria pelos fundos pegar um pão quente, fazia o café, tomava e saía para pegar o bonde das quatro e meia, para antes das cinco estar no quartel e mudar de roupa para a formatura às cinco e cinqüenta. Ainda bem que o CPOR só batia com a faculdade da sexta para o sábado. Madeira

quinta-feira, 17 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronológica (1960/1)

1960: novo ciclo - faculdade de direito, CPOR, fim do futebol oficial - ligado à federações - pela total falta de tempo (pois o CPOR funcionava aos domingos durante os meses de aulas). Durante dois anos (60 e 61) meu tempo foi ocupado pelos estudos do curso de direito (à noite na faculdade), e (de dia) ainda me dividia entre a casa e o CPOR, neste nos meses de dezembro, janeiro, fevereiro e julho, correspondentes às férias escolares, com as instruções (nome militar das aulas, teóricas ou práticas) durante os dias de semana e a formatura às cinco e cinqüenta da manhã; chegava no quartel às cinco horas e a instrução ia até as dezesseis e trinta, com liberação às dezessete horas, menos aos sábados e domingos. Este era o chamado período contínuo. Nos demais meses do ano em que havia aula nas faculdades (só fazia CPOR quem era universitário) ocorria o período descontínuo, com aulas aos sábados e domingos, nos mesmos horários. O segundo ano no curso do exército precedia a declaração à oficial. Escolhi - como se diz militarmente, piruei - fazer o curso de infantaria, tanto por não gostar das outras áreas (artilharia e engenharia, muitos cálculos; cavalaria, muita merda de cavalo e cavalos brabos; intendência, cuidar de suprimentos) como para ter o prazer de pertencer à (única) arma que vê o branco dos olhos do inimigo. Desatei a estudar as disciplinas do primeiro ano (ordem unida, regulamentos militares de saudações, comunicação, disciplinar, armamento e tiro, maneabilidade, topografia...), fazer marchas - neste ano com equipamento de combatente, algo pesado e incômodo - (ainda) curtas, de oito, doze - noturna - e dezesseis km e acampar para manobras militares. Era um guerreiro, enfim. No primeiro acampamento, em Gericinó, célebre área de treinamentos do exército na zona suburbana do Rio, próxima à estação de trem de Magalhães Bastos, após chegar em caminhão de transporte militar e armar a barraca com meu de rancho (colega escolhido pelo capitão-comandante da Escola, a décima, para ser o meu companheiro nesta instalação), fui almoçar e inesquecivelmente aprendi logo o que era combate, pois com todos na fila para a refeição caiu um tremenda chuva - estávamos em um descampado - e minha comida, meu rico arroz-com-feijão - mais carne e batata cozida - boiava na minha marmita. Vi muitos filhinhos de papai choramingando e tendo de comer sem maiores comentários... Eram dois acampamentos de cinco dias (todos de exercícios simulados de guerra) nos períodos contínuos, e duas jornadas (dia inteiro) nos períodos descontínuos. Os acampamentos eram finalizados com o retorno a pé, e nas proximidades do quartel marchávamos e cantávamos músicas varonis. Cansaço não podia existir, e cair ou voltar de ambulância era o vexame máximo, podendo significar o desligamento do curso. Logicamente havia muito esporte, e logo lá estava eu capitão do time de futsal (já modernizado, com bola que quicava um pouco, mas ainda sem valer gol de dentro da área) e jogando nos times de vôlei e basquete. Nossa escola foi a campeã de todos os esportes no curso de infantaria (eram dez as escolas), e parei na seleção de futsal do curso, onde ganhamos das outras armas. Estava tudo sendo muito bom neste ano, eu vibrando e satisfeito com a minha vida, principalmente por estar tendo mais e novas responsabilidades. Sempre gostei de assumir responsabilidades e tomar decisões, arcando também com as conseqüências. Madeira

quarta-feira, 16 de abril de 2008

vivencias-madeira-cronologica (1959/2)


A sempre fantástica Quinta da Boa Vista


1959: este fim de ciclo foi totalmente diferente, pois encerrou-se iniciando um espetacular, de sonho, de vibração, de aprendizagem complementar - pelo qual agradeço todos os dias. Trata-se do serviço militar, dos meus dois anos de CPOR/RJ, Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército Brasileiro do Rio de Janeiro. Vibro, mas vibro mesmo com tudo que lá aprendi e que uso até hoje, e que me marcou de forma positiva. Ao fazer dezessete anos cumpri a obrigação de alistar-me no Exército (cheguei a pensar em fazê-lo na Marinha, mas água só a de banho; até hoje - e gosto muito de passear de navio - não nado nada). Quanto a seguir a carreira militar (EPC/AMAN), apesar de gostar da idéia (cheguei a tentar fazer um curso preparatório no Clube Militar, na Cinelândia), as cas (matemática, física e química) me assustavam e lá seriam a base da carreira, então logo optei por não contrariar meus instintos intelectivos. A vontade ficou latente, não só por meu irmão como também por gostar de tudo organizado, de hierarquia e disciplina, e por saber muito bem obedecer e comandar (sempre fui o capitão dos times em que jogava e enquadrava os recalcitrantes e chupa-sangues). Feito o alistamento, pela série que cursava fui encaminhado para o CPOR/RJ, e era o que eu queria. Tanta gente de nível de estudo fugindo e eu brigando para ir para lá, tanto que pedi ao Sidônio que fosse ao quartel e visse se eu estava ou conseguiria ser selecionado. E fui. Assim, o ciclo seguinte da minha vida começou, na realidade, no dia quinze de dezembro de 59, com a apresentação em São Cristovão, no quartel (então do CPOR/RJ, na saída do portão da Quinta da Boa Vista que dava saída para São Cristovão, e do qual hoje só existe o pórtico). Encerrava-se o curso colegial e iniciava-se o acadêmico, em conjunto com o ensino militar a nível de oficialato e, principalmente, de complementação educacional. No futebol, depois da excelente campanha no Confiança, fiz parte da seleção do campeonato com outro goleiro (do Campo Grande, apelidado de Castilho pela semelhança física com o grande Carlos Castilho) e recebi convite de dois outros clubes, de novo da divisão profissional, ambos pequenos (São Cristóvão, através do meu ex-técnico no juvenil da Portuguesa, o Mendonça, e Bonsucesso, pelo técnico Jair Boaventura) - que recusei. Também fui convocado para a seleção do Departamento Autônomo que iria fazer uma excursão caça-níqueis à Europa (a famosa seleção cacareco, que demorou três meses e meio no exterior jogando a troco de nada), e ainda bem que, face aos estudos e ao exército, não fui, pedi dispensa. De resto, tudo em casa tranquilo, sempre procurando a orientação de meu pai e de meu irmão, e muito namoro (ainda firme com a mesma namorada do Confiança) e pouco lazer (pelas inúmeras atividades e as novas responsabilidades), permanecendo mesmo as idas ao Maraca pra ver tudo que era jogo e até carregando a namorada - quando o dia era de namoro. Madeira

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