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Blog destinado a narrar as vivências do autor, através de suas opiniões sobre fatos vividos, e de marcações cronológicas, objetivando deixar para descendentes e amigos suas impressões sobre passagens de sua vida, abrangendo pessoas com sd quais se relacionou e instituições em que laborou, tudo com a visão particular, própria de todo ser humano, individualizada, pois cada pessoa tem sua forma de pensar, ser e viver. Madeira
domingo, 20 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1961/2)
1961: neste fim de ciclo cursei o segundo ano do CPOR, também já veterano e dominando os macetes da vida militar, pois gostava muito dos princípios vigentes de hierarquia, disciplina, camaradagem, honra, responsabilidade e coragem - tudo feito com uma alegria e uma dedicação muito grandes. O segundo ano era de estudo e prática de comportamentos de comandante, ao contrário do primeiro - ano de subordinado, de serviços de quartel (sentinela, faxina de alojamento, de banheiro, outras) -; as ações eram de chefia, de comando (auxiliar de oficial-de-dia e, nas marchas e acampamentos, de comando). Enquanto antes carregava fuzil e equipamentos de combate completos, parecendo um caracol de tantas coisas às costas, agora levava apenas o cantil e uma pistola quarenta e cinco na cintura. Ficou tudo, depois do que eu havia passado, uma delícia. Imagine que no último acampamento eu era o combatente que, no pelotão, carregava a placa-base do morteiro sessenta (peça onde se firmava o morteiro, arma de lançamento de granadas por sobre a tropa amiga e de curva ascendente/descendente), e a desgraçada, além de incômoda de carregar, pesava paca - e eu agora jovem, forte, atleta, cheio de gás com vinte anos e sem nada nas mãos nem nas costas. Para melhorar, com a minha facilidade de aprendizagem fiz no primeiro ano, no somatório das notas das vc´s (verficações de aprendizagem: provas, no exército) e dos conceitos (opiniões justificadas que são emitidas pelos superiores, colegas e subordinados) o terceiro lugar do curso. Com isso, dentro do posto máximo que um oficial da reserva pode alcançar, que é o de capitão, fiquei com este, que era para ser exercido pelos três primeiros colocados. Cada ano do CPOR, no curso de infantaria, possuía cerca de quinhentos alunos. Um total de mil das mais variadas matizes, todos cursando alguma faculdade. É óbvio que se espalhavam pelos cursos, pela afinidade e pelas áreas de nível superior que estavam fazendo. Assim aprendi, tanto na teoria (disciplinas como situações de combate, chefia e liderança, operações contra guerrilha, inteligência, outras) quanto na prática (comandando no quartel, nas marchas e no acampamento), a me comportar frente às situações, às dificuldades próprias de cada uma e principalmente a cuidar dos comandados. No exército é princípio fundamental de comando acompanhar, orientar e auxiliar os subordinados, e isso entranhou-se de tal forma em meu interior, já de fundo humanístico, que fez com que eu sempre me realizasse nos comandos exercidos pela possibilidade de orientar, ensinar os que estavam sob as minhas ordens. Punições devem ser aplicadas, mas o chefe tem de ter a certeza de que os erros não são de sua responsabilidade (pela falha de observação quanto à capacidade de entendimento de quem recebe a ordem, pela não clareza da mesma, pelo não acompanhamento por ele da missão...). Muitas e muitas vezes a vaidade e o orgulho não permitem aos chefes perceber os próprios erros, na covardia atribuindo-os aos outros e salvando sua pele. Isso eu nunca fiz, pois fui educado para sempre assumir os meus atos; afinal, errar é do jogo e um modo de aprendizagem, e sempre arquei com as conseqüências do que eu praticava. Ou seja, nunca tirei o cu da reta. Madeira
sábado, 19 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1961/1)
1961: este ano foi dividido claramente em dois, de acordo com a cronologia semestral. No primeiro, já veterano na faculdade e com a base do estudo jurídico adquirida no ano de calouro - pois como um iniciante em qualquer atividade tudo era motivo de dúvida e de grande curiosidade -, ficou mais fácil e macetosa a aprendizagem. De fato, no ano anterior as disciplinas introdução ao estudo do direito, sociologia política, teoria geral do Estado, direito romano (hoje muitas faculdades não a ensinam e ela é definitiva para a interpretação do direito pátrio) e economia política me deram um amplo entendimento do que era a ciência do direito, e fizeram com que me apaixonasse por ela em sua teoria. Mais para a frente, ao trabalhá-la no dia-a-dia, verifiquei como na prática o homem, com suas imperfeições, interesses particulares, vaidades, orgulhos e paixões a deturpa e violenta em seus princípios básicos, tornando-a não mais uma ciência social, mas um instrumento pessoal para conseguir realizar os seus mais torpes desejos e suas vontades mais mesquinhas. O que não me desespera é que ainda há um pequeno número de homens de bem também na área jurídica, e que esses deslizes praticados por juízes, legisladores, promotores e advogados corruptos serão julgados em um tribunal maior, na eternidade. Nunca fiz parte desse time nojento em minha vida profissional. Bem, no segundo ano - com a base muito boa e a entrada das disciplinas profissionalizantes - foi tudo mais fácil e gostoso. A faculdade Cândido Mendes, a mais antiga particular do Rio de Janeiro, criada no século dezenove como Escola de Comércio e construída, à epoca, em um local estratégico - em frente ao cais da cidade, na Praça Quinze, local de entrada e saída de mercadorias e de comércio -, e que depois criou o curso de direito, funcionava em um prédio erguido então para esse fim (hoje tombado), com uma grande torre no centro do grande pátio existente. Era impecavelmente limpa, com grandes janelões e piso de tábua corrida sempre muito bem encerado. Vetusta, tradicional, dirigida por um educador e pensador de esquerda (mas não fanático), o dr. Cândido Mendes, da família que a originou, com professores-doutores em direito (não por esses doutorados atuais baseados em teorias e fórmulas nerds, mas pela excelência de estudos, pareceres e livros publicados, tribunos de conteúdo, não de blá blá blá), deu-me um embasamento e uma confiança que me servem até hoje nas leituras e compreensões de fatos cotidianos. Quando mais adiante lecionei direito, passei informações ao profissional da área que já não se transmitem, oriundas de meus estudos de introdução à disciplina, coisas que nem constam mais dos livros, como o que são e quando devem ser usados ítem, inciso e alínea e até quando se usa a numeração cardinal nos artigos - e mesmo quando se redige no futuro ou no presente. Ao não saber isso um advogado - em uma firma ou no serviço público -, ao redigir uma ordem de serviço ou uma portaria (também hoje não sabem diferenciá-las), certamente vai escrever um mau documento jurídico. Madeira
sexta-feira, 18 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1960/2)
1960: na faculdade de direito Cândido Mendes descobri o que era ser acadêmico, estudante de nível superior, ou seja, o maior interessado em aprender, em dominar o conhecimento necessário a um futuro exercício profissional. Docentes competentes, todos catedráticos - donos da cátedra, professores titulares - dotados do mais completo domínio das disciplinas que lecionavam, pois atuavam na área (juízes, promotores, advogados de renome) e/ou possuíam titulações conseguidas no Brasil e/ou no exterior. Quase todos também lecionavam na Nacional de Direito e tinham livros publicados. À época o ensino ainda era anual, o curso de direito em cinco anos divididos em anos letivos, com cinco disciplinas cada e cento e oitenta dias de aula. As provas eram nos primeiros quinze dias de julho; primeiro as provas parciais (somente os conteúdos do primeiro semestre), depois quinze dias de férias e no final do ano mais quinze dias de provas, as finais (todo o conteúdo do ano) - as duas fases de avaliação divididas em provas escritas e orais, sempre com três questões sorteadas pelo inspetor federal (uma dissertação e duas perguntas também dissertativas, no valor total de dez pontos). Atenção!: erro de português tirava ponto... As provas finais funcionavam como já descrevi no vestibular, ou seja, banca de três examinadores, um presidente para a dissertação e os outros dois para as perguntas; cada um dava a sua nota e dali era tirada a média final da oral, que - junto com as notas das primeiras provas (escritas e orais) e da final escrita - dava a nota final da disciplina. Era possível, uma vez, ter-se duas matérias em dependência, fazendo-se no ano seguinte as duas disciplinas, ou uma se fosse o caso, e aí o curso era atrasado um ano. Em seis anos, no máximo, formava-se um bacharel em direito. O exame da ordem dos advogados era feito junto com o quinto ano e acompanhado pelo inspetor federal (estava todo dia na faculdade, supervisionando as aulas e provas e dando visto nos diários de classe) e por um membro da ordem - isto nas provas finais -, sendo este muitas vezes membro honorário da banca de examinadores. Caso se ficase em mais de duas dependências, perdia-se o curso: ocorria a jubilação. Como pode ser visto, não era esta moleza atual que redunda em uma número expressivo de reprovações no exame da ordem, e também em advogados semi-analfabetos a usar um português lulal... Livros e apostilas eram companheiros diuturnos de estudos, e o grande amigo era o vade mecum jurídico, coletânea de todos os códigos em vigor e leis que os modificaram. Nos dias seguintes às aulas eu relia e estudava os conteúdos da véspera, buscando apropriar-me de todo o conhecimento passado pelos professores. Assim, com muito estudo teórico e prático, diário, tinha o lazer subordinado ao calendário e só via a turma da José Higino, já mais madura, nas férias da faculdade (que equivaliam ao CPOR diário), nos finais de semana, então ocasião das peladas e jogos amistosos de araque, e na época das aulas, quando o CPOR era aos sábados e domingos. Namoro ídem - tumultuado. Maraca quando dava, pois nunca fui de matar aula. Mas eu estava satisfeito, pois entendia que estava crescendo no intelecto e na ética. Além desses sacrifícios, tinha o de manter-me com o pequenino soldo (sálario, em termos militares), pois sempre tive vergonha de pedir qualquer dinheiro ao meu pai. Acordava, nos dias de CPOR, às três e meia da madruga, passava minha farda, engraxava os sapatos, preparava minha bolsa militar com os livros, apostilas e uniformes de educação física ou camisetas reservas, ia à padaria pelos fundos pegar um pão quente, fazia o café, tomava e saía para pegar o bonde das quatro e meia, para antes das cinco estar no quartel e mudar de roupa para a formatura às cinco e cinqüenta. Ainda bem que o CPOR só batia com a faculdade da sexta para o sábado. Madeira
quinta-feira, 17 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1960/1)
1960: novo ciclo - faculdade de direito, CPOR, fim do futebol oficial - ligado à federações - pela total falta de tempo (pois o CPOR funcionava aos domingos durante os meses de aulas). Durante dois anos (60 e 61) meu tempo foi ocupado pelos estudos do curso de direito (à noite na faculdade), e (de dia) ainda me dividia entre a casa e o CPOR, neste nos meses de dezembro, janeiro, fevereiro e julho, correspondentes às férias escolares, com as instruções (nome militar das aulas, teóricas ou práticas) durante os dias de semana e a formatura às cinco e cinqüenta da manhã; chegava no quartel às cinco horas e a instrução ia até as dezesseis e trinta, com liberação às dezessete horas, menos aos sábados e domingos. Este era o chamado período contínuo. Nos demais meses do ano em que havia aula nas faculdades (só fazia CPOR quem era universitário) ocorria o período descontínuo, com aulas aos sábados e domingos, nos mesmos horários. O segundo ano no curso do exército precedia a declaração à oficial. Escolhi - como se diz militarmente, piruei - fazer o curso de infantaria, tanto por não gostar das outras áreas (artilharia e engenharia, muitos cálculos; cavalaria, muita merda de cavalo e cavalos brabos; intendência, cuidar de suprimentos) como para ter o prazer de pertencer à (única) arma que vê o branco dos olhos do inimigo. Desatei a estudar as disciplinas do primeiro ano (ordem unida, regulamentos militares de saudações, comunicação, disciplinar, armamento e tiro, maneabilidade, topografia...), fazer marchas - neste ano com equipamento de combatente, algo pesado e incômodo - (ainda) curtas, de oito, doze - noturna - e dezesseis km e acampar para manobras militares. Era um guerreiro, enfim. No primeiro acampamento, em Gericinó, célebre área de treinamentos do exército na zona suburbana do Rio, próxima à estação de trem de Magalhães Bastos, após chegar em caminhão de transporte militar e armar a barraca com meu de rancho (colega escolhido pelo capitão-comandante da Escola, a décima, para ser o meu companheiro nesta instalação), fui almoçar e inesquecivelmente aprendi logo o que era combate, pois com todos na fila para a refeição caiu um tremenda chuva - estávamos em um descampado - e minha comida, meu rico arroz-com-feijão - mais carne e batata cozida - boiava na minha marmita. Vi muitos filhinhos de papai choramingando e tendo de comer sem maiores comentários... Eram dois acampamentos de cinco dias (todos de exercícios simulados de guerra) nos períodos contínuos, e duas jornadas (dia inteiro) nos períodos descontínuos. Os acampamentos eram finalizados com o retorno a pé, e nas proximidades do quartel marchávamos e cantávamos músicas varonis. Cansaço não podia existir, e cair ou voltar de ambulância era o vexame máximo, podendo significar o desligamento do curso. Logicamente havia muito esporte, e logo lá estava eu capitão do time de futsal (já modernizado, com bola que quicava um pouco, mas ainda sem valer gol de dentro da área) e jogando nos times de vôlei e basquete. Nossa escola foi a campeã de todos os esportes no curso de infantaria (eram dez as escolas), e parei na seleção de futsal do curso, onde ganhamos das outras armas. Estava tudo sendo muito bom neste ano, eu vibrando e satisfeito com a minha vida, principalmente por estar tendo mais e novas responsabilidades. Sempre gostei de assumir responsabilidades e tomar decisões, arcando também com as conseqüências. Madeira
quarta-feira, 16 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1959/2)
A sempre fantástica Quinta da Boa Vista
1959: este fim de ciclo foi totalmente diferente, pois encerrou-se iniciando um espetacular, de sonho, de vibração, de aprendizagem complementar - pelo qual agradeço todos os dias. Trata-se do serviço militar, dos meus dois anos de CPOR/RJ, Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército Brasileiro do Rio de Janeiro. Vibro, mas vibro mesmo com tudo que lá aprendi e que uso até hoje, e que me marcou de forma positiva. Ao fazer dezessete anos cumpri a obrigação de alistar-me no Exército (cheguei a pensar em fazê-lo na Marinha, mas água só a de banho; até hoje - e gosto muito de passear de navio - não nado nada). Quanto a seguir a carreira militar (EPC/AMAN), apesar de gostar da idéia (cheguei a tentar fazer um curso preparatório no Clube Militar, na Cinelândia), as cas (matemática, física e química) me assustavam e lá seriam a base da carreira, então logo optei por não contrariar meus instintos intelectivos. A vontade ficou latente, não só por meu irmão como também por gostar de tudo organizado, de hierarquia e disciplina, e por saber muito bem obedecer e comandar (sempre fui o capitão dos times em que jogava e enquadrava os recalcitrantes e chupa-sangues). Feito o alistamento, pela série que cursava fui encaminhado para o CPOR/RJ, e era o que eu queria. Tanta gente de nível de estudo fugindo e eu brigando para ir para lá, tanto que pedi ao Sidônio que fosse ao quartel e visse se eu estava ou conseguiria ser selecionado. E fui. Assim, o ciclo seguinte da minha vida começou, na realidade, no dia quinze de dezembro de 59, com a apresentação em São Cristovão, no quartel (então do CPOR/RJ, na saída do portão da Quinta da Boa Vista que dava saída para São Cristovão, e do qual hoje só existe o pórtico). Encerrava-se o curso colegial e iniciava-se o acadêmico, em conjunto com o ensino militar a nível de oficialato e, principalmente, de complementação educacional. No futebol, depois da excelente campanha no Confiança, fiz parte da seleção do campeonato com outro goleiro (do Campo Grande, apelidado de Castilho pela semelhança física com o grande Carlos Castilho) e recebi convite de dois outros clubes, de novo da divisão profissional, ambos pequenos (São Cristóvão, através do meu ex-técnico no juvenil da Portuguesa, o Mendonça, e Bonsucesso, pelo técnico Jair Boaventura) - que recusei. Também fui convocado para a seleção do Departamento Autônomo que iria fazer uma excursão caça-níqueis à Europa (a famosa seleção cacareco, que demorou três meses e meio no exterior jogando a troco de nada), e ainda bem que, face aos estudos e ao exército, não fui, pedi dispensa. De resto, tudo em casa tranquilo, sempre procurando a orientação de meu pai e de meu irmão, e muito namoro (ainda firme com a mesma namorada do Confiança) e pouco lazer (pelas inúmeras atividades e as novas responsabilidades), permanecendo mesmo as idas ao Maraca pra ver tudo que era jogo e até carregando a namorada - quando o dia era de namoro. Madeira
terça-feira, 15 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1959/1)

O Rio de Janeiro em um dia de dezembro, 1959
1959: ano de fim do ciclo estudantil do clássico e de decidir a carreira, a profissão e o vestibular, então classificatório, ou seja, havia cem vagas e entravam os cem primeiros classificados, as cem melhores notas finais. Finais porque o vestibular era de provas escritas, orais e específicas da área de estudos (humanas, exatas ou biomédicas; estudantes do clássico para a primeira e científico para as duas outras). Decidi-me por fazer Direito e assim me inscrevi ao final deste ano em dois concursos vestibulares, o da Faculdade Nacional de Direito, no Passeio Público (federal) e o da Faculdade de Direito Cândido Mendes, a mais antiga e tradicional particular do Rio de Janeiro, na Praça XV, ambas no centro do Rio. Consegui passar na Cândido Mendes em terceiro lugar na classificação final. As provas eram escritas e feitas em dois dias, um para português, latim e uma língua estrangeira (escolhi e fiz francês) e outro para história e geografia do Brasil, com quatro horas de duração. Trinta dias depois aqueles com nota superior a cinco em cada disciplina eram convocados para as provas orais - e era fogo: uma banca de três examinadores, catedráticos, sendo que você devia fazer uma dissertação para o presidente da banca uma vez sorteado o ponto (os conteúdos eram dos três anos do ciclo clássico, divididos em vinte pontos). A explanação do aluno era ouvida sem interrupções, e a ela era atribuída uma nota até o máximo de seis; depois, cada um dos dois outros membros da banca fazia sobre o ponto duas perguntas, valendo um total de quatro pontos (um ponto cada), o que conduzia à nota máxima dez. Isto tudo era acompanhado pelo inspetor federal, que sorteava o ponto em uma roleta redonda como as de bingo. Com a base do Marista - ensino excelente -, muitas horas de latim (missa em latim etc) e a educação recebida no Andrews (totalmente voltadas para essas áreas, ambos com professores excelentes), fora o meu gosto pelos conteúdos, foi mole ser aprovado. Com essa aprovação e com (até hoje continuam) as greves seguidas das universidades públicas, optei por nem ir fazer as provas orais na Nacional de Direito, já aprovado na Cândido Mendes. No futebol (Confiança), depois de ter cumprido o estágio de um ano, como sempre com inspiração superior, disputei o campeonato do departamento autônomo, para o qual - após anos afastado - o clube se inscreveu, reformando o estádio na rua Siva Telles (que hoje não existe como estádio, pertencendo a uma escola de samba que lá faz seus ensaios de carnaval). Foi uma campanha excelente, pois nos sagramos vice-campeões da série urbana (eram três as séries: a urbana para times da zona sul, centro e bairros; a suburbana para times dos - claro - subúrbios; e a zona rural de Bangu para cima). Venceu a nossa série e classificou-se para o triangular final o time da Viação Paredense (empresa de ônibus, à época fortíssima no Rio), e o campeão geral foi o Campo Grande, até hoje no futebol do Rio, na segunda divisão. Jogos em turno e returno, no campo do adversário e no nosso, e foi muito gostoso esse envolvimento de disputa, de entrar em campo sob foguetório, de fãs, de vitórias suadas e gratificantes, de súmula, de juiz de federação (até com Armando Marques no apito joguei), de massagista, de banheira relaxante ao fim jogo... Enfim, à exceção da riqueza de agora, que nem os profissionais de então tinham, vivi a vida de jogador de futebol e de ídolo da comunidade local. Valeu. Madeira
segunda-feira, 14 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1958/1959)
1958/1959: anos semelhantes, irmãos, mas em 58 nascia outra das pessoas a quem devo muito de minha vida atual. No fim de 58 (novembro, no interior) abria os olhos para uma nova encarnação Eugênia minha esposa, uma das encorajadoras para que eu escrevesse este blog (a cobradora maior sempre foi Taís, neta maior) e companheira ímpar. O Senhor definitivamente resolveu que eu tinha de progredir nesta vida e assim - depois de pais educadores (meu pai sempre me disse que ele era meu pai e não um amigo, e o foi sempre), um irmão exemplar, uma esposa guerreira, mãe e avó amantíssima, uma segunda mãe (não uma sogra) e pouquíssimos amigos (até a medula) que transformei em compadres - ainda achou que eu podia ter mais, autorizando a volta de minha esposa à base celestial e dando-me um presente na forma de uma nova companheira e esposa dedicada: Eugênia. De origem humilde, foi do interior de MG (em uma série de cidades) ao ES (em uma série de bairros) - além de uma passagem pelo Rio -, sempre lutando e vencendo dificuldades de todo tipo; filha impoluta, radicou-se em Vila Velha e aqui, já demonstrando o espírito iluminado que é, dedicou-se à educação, não a educação materialista para ganhar dinheiro, para agradar aos pais e aos alunos, mas para educar, ensinar, cobrar e preparar para a vida os jovens colocados no CEESC, Centro Educacional Elzira de Souza Caldeira, colégio de propriedade da sua mãe Elzira localizado no bairro de Jardim Colorado, Vila Velha, onde já casado acompanhei as atividades pedagógicas dela. Terapeuta, luta pela melhora da saúde psíquica de seus pacientes, desenvolvendo muitas dessas atividades gratuitamente (voluntária, como simples auxílio às pessoas que necessitam). Agradeço a Deus todas essas pessoas colocadas no meu caminho, pessoas que me auxiliam ou auxiliaram no crescimento pessoal, moral e espiritual, e neste momento pela presença continuada de Eugênia. Baixinha raçuda, amiga transparente, sei que muito a amo, e sei que mais ainda a admiro. Obrigado Senhor. Madeira
domingo, 13 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1958/1959)
Lotações estacionados em uma rua no Castelo, centro do Rio de Janeiro, 1958
1958/1959: anos de novidades para mim - e boas. No Andrews continuei a nadar de braçada, pois saiu grego e entraram filosofia e psicologia, ficando mais mole participar das aulas, discutir os temas e fazer e apresentar os trabalhos, pois não havia cálculos e fórmulas a decorar, algo que não suporto; aliás, imposições em cima de mim não aceito, salvo aquelas ligadas ao respeito e à ética, e ainda assim com a minha concordância. Aulas que nada havia a preparar ou saber de cór - que alívio! O resto da vida correndo tranquilamente e no futebol várias novidades: com as minhas boas atuações no gol da Portuguesa veio a convocação, em janeiro de 58, para a seleção carioca de futebol juvenil que iria representar o Brasil no sul-americano da categoria, em Caracas, na Venezuela, meados de março/abril - e a devida negativa de meu pai em concordar que eu perdesse aulas para participar. Os goleiros convocados foram Miguel, do Vasco, Miltão do América e eu da Portuguesa, mas solicitei a desconvocação, tendo por justificativa a minha vida estudantil. Possivelmente eu seria cortado, pois só iriam dois goleiros e esses dois eram muito bons. O Miguel chegou ao titular do Vasco uns dois anos depois, mas não se firmou, até por conta de um lance bizarro, pois em um jogo no Maraca, ao tentar repor a bola em jogo com as mãos - depois de uma defesa - girou o corpo demais e a jogou para dentro do próprio gol. O Miltão, um negão alto e grande sumiu, assim como eu, por motivos que desconheço. Aliás, o campeonato de juvenis de 57 revelou vários grandes jogadores; lembrando alguns: da própria Portuguesa o nosso centro-avante, o Lua, chegou ao Santos; era um atacante impetuoso, canhoto, que chutava e cabeceava muito bem; Gerson, o canhotinha de ouro, disputou este ano pelo Canto do Rio, como ponta-esquerda (no ano seguinte foi para o Flamengo); Marcio, goleiro do Flu que chegou ao titular e depois foi barrado pelo irmâo mais novo um ano, o Claudio, um lourinho que à época era do infanto do Flu e chegou ao Santos e à seleção brasileira; Djalma Dias, um dos maiores zagueiros que vi jogar, depois Palmeiras e seleção brasileira; Jailson, Jorge e Antoninho, todos do América, a melhor equipe e que fracassou no final do campeonato; Germano (que era do Flamengo), ponta-esquerda irmão do Fio Maravilha, que se casou depois com uma condessa italiana; e outros de que agora não me lembro. Para completar o meu ano de ouro futebolístico, fui convidado a me juntar ao técnico Newton Annet, especialista em descobrir jogadores que só trabalhava em categorias de base e que estava indo pela primeira vez para um time grande (o Atlético Mineiro); eu e outras revelações. Meu pai, mais uma vez acertadamente, disse não. As décadas anteriores aos anos 80 (era Dunga, raça e força acima de tudo) privilegiavam a categoria do jogador, não se importando com coisas como força física. Com razão são chamadas de época do futebol-arte. Eram muitos os artistas da bola, que faziam esta correr e não eles, que a amaciavam e a chamavam de meu bem, dando passes de 40, 50 metros com exatidão (Didi, Gerson, Zizinho, Danilo Alvim, Carlinhos), e os goleiros não precisavam ter mais de metro e noventa, tendo na realidade de ter outras qualidades técnicas (sair certo do gol, saber sair jogando, ter coragem, saber fechar um ângulo); enfim, como é o certo no futebol, ter e jogar com inteligência, aproveitando-se de atalhos e momentos para chegar à vitòria, e isso eu fazia muito bem. Sem ser alto, não perdia dividida com as mãos nem com os pés; não errava saída do gol, comandava a defesa tendo a confiança dos beques (que me obedeciam), nunca dava chutões para a frente (saía jogando sempre) e usava, mesmo sem gostar de matemática, princípios desta, analisando nos treinos o ângulo do chutador das pontas e dos meios. Nos treinos eu demarcava um reta entre a paralela da baliza e a linha de meio do gol, colocando-me neste meio. Marcava ainda na linha da pequena área (ou na terra, nos campos carecas), com a trava da chuteira, esses ângulos - para mim reais e para os atacantes desconhecidos, de maneira a nunca perder o melhor fechamento da baliza. Ser burro, não analisando continuadamente os fatos e suas possibilidades de desdobramento, em qualquer trabalho significa a derrota. Bom, com a idade estourando no final do ano de 58 e sem a possibilidade e o interesse de ser profissional (então jogador de futebol ganhava mal, era mal visto e tinha a carreira abreviada por motivos vários, principalmente médicos/físicos), resolvi voltar para o Confiança, minha paixão e onde aprendi a disputar campeonatos usando chuteiras, em campos oficiais com juiz, súmula etc. Acertei tudo e fui, para minha surpresa (com dezessete para dezoito anos), içado diretamente para o gol titular do primeiro time. Depois de assinar, entrei em um estágio de um ano (1958 todo) e voltei ao Confiança. Madeira
sábado, 12 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1957/5)
1957: um ano com novas imposições de viver para mim, que me levaram a um amadurecimento acelerado pelas responsabilidades que chegavam, e por ter extrapolado o mundo de colégio e rua em que vivia até então. Esses eram meus limites: colégio, rua José Higino, jogar no Confianaça, rua Silva Teles e a Atlética Carioca; enfim, um raio de ação de dois, três km do porto seguro que era a minha casa, com dinheiro apenas de mesada. Aí pintaram concentração, viagens intermunicipais e até interestaduais (e de ônibus, antes no Confiança eram de caminhão com bancos de madeira, o célebre pau-de-arara), dinheiro de ajuda de custo e bichos por vitória e empate, além de, entre aspas, fama... Depois dos jogos entrávamos no vestiário e encontrávamos os cobras fazendo aquecimento, e víamos a seguir o jogo dos profissionais. Assim vi bem de perto, em especial no Maraca, os craques do futebol carioca de então, desde Castilho até Didi, e sabíamos das histórias deles, desde os lances geniais às mazelas de bebida, mulheres, tentativas de suborno, os ganhos em cima dos patronos dos clubes, os macetes de pedir dinheiro extra para jogar. Foi sensacional e diferente, e com uma aprendizagem sociológica importante para o futuro, pois sempre observei o que ocorria ao meu redor e cotejava com os ensinamentos de meu pai e com o que eu queria da vida. Fora isto, irresponsavelmente (nunca me machuquei) jogava minhas peladas com a turma da rua, mas somente na época dos jogos intercolegiais. Jogava pelo Andrews, que era muito fraco no quesito esportes, ao contrário do São José. Cheguei a jogar vôlei pelo juvenil do América, convidado após um jogo ainda da época do São José, mas desisti logo. O namoro continuava com uma menina do Confiança, onde ia sempre que nosso jogo era no sábado e saudado como celebridade. No Andrews tudo corria às mil maravilhas, com oito disciplinas no primeiro ano e nenhuma das malditas; estudava Português, História, Geografia, Latim, Grego, Francês, Inglês e Espanhol, e deitava e rolava pela facilidade de entender e discutir essas áreas sócio-humanísticas. Em casa era tratado como um homem responsável, pois dava retorno aos meus pais tanto no estudo quanto no cumprimento dos horários e das obrigações complementares - quem quer que viva na dependência dos pais deve respeito, atendimento presto às determinações e não dar trabalho extra, pois minhas roupas pessoais eu lavava e passava, assim como arrumava meu quarto (varrendo e limpando) e engraxava meus sapatos. Sidônio, irmão querido e admirado, pois como meu pai sempre foi modelo e exemplo de honradez, seriedade, compromisso, respeito e honestidade em todos os momentos, já casado, quando morava no Rio eu o visitava sempre - para, como no relacionamento com o meu pai, aprender mais e mais. Religião? Definitivamente desgostoso com tudo que a Igreja Católica pregava através de seus padres, abandonei-a no tocante à freqüência, mantendo o respeito à simbologia aprendida, entrando nas igrejas quando passava em sua frente e fazendo minhas preces isoladamente, sem sentir a necessidade de ouvir missas, confessar e outras baboseiras impostas pelo medo do inferno, que analisadas mostravam-se simples formas de domínio. Meus contatos eram diretamente com Deus e Cristo (modelo para quem quer ser correto no viver) através de minhas orações, e principalmente da busca da correção no viver diário. Isto meu pai ensinou-me sempre, lembrando que se uma pessoa é correta em todos os seus comportamentos não tem como estar pecando por não cumprir a liturgia imposta pela Igreja Católica. Os seis anos de Marista (que muito me acrescentaram em conhecimentos e comportamentos de educação e erudição) não conseguiram me transformar em um cordeirinho, em um dócil seguidor de um homem infalível (o Papa) - isso é brincadeira com a minha inteligência. Madeira
sexta-feira, 11 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1957/4)
Carnaval de rua na Guanabara - foliões na Avenida Rio Branco - 1957
1957: o campeonato carioca deste ano deu-me um forte embasamento para conhecer muito de futebol, de gente e de compromissos. Com dezessete anos eu já tinha responsabilidade de horários rigorosos para estudar, me divertir, namorar e um compromisso assinado de defender a bandeira de um clube, cumprindo determinações e horários e me esforçando para seguir as orientações de um técnico (tinha tudo isso no Confiança, mas limitado a um bairro), e agora com uma exposição muito nova e grandiosa. Por muitas semanas era exposto e comentado publicamente pelos colegas de colégio e do bairro, pelas atuações vistas ao vivo pela TV, nos jogos contra times de ponta: Fluminense, Flamengo, Vasco, Botafogo, América e Bangu. Nosso treinador era um ex-lateral direito do Bangu, o Mendonça, com a carreira abreviada ao quebrar a perna direita em um clássico no Maraca contra o Botafogo, e era bem bronco, mas boleiro. Ele mesmo me treinava e, nos dias de individual, ficava o tempo todo comigo e usava um sistema interessante, que eu nunca havia visto e acho que não existe atualmente: antes de treinar no gol o de sempre (saídas em cruzamentos, chutes de todos os lados, faltas e penaltis, rasteiros e altos), ele batia bola comigo em um canto do campo, primeiro com uma bola de borracha que quicava muito e era difícil de agarrar, e depois com uma bola medicinal, daquelas pesadíssimas, e me matava com isso. Pelo nível de instrução acabei, como em todos os times nos quais joguei, sendo o homem de confiança dele, que me batizou de Russo por eu ser louro e ele não conseguir falar Theotônio. Não fui capitão do time por ele achar que eu ficava longe do jogo, já que estava no gol. Tínhamos um bom time que não deu vexame, ganhando praticamente de todos os pequenos e fazendo jogo duro com os grandes, com derrotas apertadas e uma vitória marcante contra o América, considerado o melhor time juvenil do ano, por 4x3, na inauguração do nosso estádio em Kosmos. Acabamos o campeonato no sétimo lugar, o que equivaleu a ser o melhor dos pequenos. O mais difícil na concentração em Kosmos era ter de dividir a carne do almoço com o imenso e feroz cachorro do dono da pensão onde almoçávamos aos sábados e domingos. O bicho não tinha uma cara boa e era uma fera, sempre rondando - e se não déssemos carne a ele provavelmente seríamos atacados. A hora do almoço era a hora de terror. Os treinos coletivos eram contra os titulares, e acho que foi um dos ingredientes para fazermos uma boa campanha. O profissional tinha jogadores de renome: Barbosa (ex-goleiro da seleção brasileira de 1950, com mais de quarenta anos, em um fim de carreira triste), ainda excelente goleiro, homem simples e de caráter, muito calado, mas um exemplo; seu reserva de então foi dos maiores goleiros que vi, o Antoninho, vindo do Flamengo e que não se firmou porque era um tremendo viadaço, amigado com o central, o Juvaldo, um negão de meter medo, canhoto e muito forte, que acabou indo para o Santos; o quarto zagueiro acabou no Vasco e foi um dos melhores que vi jogar, o Russo, magrinho e com um senso de antecipação e uma elasticidade incríveis; o meia armador, o Borges, foi para o Botafogo, onde jogou e brilhou por muito tempo. Era, enfim, um bom time profissional. Neste ano ocorreu uma das maiores tragédias da história do Flu: depois de um campeonato de profissionais excelente, cruzou na final com o Botafogo, que tinha, é verdade, um timaço, mas o Flu tinha uma defesa excelente - a melhor do Rio - e não havia tomado mais de um gol em nenhum jogo. Nesse dia o centro-avante do Bota, o Paulinho Valentim, trombador e artilheiro, meteu cinco gols no Castilho - um dos melhores goleiros de todos os tempos da história do futebol -, e de todos os jeitos, desde de cabeça da linha da grande área até de bicicleta, e sem que o Castilho ou o marcador dele - o Pinheiro, um central de grande porte físico, ágil e excelente jogador - tivessem culpa. Resultado final: Bota 6x2 e campeão carioca. Madeira
quinta-feira, 10 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1957/3)
Vista da Lagoa, Jóckey Club e Gávea, do alto do Corcovado - anos 50
1957: o campeonato carioca de futebol juvenil começava com o Torneio Início, mais ou menos em maio, pois não existia o campeonato brasileiro e o ano partia do torneio de profissionais Rio X São Paulo, logo após o Carnaval; findo este torneio, mais ou menos em fins de abril, começavam os campeonatos do Rio e de SP, que tinham um intervalo de cerca de um mês (julho/agosto) para as excursões dos times, prosseguindo depois até o final do ano. Os grandes iam para a Europa, sempre grandes mercados (lá época de verão e entre as temporadas, como até hoje), e os pequenos excursionavam pelo interior do Brasil (principalmente do estado do Rio e de Minas Gerais) e pelo nordeste. A Tv em preto e branco era regional e só gerava alguns programas, estes restritos ao eixo Rio-SP, com a maioria da programação de filmes ou novelas; entravam no ar durante a semana ao meio-dia ou às duas horas, acabando às vinte e duas ou vinte e três, sendo que os outros estados limitavam-se a receber, no dia seguinte, os tapes em grandes rolos de fitas. Eram as excursões que davam dinheiro e disseminavam o nosso futebol (e o carioca era o mais conhecido e importante, face ao Maracanã e a ser a capital da república, a Cidade Maravilhosa famosa pelo Carnaval, com a sua Copacabana e os craques da Copa de 50). O Torneio Início era elaborado com a tabela dirigida (todos os campeonatos eram desta forma, o que significava que os melhores se enfrentavam sempre mais ao final, ajustando assim seus times e conhecendo-se melhor), servindo como a apresentação dos times formados para aquele ano. Eram jogos de dois tempos de dez minutos, e em caso de empate a classificação se dava pelo saldo de escanteios a favor, ou seja, quem tivesse mais escanteios - sinal de que havia atacado mais - estava classificado. O empate também nesse quesito levava à disputa por penaltis: eram três, todos cobrados pelo mesmo cobrador. Tudo sensacional, começando às dez ou onze horas e indo até o anoitecer, com muitas emoções e o Maracanã cheio. Bem, dei muita sorte porque a novíssima Tv Rio (antes, no Rio, o domínio era da TV Tupi) queria e conseguiu dominar a programação de esportes, e resolveu transmitir ao vivo, aos domingos, abrindo a sua programação, os jogos do campeonato de juvenis jogados nas preliminares dos profissionais (outra sorte que dei, pois os aspirantes neste ano jogavam às quartas-feiras, às tardes, e os juvenis é que treinavam com os profissionais e faziam as preliminares), e assim um locutor novato foi escalado para transmitir essas partidas que buscavam chamar a atenção, na hora do almoço, para os futuros craques e para a paixão nacional, o futebol: o Léo Batista, que estreou justamente transmitindo lances da abertura do Torneio Inicio Juvenil de 1957 e todos os jogos realizados no Maraca. Neste torneio fomos eliminados por outro time pequeno, o Bonsucesso, e partimos para o campeonato em turno e returno, tabela e campeonato impressos e distribuídos antes de seu início, um jogo em casa e outro na casa do adversário, e os jogos contra os grandes sempre no Maracanã. Enquanto treinávamos o individual às quartas e os coletivos às sextas-feiras, com a concentração aos sábados pela manhã e amistosos pelo interior do Rio, a Portuguesa alugou o campo do Kosmos F.C. (no subúrbio do mesmo nome, zona rural do Rio, uma estação da Central entre Bangu e Campo Grande) e lá fez a reforma necessária - no que seria a nossa casa e onde mandaríamos nossos jogos contra os times pequenos. Madeira
quarta-feira, 9 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1957/2)
1957: este ano representou também uma mudança na minha carreira futebolística, meu grande vício em termos de esporte. Fui convidado a transferir-me do Confiança, onde estava estourando a idade de infanto-juvenil (não havia essas categorias de fraldinha, mirim, infantil, sub-isso, sub-aquilo, escolinha; futebol de chuteira era apenas o infanto-juvenil, dos 15 aos 18 anos incompletos; juvenil, dos 18 aos 21, maioridade; depois era se profissionalizar ou ficar em times amadores; futebol se aprendia no meio da rua ou nos colégios), para a Portuguesa do Rio, clube da colônia lusitana, fruto das atuações que me levaram à seleção dos melhores do campeonato infanto de 1956. Na Associação Atlética Portuguesa, com sede social no centro do Rio (rua Barão de São Félix), sem campo e que treinava no Nova América, time de uma fábrica de tecidos de Del Castilho, subúrbio carioca, fui inscrito em janeiro na federação metropolitana de futebol, a FMF, e tive de cumprir um estágio de três meses, ou seja, só podia treinar e nem amistosos jogar; este era um ítem da legislação existente, feito sob medida para dificultar as mudanças seguidas de clubes de jogadores amadores ou menores. Foi necessária a autorização de meu pai para que eu assinasse o compromisso, o que consegui após uma célebre frase dele: "Ó Theo, futebol não dá camisa a ninguém, tem é de estudar" - e na época não dava mesmo. Futebol era coisa de semi ou todo analfabeto, de quem não tinha estudo, com raras exceções (Pedro Amorim, ponta-direita do Fluzão e em 1946 super-campeão, era médico). Os dirigentes eram torcedores fanáticos, mas não ladrões como os de hoje; os jogadores que iniciavam a carreira em um clube, principalmente nos grandes, só jogavam nele e amavam mesmo a camisa, não a beijando a cada contrato novo - ganhavam mal e quando precisavam de algum dinheiro extra, para casar ou - os solteiros - para uma farra maior, pediam-no a algum sócio-benemérito ou a um diretor abonado. Eram tratados como filhos mimados, e quando faziam partidas excepcionais recebiam gratificações extras (nunca do clube, mas de pessoas ligadas a ele, o que veio depois a se tornar oficialmente a gratificação por vitória, o chamado bicho). Os mais vivos e oriundos da classe baixa aproveitavam-se dessa paixão e, às vésperas de jogos importantes (clássicos ou decisões de campeonato), ficavam doentes ou diziam-se sem condições de jogar por conta de um problema financeiro grave em casa, e aí arrancavam um dinheirinho a mais antes do jogo; logicamente, pediam mais um pouco em caso de vitória. Em todo caso, prefiro o futebol que conheci, sem essa mídia vagabunda que leva dinheiro de técnicos e jogadores, sem empresários, sem clubes deficitários, sem propaganda em camisas (descaracterizando-as), sem contratos milionários que se tornam impagáveis, sem manobras de bastidores; enfim, ainda jogado sob a égide do compromisso, onde um fio de bigode valia tanto quanto a assinatura de um papel, e foi esta a forma em que fui educado. Então também não se valorava o jogador pelo porte atlético, pela força física, pelo tamanho, e sim pelo trato com a bola (temos hoje tanto time e jogador de futebol porque este é mais atleta que futebolista). Não existia comissão técnica nem treinador de goleiro (depois deste o goleiro começou a escolher um canto na batida de penalty, e alguns já estão escolhendo na batida de faltas), consistindo a cabeça de um time de treinador - escolhia, treinava e escalava o time, orientando durante o jogo o comportamento dos jogadores e dando ele mesmo os treinamentos físicos, chamados então de individual e compostos de aquecimento, corridas, alongamento e bola, muita bola, ou seja, coletivo este parado a todo momento para a correção de posicionamento, para as cobranças de falta e outros fundamentos -, massagista e roupeiro. O médico, sempre um traumatologista, só aparecia na revisão médica das terças ou quintas, quando de jogo na quarta. Nada de comissão técnica de mais integrantes que jogadores e de doutores em tudo, e ainda assim nenhum jogador ficava mais que uns poucos dias parado por contusão. As faltas eram poucas e recriminadas pelo treinador, só podendo dar porrada os laterais, e isto quando os pontas eram muito ariscos (que saudade dos pontas!) - levavam uma no canto da bandeirinha de córner para respeitar o adversário, mas sem alarde. Efetivamente era outro futebol, recheado de artistas da bola e com a picaretagem restrita a alguns jogadores do folclore carioca. Vi e acompanhei isso tudo durante este ano. Madeira
terça-feira, 8 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1957/1)
Praia de Botafogo
1957: iniciei neste ano um novo ciclo de estudos, o do curso clássico, com maiores responsabilidades, tais como a preparação para o vestibular (com a escolha da carreira), menos molecagens e mais seriedade; enfim, como se dizia à época, estava ficando um homenzinho. Ao final de 1956 e do primeiro ano científico, lá estava eu literalmente fodido, em segunda época nas cas da vida: físi-ca, quími-ca e matamáti-ca. Bom, o jeito foi falar claramente com o meu pai e explicar a ojeriza a essas disciplinas, pedindo desculpas e apontando como solução fazer o curso clássico, que não possuía essas áreas e preparava para o vestibular no campo das humanas. Meu pai, que tinha muito orgulho de já ter feito um filho militar (Sidônio), ele, um simples e semi-analfabeto padeiro (como dizia ser), aspirava fazer do outro um diplomata, e depois dessa conversa vislumbrou esse caminho para mim, pois só podia fazer o curso do Itamarati quem já tivesse um curso superior, e eu desejava fazer direito, o que encaixava bem no curso clássico. Na época existiam, uma vez feito o ginásio (agora chamam de fundamental), três hipóteses de continuidade para os estudos: o científico, para as áreas de exatas e biomédicas; o clássico, para as áreas de humanas; e os técnicos, então para a formação de contabilistas, administradores e secretários, que hoje equivaleriam ao ensino médio. Conforme era do estilo do seu Dias, meu querido pai, que sempre disse (e cumpriu) que para o meu estudo, minha alimentação e minha vestimenta nunca nada faltaria, fui mandado em busca do melhor colégio com o tal do clássico, e que eu lá providenciasse a minha matrícula. Na Tijuca apenas o Instituto Lafayette, na rua Haddock Lobo, em frente à Igreja dos Capuchinhos de São Sebastião tinha o curso que eu procurava, mas esse era rival do Marista e fatalmente eu teria problemas lá, e assim catei no centro e na zona sul; fui então encontrar os dois cursos clássicos mais afamados do Rio: Colégio Andrews e Colégio Anglo-Americano, o primeiro de família tradicional de educadores, os Flexa Ribeiro, e o Anglo de origem saxônica, claro. Interessante que a rivalidade era tão grande no nível do ensino que o Andrews se notabilizava pela instrução da língua francesa, e o Anglo da língua inglesa. Bom, ao conversar com meu pai, por ser mais caro (pra ele tal era sinônimo de melhor) e por ter eu me apaixonado pelo pequeno e lindo prédio da praia de Botafogo, além de sempre ter preferido estudar francês, foi escolhido o Andrews, e assim peguei minha transferência no Externato São José, nem fazendo as segundas épocas; matriculei-me no Andrews, depois de ter feito uns testes e uma entrevista. Novo ciclo. Acordar às cinco e quinze da manhã, descer à padaria e entrar pelos fundos, pegar pães quentinhos, fazer o meu café, passar e vestir o meu uniforme (a partir dos quinze anos, lavava/passava minhas roupas e arrumava meu quarto, talvez por causa do futebol; minha mãe, quando comecei a jogar, disse-me que não lavaria aquelas roupas imundas e não constantes das obrigações maternas, e quem tem vergonha na cara não escuta duas vezes a mesma chamada) e tomar o ônibus Horto, que tinha o ponto final na pracinha Aguiar, ao lado do Colégio Batista, no fim da José Higino, este no número 415, que saía às cinco e cinqüenta pontualmente e chegava em Botafogo, no ponto ao lado do colégio, às seis e quarenta e cinco, com a margem de quinze minutos para o início das aulas. O retorno, também cronometrado e com o fim das aulas ao meio-dia, era no ônibus de meio-dia e quinze, e eu chegava ao ponto final por volta da uma hora, a tempo de encontar a turma na carrocinha de Kibon do Arnaldo. Dessas viagens de quase uma hora veio a minha paixão pela leitura, pois eu ia estudando para alguma prova ou lendo revistas, jornais e livros, chegando ao cúmulo de ler o dicionário de língua portuguesa duas vezes em três anos de idas e vindas... Madeira
Sorveteiro em frente à sede do Ministério da Educacão - anos 50
segunda-feira, 7 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1956/4)
1956: além das brincadeiras, passeios e jogos, a turma tinha também as suas safadezas; ao relatá-las não identificarei os autores, por terem sido aventuras de adolescentes, todos porraloucas e que hoje, coroas, podem ter seus familiares desgostando de algo. Algumas delas, pois: na José Higino havia uma grande casa de cômodos (eram chamadas assim casas senhoriais, imensas, que alugavam quartos sem banheiros - estes eram coletivos, ao fim dos grandes corredores), onde nessa época moravam duas irmãs, e por coincidência as duas com defeitos físicos: uma andava de cadeira de rodas, de um tipo que creio não existir mais (era de duas rodas atrás, onde ficava o assento, e uma à frente com o guidão, como o de uma bicicleta, e neste ficava acoplada uma carretilha movimentada pelas mãos, que levava a força motriz às rodas traseiras, movimentando a cadeira), e a outra irmã, magrinha, tinha uma perna mais curta que a outra, bem sequinha aquela. Bom, a turma descobriu que elas quebravam o galho da vizinhança, desapertando as necessidades sexuais de quem as procurasse... Foi o suficiente pra fazermos fila, e havia até controle de entrada e saída. Como deu um congestionamento de adolescentes, o jeito era levar a cadeirante para um terreno escuro dentro da área da casa, aos fundos, e a pernetinha para trás da fábrica da Brahma, onde passava o rio Maracanã e então não transitavam carros; era um caminho apenas para passar a pé, paralelo à rua Antonio Basílio, e escuro. Bem, a cadeirante trabalhava sentada no manuseio do pinto jovem, enquanto a outra era encaçapada pelo pessoal, com o detalhe de um sacana da turma ter inventado a melhora do ato, que consistia (não é piada) em colocar um tijolo debaixo da perninha seca e, depois da introdução, empurrá-lo com o pé, levando-a a ficar se mexendo, à procura do apoio do pé retirado. Existiam as idas coletivas à zona do Mangue, onde quem tinha dinheiro escolhia (e, por vergonha ou sei lá o quê, cada um tinha a sua prostituta e só ia com ela) e os outros ficavam de porta em porta só olhando. Certa feita descobriu-se que um colega estava comendo a empregada da casa dele assim que os pais saíam pro trabalho, e ocorreu a chantagem: ou todos iriam lá e a comeriam ou ele seria dedurado aos velhos. Daí todos, em um revezamento organizado (que incluía a vigilância, inclusive com postos avançados, na possibilidade da mãe dele voltar cedo), passaram a comer a Maria (nome da empregada, uma nordestina jovem de grandes coxas e seios), até que um idiota fez a merda... Esta foi que ele descobriu (nesses lances procurava-se não envolver todo mundo, ficando restrito a poucos, mas algo sempre vazava e os participantes aumentavam) o que acontecia e quis participar, mas o sujeito era um animal em todos os sentidos e, não conseguindo (por afobamento e/ou falta de prática - as libações eram no sofá da sala conjugada, de visita e jantar) concretizar a transa, pegou a mantegueira na mesa ainda posta do café, enfiou o instrumento na mesma e o lambuzou para facilitar a penetração, nada falando com os demais. O resultado foi que a mãe do colega, à noite, sabatinou-o com dureza sobre o desenho encontrado na manteiga. Com o seu medo, nada mais aconteceu por lá. Eu, por minha vez, fiquei parte de uma tarde escondido atrás de um armário (naquele tempo os armários, não sei por qual razão, eram arrumados nos cantos, em quina, com um bom espaço até a parede - talvez já para os amantes se esconderem?)... Eu namorava e sarrava uma garota, e às tardes passava por lá, assobiava e ela aparecia à janela; se sozinha (morava com os tios), mandava-me subir. Era um apto no segundo andar, sem elevador, então ela abria a porta e eu me acabava. Até um dia em que eu e ela na cama ouvimos o barulho da chave abrindo a porta, e ainda bem que eu estava apenas sem camisa; voei para trás do armário, esgueirando-me - e até hoje não sei como passei por ali, por um espaço tão pequeno. Algum tempo depois o fdp do tio dela foi embora e, pelo meu cagaço, acabei com essas visitas vespertinas. Madeira
domingo, 6 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1956/3)
1956: a turma da José Higino, composta por adolescentes moradores da mesma ou de ruas próximas como a Antonio Basílio, a Conde de Bonfim e a Dona Delfina, reunia-se diariamente (nas férias, de manhã, de tarde e de noite; no período de aulas - o que era incrível, pois dificilmente estudavam na mesma escola - na hora pré-almoço); íamos chegando e ficando de papo, encostados em uma carrocinha da Kibon que tinha ponto na esquina da Conde de Bonfim com a José Higino, pilotada por um vendedor muito simpático e amigo chamado Arnaldo, até a chegada do último, ocasião em que combinávamos a hora do encontro da tarde e o programa, se bola, se cinema, se só papo mesmo, se Maracanã à noite, tudo dependendo do dinheiro existente e da hora em que todos estivessem liberados dos estudos, dos famosos deveres de casa. Vou tentar enumerar o máximo de caras dessa turma, obviamente esquecendo alguns por pouco conviverem conosco (ou por pura falta de memória). Na ordem das residências mais próximas da minha: Nelson (depois meu compadre, padrinho da minha filha Flávia), Sérgio Gomes (o Sérgio da Sorte), Gustavo Cicconi (também estudava no São José), Inácio, Zé Carlos (Alicate), Raul, Zé Heitor, os irmãos Luiz Carlos (Cacau) e Vitor, os também irmãos Osvaldo e Paulo Roberto (Bebê), o Luiz Carlos (Melequinha da Primavera), Antonio Carlos (alegria da galera, bichona, onde a turma se desapertava), os outros irmãos Tony e Carlos Roberto (Santos), Damião (Português), Sergio Eiras (Tomate), Paulo Roberto (Bacalhau), os igualmente irmãos Edmar e Alcides (Sidoca), Piquet Carneiro (depois ministro de Estado, que não andava com a gente: já era esnobe), outra dupla de irmãos, o Marcelo e o Murilo Wernech (ídem), Abelardo, Jacques Haiat (Jacó), Jacozinho e Hertz; outros podem ter sido esquecidos, mas estes eram os mais freqüentes nos nossos passeios e brincadeiras. As gírias mais comuns eram: dar uma trepada com a Berkel (pesar-se, pois as balanças eram da marca Berkel); visitar a Celite Boca Larga (ir ao vaso, pois a marca do vaso era Celite); estar resfriado por baixo (estar com gonorréia, pois escorria pus do pinto); duca (do caralho, para significar algo sensacional); paca (para caralho, para significar algo grandioso); culhonal (sensacional, fora de série); fominha (quem não passava a bola na pelada e queria driblar todo mundo); chupa-sangue (quem não corria na pelada); uma uva (menina linda); bagulho (menina feia); pelada ou racha (futebol sem juiz, que sempre tinha os minutos finais sem se poder tocar na bola, só nos jogadores do outro time, mas sem buscar machucar, tipo o futebol americano). Para completar (também no colégio tinha), havia a banda da rua. Era uma sacanagem que consistia (faz pouco tempo passou em uma peça teatral, Aqueles homens baixos, ou algo assim) em sairmos (dependendo do número, em fila de dois ou em coluna de um) com o maestro à frente e cada um dos componentes imitando um instrumento musical, e o resto, ao fim, fazendo o refrão. Mais ou menos assim: um imitava o bumbo, gritando BUNDA!, BUNDA!, intervalando com o do triângulo, que gritava CARALHIM!, CARALHIM!, e os demais imitavam outros instrumentos, com o coro cantando, ou melhor, gritando: Cu da mãe tem dente, morde o pau da gente!... Madeira
sábado, 5 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1956/2)
1956: as festas de quinze anos em que íamos foram marcantes. Aconteciam em clubes na Tijuca, basicamente no Tijuca Tênis Clube ou no Montanha, e às vezes, quando de portugueses, no Centro Trasmontano - ou nos casarões de dois andares das famílias abastadas. Nestas festas, em que era obrigatório ir de terno, além de salgadinhos de qualidade e bebidas diferentes (whisky, campari, vinho e a famosa cuba-libre), havia música ao vivo com cantor. A massa da freqüência era de jovens e, como todos se conheciam nos bairros e os convidados eram quase sempre os mesmos, as famílias deixavam vazar as datas com muita antecedência para evitar a superposição de eventos. Começavam às onze horas e iam até as quatro, cinco horas da manhã. Dos conjuntos que tocavam, os mais famosos, e que na realidade eram pequenas orquestras, eram os dos maestros Waldir Calmon, Erlon Chaves e de Ruy Rey, o rei do mambo, ritmo que fazia sucesso então e que era muito tocado junto com o bolero, o fox, o samba-canção e, também surgindo no Rio, o baião. Por vezes tudo terminava em carnaval. No auge da festa (em algumas que começavam às dez horas para o permitir) ocorria a valsa dos quinze anos, em que entravam quinze damas (adolescentes dessa idade) vestidas iguais, normalmente de rosa, e depois com o seu pai entrava a aniversariante, que com aquele dançava de início uma valsa (quase sempre Strauss), trocando depois de par e dançando com o avô, o padrinho de batismo e algum homem mais especial para a família. Os crooners dos conjuntos que vi (e dos quais me lembro) eram Silvio César, Miltinho, Wilson Simonal e Eliana Pittman. A notícia dos bailes de debutantes no bairro corriam céleres, e sempre se descolava um convite. Quem da turma recebia um convite pedia mais quantos fossem possíveis e os distribuía, e quem nada conseguisse tentaria entrar como penetra. A penetragem era uma arte, e a praticavam os caras de pau da turma. Consistia em quem (sempre os mesmos) tinha convite entrar normalmente, dando um jeito de não entregá-lo, ou de surrupiá-lo ou ainda de enrolar o porteiro com uma boa conversa (uma irmã que tinha perdido o seu estava chorando, e assim por diante). O Rio de Janeiro era de amizade, paz e amor, além de todos se conhecerm e de haver respeito. O comportamento era impecável, mas as gafes muitas; por exemplo: reclamar de algo da festa (demora em passar um garçom...) e estar falando com o dono da casa, roupas iguais, ficar bêbado e ser posto para fora (o que era terrível, pois representava não conseguir convite para outras festas até ser esquecido o fato) etc. No dia seguinte, na turma, o papo era só sobre a festa. E o fim desta era sensacional. Além da demora no local, buscando aproveitar tudo até o fim, sempre bebendo e comendo mais um pouco, a volta para casa era a pé, às vezes longe mesmo, ou de espera pelo início da circulação dos bondes. Tinha de se carregar os bebuns - sempre missão minha, pois eu não bebia - e íamos cantando pelas ruas, sendo o terror dos guardas noturnos (corporação particular fardada e desarmada, paga pelos moradores das ruas para assegurar o silêncio, e não atuar contra a violência, praticamente inexistente então), que nos conheciam e nos acompanhavam pedindo que não fizéssemos esporro. Para completar, trocávamos os pães e o leite que os entregadores colocavam nas portas das residências, ou alguns mais saídos bebiam o leite ou pegavam um pão. Ou seja, às noites de sábado eram o terror dos moradores. Não fui a muitas dessas festas e repassava meus convites, já que eu estava muito envolvido com esportes, em especial o futebol, e normalmente tinha de jogar na manhã de domingo. Só ia quando não havia jogo ou nos meses de recesso, partes de dezembro, janeiro e fevereiro, até o carnaval. Com isso, não aprendi a beber e a fumar. Madeira
Bailão no Tijuca Tênis Clube!
sexta-feira, 4 de abril de 2008
madeira-vivencias-cronológica (1956/1)
1956: o tempo passou rápido e eis-me no científico... Dezesseis anos, e tendo que me preocupar com a escolha da profissão, além de estudar mais ainda... O Externato São José torna-se mais moderno e abandona o fardamento completo (cáqui, com paletó), adotando um modelo mais condizente com o verão carioca: calça e camisa, ainda cáqui, com um bordado em seu bolso, e as letras S e J entrelaçadas. A pasta escolar, no entanto, continua imensa, um trambolho para comportar os livros e cadernos de seis disciplinas diferentes, diariamente. A vida começa a se transformar. Muito estudo no qual me fodo: química, física, álgebra, geometria... Por favor, devolvam-me o português, a história, a geografia e o latim de todo dia; preferia mesmo, ainda que houvesse o pé no saco do canto orfeônico, das artes manuais e do desenho. No esporte, o Confiança resolveu disputar o campeonato carioca infanto-juvenil (até dezessete anos; o juvenil era dos dezoito aos vinte e um), e foi uma euforia. Jogar, em turno e returno, contra Fluminense, Flamengo, Botafogo, Vasco, América e os nossos do Departamento Autônomo, divisão amadora (Maravilha de Quintino, Campo Grande, Oitis de Bangu, Atília de Santo Cristo e outros) foi uma sensação indescrítivel. Na nossa chave dos grandes caiu o Flamengo, e assim joguei na Gávea. Classificava-se para as finais o primeiro colocado de cada chave (eram seis chaves de quatro), e classificou-se o Flamengo, já com sacanagem na época, pois depois descobriu-se que o zagueiro central deles, de nome Wantuil, era gato, ou seja, tinha idade superior e jogava com documentos falsificados; mas isso foi bem depois e já tinha acabado o campeonato, que foi ganho pelo Botafogo. Na nossa chave fomos os segundos, atrás do Flamengo, tendo empatado um jogo com eles de 0x0 e perdido outro de 3x0. Mas foi muito bom. Súmula, ingresso pago, foguetório, juiz da federação, bandeirinhas e eu fui muito bem, goleiro e capitão do time, o que valeu um convite para disputar, no ano seguinte, o campeonato carioca de juvenis pela Portuguesa do Rio. Fora isto, jogava o campeonato carioca de futebol de salão, ainda com a bola de serragem, pela Atlética Carioca, às segundas e sextas à noite, e toma de viagens e jogos. Nossa série era a H, composta de times da zona norte do Rio: Maxwell, Raio de Sol (onde o goleiro do time principal era o - depois - comentarista Washington Rodrigues), Vila Isabel (então, a maior potência), Macabi (time da colônia israelita), Minerva, Montanha e América, entre outros, em um total de doze. Neste ficamos em terceiro lugar e não nos classificamos, pois entravam apenas os dois primeiros, mas disputamos bem e valeu. Havia ainda o time do Colégio São José, onde eu era o titular do time principal, e às vezes excursionávamos para jogar com outros colégios (principalmente com o Internato São José - perdíamos sempre, pois os internos só faziam tocar punheta e jogar bola diariamente). Namoros comiam solto, e as árvores que ficavam no escurinho, longe dos postes de luz ou ensombreadas, sofriam com o rala-rala. As brincadeiras de rua escassearam e foram substituídas por bailes de quinze anos (festas que todos as famílias tijucanas e cariocas ofereciam quando as filhas comemoravam essa idade), idas à zona do baixo meretrício, no Mangue (ainda não existia a aids, o máximo era a gonorréia, que com uma injeção de penicilina nas nádegas estava curada), ao Maracanã, à praia (de lotação, em Copacabana, nas férias e feriados), à Praça Quinze para comer o angu do Gomes, à Quinta da Boa Vista, muito cinema e muita conversa na esquina, em um bar próximo desta, de um português (certamente Man(o)el ou Joaquim, na esquina da José Higino com a Conde de Bonfim, que chamávamos de Elba, por ser o nome da padaria que tinham aberto nessa esquina). Neste, quando dava a dor de corno (algum namoro terminado), em qualquer dos colegas, todos tomávamos um samba em Berlim (cachaça com coca-cola), e quando tínhamos mais um pouquinho de dinheiro rolava o primo rico dessa mistura, a cuba libre (rum com coca-cola), ou então um HI-FI(vodka com crush) ou tequila com soda; enfim, qualquer coisa que tivesse álcool e os machos sentissem alguma coisa diferente. Era uma dose, às vezes dividida por dois (dada a falta de dinheiro), e acompanhada por um sanduíche de pernil ou de mortadela, ou ainda por uns ovos cozidos coloridos (de todas as cores, e eram bem chamativos). Meu irmão Sidônio, já casado, eu via de vez em quando. Meu pai na vida de sempre, de muito trabalho, mas mantendo a obrigação das refeições em família, devendo haver uma boa justificativa para qualquer ausência. E minha mãe cuidando da casa e vivendo na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, na Conde de Bonfim, em frente ao Tijuca Tênis Clube. Madeira
quinta-feira, 3 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1955/6)
Bondes no Alto da Boa Vista
1955: as brincadeiras de rua (literalmente, pois eram no meio da rua José Higino, onde passavam raros carros) consistiam em - os meninos - brincar de: carniça (um era a carniça e ficava curvado, com as mãos nos joelhos, e o mestre -sorteado, assim como o carniça - dava as ordens para os demais, que pulavam o coitado cumprindo as suas determinações; por exemplo: escrever uma carta, na qual, após pular, enfiava-se o dedo no rabo do carniça para molhar a caneta-tinteiro, e fingia-se escrever em cima das costas deste, e quem não conseguisse pular passava a ser o carniça; portanto, uma brincadeira que era o terror dos baixinhos); salto em distância; salto em altura; corrida; e, finalmente, resistência (quem conseguia ficar mais tempo em alguma situação difícil; por exemplo: pendurar-se em um galho de árvore). Com as meninas as brincadeiras eram, basicamente, de: pique; pique-bandeira (dividia-se o pessoal em dois grupos, demarcavam-se os territórios e, ao fim de cada um destes, colocava-se a bandeira de seu dono, bandeira esta que podia ser um galho de árvore, um pano ou uma camisa, e ganhava quem conseguisse entrar no território do outro e capturar a bandeira inimiga, voltando com ela para o seu território; seria colado quem fosse pego no território alheio, e só poderia ser descolado por um colega). Jogos existiam muitos, tais como: bola de gude (fui bom), soltar pipa e peão (fui muito ruim), bola de meia, ping-pong (fui bom)... Outras diversões eram: pegar frutas dos quintais e terrenos baldios (muitas vezes terminavam em correria nossa, dos donos ou de cachorros brabos), e as frutas mais comuns eram carambola, manga, goiaba, abio(frutinha amarela e doce), andar de bicicleta em grupo (chegamos a fazer, na época sem riscos, a volta do Rio de Janeiro, subindo pelo Alto da Boa Vista e descendo pelo Joá, voltando por Copacabana e pelo centro até chegar em casa, já de noite - levamos umas oito horas na aventura), ir, de bonde, jogar bola nos gramados do Alto da Boa Vista ou da Quinta da Boa Vista, onde também íamos andar de pedalinho, ir ao Maracanã, às quartas e quintas (de noite) e aos sábados e domingos (às tardes) ver qualquer jogo e comer um cachorro quente da Geneal, acompanhado de um mate-leão, ir ao cinema na Praça Saens Peña e depois tomar um sunday no Palheta, fazer excursões pelo leito do rio Maracanã, que era pedregoso e andávamos pulando de pedra em pedra, namorar muito... Muita diversão - sempre depois de fazer as obrigações escolares, pois os pais fiscalizavam e cobravam (quando algum colega não aparecia, sabíamos que estava agarrado pelas falhas no estudo) -, e todas ao ar livre, com esforço físico, com união, companheirismo, amizade, sem crocodilagens ou enganações. O dinheiro para tudo isso vinha das mesadas e das economias (ir andando para o colégio ou para o Maracanã, não comer merenda ou fazer vaquinhas, onde juntava-se dinheiro e pagava-se a despesa de quem estivesse duro ou fosse menos abonado), além de que não havia inflação (durante toda a minha adolescência paguei meia nos cinemas da Saens Peña, sempre no mesmo valor: quatro cruzeiros e dez centavos). Ah!, havia uma brincadeira sacana, que foi abandonada quando perdemos o dinheiro, e que consistia em, de noite, amarrar uma nota de valor atraente, uns vinte cruzeiros, a uma linha, e colocá-la do outro lado da rua, em um lugar pouco iluminado; muitas pessoas viam e se abaixavam para pegá-la, momento em quê, escondidos, puxávamos a linha e a nota vinha para nossas mãos, deixando o envolvido embasbacado. Bem, um cara grande e forte, que viu ou já conhecia a brincadeira, veio e pisou na linha, pegando a nota. Fomos a ele pedi-la de volta, com as nossas desculpas, e tivemos de correr para não levar uns tapas. Madeira
quarta-feira, 2 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1955/5)
Nos campos de várzea do Rio de Janeiro, as peladas de complexidade shakespeariana que fascinavam Nelson Rodrigues...
1955: as molecagens de rua consistiam em muitas peladas (jogos de futebol com qualquer número par de jogadores, desde dois contra dois até quinze contra quinze, com balizas improvisadas a partir de duas árvores ou pedras, e jogados com o número de gols necessário para sair o vencedor - normalmente, dez tentos fechavam uma partida) no meio da rua José Higino. À época passavam pouquíssimos carros pelas ruas do Rio, principalmente nas horas ususais de trabalho, e nesta ocasião quem via o carro primeiro gritava parábola, que significava pára a bola, e então o jogador que estava com a bola nos pés parava onde estivesse (se não o fizesse, perdia a posse de bola, que ia para o goleiro do outro time), até o carro passar, ocasião em que voltava a correr o jogo. Não havia juiz e sim muito choro e roubalheira, tudo depois sempre pacificado, pois a finalidade era jogar bola. Quando a bola passava por cima da pedra (ou o similar que fosse a baliza), era marcado o tiro de meta. Sempre tinha goleiro (uma das maldições do futebol moderno é o golzinho, aquela bosta que inventaram para quando ninguém quer ir para o gol, e que diminuiu a quantidade de bons chutadores no nosso futebol, valorizando os dribladores e corredores), que era escolhido no par ou ímpar inicial, e era goleiro porque gostava mesmo ou era muito ruim pra jogar na linha. A bola era comprada através de vaquinha ou ganha por algum peladeiro em aniversário. Vidraças eram quebradas e sempre nos safávamos, pois éramos garotos do bairro, conhecidos de todos e filhos de famílias. Como as peladas eram diárias e, nas férias, de manhã, à tarde e à noite, os participantes muitos e sem faltosos, resolvemos construir campos em terrenos baldios, que eram numerosos à época. Assim construímos um em um grande terreno, ao lado da igreja católica maronita (libanesa), que dava frente para a rua Conde de Bonfim, a principal, onde passavam os bondes, e fundos para a vila nº 270 da José Higino, onde moravam vários da turma e que acessávamos pulando um muro. Vilas eram comuns no Rio, e possuíam uma entrada larga de pedestres, com casas dos dois lados, sem preocupação com garagens, pois poucos, muito poucos tinham carro. A locomoção era a pé para os locais próximos, e de bonde para o trabalho e para as compras (tinha até um bonde de bagagens e compras de atacado, o chamado taioba, assim batizado porquê, quando criado, carregava grandes quantidades desse vegetal, e não tinha bancos nem era fechado), mais o táxi para festas ou quando se estava mais arrumado, táxi que tinha ponto nas esquinas das ruas maiores e ponto de telefone para ser chamado, sendo todos os taxistas conhecidos e amigos das famílias. O Rio de Janeiro era, nos bairros, das grandes famílias. A construção do campo consistiu em delimitá-lo na maior área possível de ser limpa (dava para oito ou nove jogadores para cada lado), tirando-se todos os arbustos e pedras, ficando apenas a terra, e fazendo as balizas em tamanho proporcional, mas sem redes (e aí dava confusão, às vezes, sobre se tinha ou não entrado a bola no gol). O campinho era marcado com cal (a famosa vaquinha dava o suficiente para comprarmos cal e o marcarmos todo) e jogava-se de tênis (conga ou quedes, tênis de laterais altas) ou descalço, mas ainda sem juiz. O campo, que durou alguns anos, foi batizado de abacaterol, porque atrás de um dos gols havia abacateiros e os grossos sempre acertavam as árvores e derrubavam abacates (quando maduros). Depois de algum tempo, até jogos contra times de outras ruas ocorreram. Madeira
terça-feira, 1 de abril de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1955/4)

Aprontei foi muito nessa rua...
1955: este ano foi de muita molecagem, no colégio e nas ruas da Tijuca. No São José era comum prepararmos rabos de papel para colocá-los nos colegas, que, ao dirigirem-se à frente da sala para a apresentação de trabalhos ou para as provas orais, desfilavam belas e por vezes coloridas rabiolas, tornando-os hilários. Também era comum colar papéis nas costas do colega, ao abraçá-lo, com dizeres tipo Dê-me um tapa ou Sou burro, e a partir daí o infeliz era, no recreio, enchido de porrada. De minha parte, minhas principais performances, aquelas que renderam castigos de escrever linhas ou ficar depois da saída, de pé, no pátio, segurando uma árvore, ou seja, de frente para a mesma, foram, respectivamente e pela ordem de grandeza, levar uma galinha (surrupiada, na hora do recreio, do galinheiro dos maristas, que ficava ao lado da minha sala de então) e, na hora do terço, liberar o bico da mesma, que no meio da ave-maria cacarejava. O professor tinha que continuar a reza, e fingia ignorar o som, no que eu apertava de novo o bico da mesma, que se calava. Foi uma loucura, um terço que, certamente para a Igreja Católica, não valeu, e, para mim, rendeu uma suspensão e uma bela surra em casa - e mais uma perda de pontos junto à Igreja, pois, como sempre, ao fim dos risos dos moleques da sala (o pessoal do futebol) e da reprovação dos carolas, eu me acusei, pois não aceitaria de jeito nenhum que os demais levassem esporro do professor, ou que fosse aplicado um castigo coletivo. Aliás, esse tipo de castigo valeu uma ida de meu pai ao colégio, uma das pouquíssimas visitas suas, pois em certa aula chata, quando o irmão marista e professor escrevia no quadro, jogaram uma bolinha na cabeça de um dos beatos (os cdf´s), sentado à frente (incrivelmente, não fui eu), e acertaram os pés do professor; este se virou e exigiu que o autor se identificasse, mas este não apareceu. O professor então disse que ia punir a sala toda. Levantei-me e falei que não aceitava isso, que não cumpriria de forma nenhuma qualquer punição coletiva que eu não merecesse. Resultado: fora de classe e suspensão. Ao chegar em casa e relatar isso ao meu pai, ele não aceitou e foi ao colégio comigo, esculachando o reitor e exigindo que fosse anulada a punição, com a minha volta às aulas - e assim foi feito. Era um Pai e tanto, acima de tudo justo, e um exemplo de comportamento... A segunda grande performance foi a de puxar o gancho que segurava a cortina de lona da sala, e com isso a mesma desenrolou-se; como havia uma grande ripa em sua base, para evitar que o vento a fizesse oscilar, caiu fazendo um barulho infernal, assustando a todos e, em especial, ao professor. Havia, nas salas, um grande comércio de troca de linhas. Um dos castigos mais comuns era escrever uma grande quantidade de linhas, repetidas vezes, dizendo o que não devíamos fazer, tipo não devo falar em sala de aula, não devo correr no recreio e assim por diante. O mínimo era de cem linhas, e eram cumulativas, ou seja, a cada nova falta o professor anotava no seu caderno de chamada a quantidade de linhas que o aluno indisciplinado devia. Ora, descobrimos que o professor não checava o total. Como ele sabia que uma página de caderno tinha 23 linhas e, portanto, cada folha 46 linhas, ele contava as folhas entregues e chegava ao total determinado, apagando a anotação feita do nome do devedor e do total entregue. Nós, por outro lado, não contávamos as linhas escritas e saíamos escrevendo nas aulas chatas (antecipadamente, pois sabíamos que seríamos pegos em falta em algum momento), e assim tínhamos sempre um estoque pronto de linhas. Quando alguém tinha de entregar as linhas e não tinha o total da punição pronto, um colega cedia as linhas dele, que depois eram devolvidas e colocadas no meio das do autor - e entregues, e tudo estava bem. Creio que os irmãos sabiam disso e não se importavam, pois nunca houve uma devolução de linhas de terceiros... Madeira
quarta-feira, 26 de março de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1955/3)
Auditório da Rádio Nacional
1955: com os estudos correndo tranquilamente e o futebol dominando a prática esportiva, o lazer ficava para as reuniões e brincadeiras da turma de rua. O Rio antigo tinha a característica de, certamente por ser pequeno e familiar, agrupar as pessoas pela proximidade das residências. Era comum todos nas ruas conhecerem-se uns aos outros, cumprimentarem-se, auxiliarem-se; as pessoas se sentavam às noites nas portas das casas para conversar, esperando o sorveteiro passar com deliciosos sorvetes caseiros, estes carregados às costas. O sorveteiro da nossa rua era de dia entregador de pão da padaria, e à noite vendia o sorvete feito por ele - daí o sorvete ser conhecido como o sorvete Laís, nome da padaria de meu pai, que porém nada tinha com o sorvete. Pela madrugada, os fregueses que pediam tinham na porta de sua casa a quantidade de pães e o litro de leite desejados, tudo anotado na caderneta do entregador e pago no fim do mês. Cada rua tinha uma carrocinha abastecida de pão e leite, que fazia normalmente seu itinerário e que possuía um número só seu. A Laís tinha seis carrocinhas e seis linhas. Quem precisasse comprar mais leite o fazia nas vacas-leiteiras, denominação de grandes tonéis de latão puxados por burros e conduzidos pelo leiteiro, que vendia o leite aos clientes em vasilhas de vidro do próprio freguês, nas quantidades que davam nas mesmas, normalmente um ou dois litros. Da mesma forma, os fregueses habituais não levavam o dinheiro durante o dia ao ir comprar algo no comércio do bairro. Era tudo anotado em grandes cadernos de capa dura, com a quitação no fim do mês. A faina de fazer o pão, entregue a padeiros e auxiliares, começava por volta das onze horas, com o aquecimento do forno à lenha. Enquanto o forno esquentava, os padeiros e auxiliares preparavam a farinha em grandes panelas, adicionando trigo, manteiga, sal, água e fermento nas quantidades apropriadas. Os doceiros preparavam os pães doces, os bolos e biscoitos de toda ordem. Pouquíssima coisa era industrializada ou comprada pronta. Prontos somente os refrigerantes e as balas, além das conservas em lata vendidas nas padarias e os frios (mortadela, presunto e queijos). Muitas vezes faltava o padeiro ou um auxiliar, meu pai era acordado (morávamos em cima da padaria) e lá ia ele fazer o pão, pois antes de ser o dono foi por muitos anos padeiro de ofício. A noite acordada não modificava os hábitos de meu pai, que no dia seguinte, às sete horas, abria as portas de ferro de correr para estar à frente dos negócios, tratando a todos com educação. O comércio então fechava para almoço, das doze às quatorze horas, e o nosso almoço era obrigatoriamente com todos juntos e, portanto, ao mesmo tempo, ocasião em que conversávamos sobre o dia e assuntos familiares. Notícias só as dos jornais, lidos diariamente por nós todos e que eram, à época, separados em matutinos (líamos, bem cedo, o Diário Carioca) e vespertinos (líamos, à noite, O Globo). TV não existia e rádio só para programas jornalísticos, dentre estes o Repórter Esso, da Rádio Nacional, o melhor em novidades. Também eram ouvidos futebol, novela e programas humorísticos, as outras atrações das rádios, dominadas pelas Rádios Nacional, Globo e Tupi. Os programas de humor mais famosos eram o Balança mas não cai e o PRK-30. Bom, depois do almoço meu pai pegava a jornada da tarde, que ia direto até às vinte e duas horas, quando então fechava a padaria. Algumas vezes eu ajudava lá, mas na verdade ia mais para pegar balas, doces e refrigerantes. À noite o lanche era de fartos sanduíches de presunto, com guaraná Antarctica ou Brahma. A Coca-Cola era então uma insurgente. Eu, às tardes e noites, após fazer todos os deveres de casa, ia me encontrar com a minha turma, a turma da rua José Higino. Madeira
terça-feira, 25 de março de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1955/2)
A saudosa fábrica de tecidos de minha adolescência...
1955: com a independência e o meu amor pelos esportes, veio a grande novidade, que foi passar a fazer parte de times organizados, com inscrição em federações e disputa de campeonatos oficiais, não mais somente no colégio, nas equipes da sala, nos inter-classes e em competições escolares, nos inter-colegiais. O futebol de salão engatinhava, com uma bola pesadíssima, cheia de serragem, e não valia gol feito de dentro da área; as faltas só podiam ser cobradas diretamente a partir de seu campo de defesa, e isso não era atraente porque facilitava o controle da bola pelos grossos, dificultando a prática da arte futebolística. Comecei pelo futebol a minha carreira amadora de esportista. Próximo de casa, coisa de uns dois quilômetros, havia um clube de uma fábrica de tecidos (com a companhia da Bangu, a maior do Rio de Janeiro), o Confiança Atlético Clube, com sede e campo próprios, tricolor (verde, vermelho e preto) que tinha times infanto, juvenil (jogavam nos domingos pela manhã), amadores, aspirantes e principal (jogavam nos domingos à tarde), e eu já tinha ido lá ver jogos em dezembro, janeiro e fevereiro, época em que o Maracanã e o futebol profissional estavam de férias. Clube de gente simples (mas respeitadora, operários fabris de Vila Isabel), de que aprendi a gostar e a ele me dediquei. Resolvi experimentar então um campo oficial e jogos com juiz, súmula, etc... No Marista eu jogava no gol ou de beque, conforme a vontade. No Confiança, ao ver o tamanho do campo e face ao prazer de ser um estraga-prazeres (evitar um gol é um orgasmo tão grande quanto fazê-lo), apresentei-me para o teste como goleiro, e no primeiro treino fui convocado para o time infanto, que era da idade dos quinze aos dezoito anos. Daí à titularidade, e a ser capitão do time (e ídolo da torcida feminina, principalmente), foi rápido. Afinal, eu era um dos poucos com todos os dentes, louro, alto para a idade, gestos finos, e que chegava para treinar de sapatos, mais outros quesitos que me tornavam diferente dos demais. Às quintas-feiras à tarde, às dezesseis horas, tínhamos o treino individual e depois o coletivo, e aos domingos pela manhã jogávamos às oito e meia, antes do juvenil (que entrava por volta das dez e meia). O técnico, um empregado da fábrica, era o Duca, um crioulo simpático e muito esperto, respeitador, amigo e disciplinador, e todos o obedeciam, visando a titularidade. Eu tinha missa no colégio às sete horas e era uma correria, pois saía mais cedo escondido, pegava a caderneta com o colega que as detivesse e ia pro bonde correndo pra jogar; era complicado, mas sempre deu certo. No Confiança tínhamos todo o material, que era cuidado pelo Seu Almeida, roupeiro e zelador, aposentado da fábrica que morava em um canto do campo com a família, em uma casinha. Seu Almeida era grande, forte e muito grosseiro, mas sempre tive um excelente relacionamento com ele, pois o tratava muito bem. Valeu Confiança, onde aprendi a ter confiança em mim, em um ambiente novo e de um nível diferente, nível ao qual me adaptei, pois nunca tive frescuras; valeu Confiança, onde também aprendi a competir, buscando com denodo a vitória, e tendo como troco apenas um sabor, sem qualquer outra compensação: o sabor da missão cumprida com sucesso. Madeira
segunda-feira, 24 de março de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1955/1)
Com essa magrelona caí no mundo e aprontei um bocado!
1955: este foi um ano totalmente novo para mim. Em outubro de 1954 fiz quinze anos, e meu pai, dentro de seu pragmatismo, chamou-me e disse que acreditava que eu já tinha aprendido os comportamentos corretos de um homem, que saberia respeitar os outros, minhas obrigações de estudo, meus horários, e me autorizou a ter amigos, a sair só, inclusive às noites; deu-me cópia das chaves de casa e uma pequena mesada (eu efetivamente não precisava de nada, face a ter tudo com que uma criança ou adolescente precisasse gastar dinheiro, na padaria dele, a mão, e sem restrições). Com isso, caí no mundo, mas sabendo que se errasse ia receber a compensação de uma surra homérica. Os erros consideravam-se aí ele saber de comportamentos irregulares por algum freguês da Padaria, más notas no colégio, perda dos horários de refeição ou algo que eu deveria ter feito e de que me esquecera. Meu pai era muito querido pelos clientes, por sua honestidade e fino trato, e com isso tinha uma rede de informantes e tanto. Para aumentar a minha autonomia, ganhei uma bicicleta Monark, azul, pesada, com pneu balão e freio contrapedal. Virei dono do mundo e aprontei todas, mas com o máximo de cuidado para não contrariar as regras do jogo, ou a pancada comeria no meu lombo. Então surgiu definitivamente a paixão por esportes terrestres, em especial o futebol, mas sempre também participando de times de vôlei, basquete, atletismo e ciclismo, já não só no Marista, mas também nos times da rua e do bairro. Também começou a fase do namoro e era muito bom. 1955 foi, portanto, o início da vida de responsabilidades: estudar, aprender, me divertir, mas tudo com objetivos sadios e com obrigações de horários e de fazer o correto, o que me serviu de norte para o resto da vida. Madeira
quarta-feira, 19 de março de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1951/54)
1951/54: de 51 até 54 a vida seguiu no mesmo diapasão. Durante o ano escolar, pelas manhãs aula no Externato São José, às tardes estudo (deveres de casa) e às noites escutar rádio, sem nunca perder dois seriados de aventuras, que eram Jerônimo, o herói do sertão (aventuras de um justiceiro no interior do Brasil), e o Anjo, um detetive que desvendava casos policiais. Brincadeiras, apenas dentro de casa, quando jogava botão comigo mesmo, ídem na bola de gude e, quando vinha algum parente ou amigo nos finais de semana, brincava com eles de pique, esconde-esconde e carniça. Dormia cedo, porque fazia bem à saúde (leia-se ordens paternas), e acordava cedo para tomar café e ir para o colégio. Nas férias, só não piorava (face a não ter aulas pelas manhãs) porque aparecia o meu salva-vidas Sidônio, meu irmão. Com ele eu descolava uma praia, Maracanã (neste eu ia aos domingos com meu padrinho Arthur, depois dos almoços dominicais), um filme, um passeio; as férias, graças ao Sidônio, eram uma maravilha. Aos sábados e domingos existiam as visitas aos parentes e amigos, e com isso eram dias mais movimentados. Meu pai tinha a filosofia de que a rua era para homem, para quem pudesse assumir a responsabilidade pelos seus atos, e que lugar de criança era em casa, estudando ou brincando - mas em casa. No colégio, tudo ia bem no quesito aprendizagem. Nunca fui primeiro colocado, mas nunca estive, em turmas de quarenta alunos, atrás do décimo (minha pior colocação), sempre ficando, mês a mês, em quarto, quinto lugar. Nunca fui primeiro não só por não me matar de estudar (quando achava que já sabia, parava de estudar), mas também porque eu - assim como meus pais - nunca babei o ovo dos maristas, o que certamente (hoje tenho essa certeza) ajudava em alguns quesitos nos conselhos de classe. Quanto à disciplina, meu nome pouquíssimas vezes apareceu no chamado quadro de honra, que indicava os modelos de alunos. Eu vivia brigando com os professores (todos, menos um de geografia, o professor Tarlé, eram irmãos maristas), tanto pelas obrigações, naquela época já retrógradas, como por ser alterado (hoje os médicos chamariam de hiperatividade; naquele tempo, diziam simplesmente que eu tinha o bicho-carpinteiro). Brigava, e muito bem, e não tinha medo de nada, nem de professor, desde que eu estivesse com a razão; defendia os mais fracos, sempre que sacaneados, e com isso vivia escrevendo linhas, ou ficando, após as aulas, durante uma hora virado para uma árvore, de castigo. Tudo leve, tanto que só uma vez fui suspenso. Com a descoberta do futebol, comecei a jogar pelo time da sala nos campeonatos internos, no campinho de terra de sete contra sete, e sempre capitaneei os times das turmas pelas quais joguei. Eram três salas, letras A, B e C, com às vezes até quatro salas por ano - entrando aí, pois, a D. O Externato era um dos melhores colégios do Rio, procuradíssimo. As turmas não se repetiam, eram compostas aleatoriamente (julgo que pela ordem de matrícula, mas pela letra inicial do nome), e com isso tínhamos muito esporte, com um torneio em cada semestre, e vários esportes terrestres: futebol, basquete, vôlei e atletismo. Por isso, nunca pratiquei esportes aquáticos, e hoje todas as juntas doem. Essa foi a minha vida entre 51 e 54. Madeira
terça-feira, 18 de março de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1951/3)
Maracanã, anos 50
1951: ainda sobre os meus primeiros contatos com a segunda paixão do brasileiro (a primeira, exceto para alguns, o que é bom pois sobra mais mulher por metro quadrado, é o sexo feminino), o futebol. Lembro que não existia propaganda nas camisas. A propaganda limitava-se às placas móveis, nas laterais do Maracanã e em lugares pré-determinados nos demais estádios, sempre sem ter mais relevo que as cores do clube. Torcidas organizadas, nos moldes atuais, verdadeiros bandos ensandecidos, a maioria mantida por dirigentes desonestos, para fins eleitorais no clube ou na política, também não existiam. Havia torcidas uniformizadas que se reuniam dentro dos estádios, em lugares marcados pela tradição (à direita ou à esquerda das cabines de rádio), e que tinham charangas, bandinhas que tocavam músicas de carnaval ou o hino do clube. Famílias iam completas ao campo, sem qualquer problema, e era possível parar o carro nas imediações, sem maiores riscos. Assistia-se ao jogo, salvo na área das uniformizadas, com a camisa de seu clube, misturado a torcedores de outros times, com suas camisas, sem brigas. Estas eram raríssimas, mas as gozações já eram ferozes. Havia uma prática, bem carioca, que era o bolo: alguém escrevia em pedaços de papel o nome dos atacantes dos dois times, e pagava, quem queria concorrer, uma quantia combinada (cinco reais de hoje, digamos, pela aquisição de um nome); ganhava o montante arrecadado aquele que estivesse com o papel com o número da camisa do autor do primeiro gol. Não valia gol de penalty, nem de defensor. Caso algo assim ocorresse, ficava valendo para o gol a seguir. Este era o bolo do jogo. Se a partida terminasse no zero a zero, devolvia-se o dinheiro, ou, se os apostadores se conhecessem, acumulava-se o total para o jogo seguinte. Havia também o bolo da rodada, feito durante a semana, e no qual se apostava o resultado dos jogos, ganhando aquele que fizesse mais pontos. Exemplo: acerto do placar, cinco pontos; do resultado, sem acertar o escore, mas dizendo que seria empate ou quem seria o vitorioso, três pontos; acerto dos gols de um dos times, dois pontos; e assim chegava-se a quem ganhava, que era quem tivesse feito mais pontos. Eram os bolos da semana. Destes costumes é que a Caixa Econômica tirou a idéía da loteria esportiva. A temporada tinha início com um torneio municipal, sempre após o carnaval, que era um mini-campeonato entre os clubes grandes, para mostrar contratações etc. Este foi depois extinto. A seguir, no Rio, vinha um torneio muito importante, que era um legítimo campeonato brasileiro, face ao poderio futebolístico estar concentrado nessas áreas, que era o Rio X São Paulo, disputado apenas pelos grandes clubes, bases da seleção brasileira (nunca antes do Maracanã um jogador de outro estado foi convocado para a seleção), ou seja: Flu, Fla, Vasco, Botafogo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Portuguesa de Desportos. O Santos ainda era um clube pequeno (pré-Pelé), e o América não tinha torcida, mas depois ambos foram incorporados a este torneio. O campeonato regional, o da capital federal, começava no meio do ano, pois após o Rio X São Paulo todos os grandes clubes iam excursionar pela Europa, pelo México, pela Argentina, pelo Uruguai... Enfim, por centros afamados e que rendiam bons contratos, mais uma fonte de renda, enquanto que a seleção brasileira disputava copas com os países da América do Sul, como a Copa Roca, com a Argentina, e a O´Higgins, com o Chile, ou de dois em dois anos o campeonato sul-americano, intercalado com o pan-americano. Madeira
segunda-feira, 17 de março de 2008
vivencias-madeira-cronologica (1951/2)
Flu 51 - uma boa idéia
1951: este foi um ano especial para mim, pois foi o de introdução ao Maracanã... Antes, nunca havia visto uma partida de futebol, pois meu pai não gostava (dizia que futebol não dava camisa a ninguém, e de fato, à época, não dava mesmo). No colégio em que fiz o primário, a atividade física era a ginástica calistênica (um tipo de exercício leve, baseado na movimentação de braços e pernas), e nada mais. Em Portugal, nem pensar em futebol, pois então a bola portuguesa era bem quadrada. No Rio, capital federal, tínhamos cinco times grandes, ou seja, tradicionais: Fluminense, Flamengo, Vasco, Botafogo e América, basicamente clubes sociais e que representavam bairros, colônias ou grupos sociais. O Fluminense era sinônimo de zona sul (que terminava no Leblon, em termos de população) e de pessoas abastadas. O Flamengo era de pessoas mais pobres, principalmente negros e operários, que lotavam a geral, localidade nos campos mais barata, e na qual se via o jogo em pé. O Vasco era da colônia portuguesa, de adeptos do remo e de São Cristovão, bairro importante e rico então. O Botafogo, da classe média e também do pessoal mais abastado da zona sul. O América representava a Tijuca e bairros adjacentes, uma nova classe média que surgia ali. Todos tinham muitas atividades sociais, tais como bailes de debutantes, festas da primavera e bailes de carnaval, e disputavam, com times formados por associados, os campeonatos dos esportes de que os sócios mais gostassem, tipo vôlei, basquete, remo, atletismo e outros que fossem oferecidos pelas federações respectivas, e que eram verdadeiramente amadores (amavam as cores do time e as defendiam com ardor). Havia também os clubes dos subúrbios, pequenos pelo poder aquisitivo, pois as grandes fontes de arrecadação eram o quadro social e a renda dos jogos. Os clubes pequenos dividiam-se conforme a linha de trem que servia o local. Eram da Leopoldina (nome da companhia de trem que atendia a região), Olaria, Bonsucesso, Central (a principal, com mais subúrbios, e mais populosos) Madureira e Bangu. O São Cristóvão, que na década de 20 tinha sido grande e muito importante, já estava como pequeno. Os pequenos também sobreviviam das festas que promoviam. O campeonato era disputado em turno e returno, pelo sistema de todos contra todos, com jogos no turno no campo de um, e no returno no campo do outro. A sistemática de contagem de pontos era a de pontos perdidos, corridos, ou seja, não se ganhavam os pontos, tratava-se de não perdê-los. Derrota equivalia a perder dois pontos, e no empate cada um perdia um. Ao final do campeonato, o que tivesse menos pontos perdidos era o campeão. E, em 1951, a novidade era que os grandes podiam jogar no Maracanã ou em seu campo, mas no returno tinham de ir jogar no campo do pequeno, acanhado e com a torcida em cima. No campeonaro carioca de 1951 passei a freqüentar o Maracanã, nas tardes de domingo, e que era perto da casa do meu avô Madeira, coisa de mais ou menos um quilômetro, onde almoçavam em família todos os membros do clã Madeira, filhos e cônjuges. Era levado ao Maracanã pelo meu padrinho Arthur e pelo meu mano Sidônio, este quando no Rio, nos jogos do Fluminense, pois ambos eram tricolores - e o Fluminense foi o campeão carioca de 1951. Comecei bem. Madeira
domingo, 16 de março de 2008
vivencias-madeira-cronológica (1951/1)
1951: retorno de Portugal e novo modus-vivendi, totalmente diverso dos anos de primário e da vida de criança pequena. Meu pai de volta ao comando da Padaria Laís, à rua Antônio Basílio 198, esquina da rua José Higino, e nós morando em cima, com minha mãe entregue às tarefas domésticas, auxiliada por uma empregada, negra, alta, forte, chamada Dora, com um defeito em uma das pernas, que tornava difícil o seu andar (andava de bengala e se arrastando), que morava conosco, em um quarto imenso para os padrões atuais de dependências de empregada, e era tratada como alguém da família, efetivamente. Nas redondezas existiam alguns marcos, como um quartel do Corpo de Bombeiros em frente à Padaria, o rio Maracanã atrás do quartel e, do outro lado do rio, a fábrica de cerveja da Brahma, que balizava nossa vida, pois tocava o apito de início dos turnos de trabalho, pontualmente, às 06 e 45 (apresentação dos operários, para bater ponto e ingressar nas dependências da fábrica), às 7 horas (início dos trabalhos de fabricação, engarrafamento e distribuição), às 11 horas (parada para o almoço), às 12 horas (retorno pós-almoço) e às 16 horas (fim do dia de trabalho). Assim, todo o bairro e adjacências sabia que horas eram nos dias úteis. Vale lembrar que a Brahma era a única fabricante de cerveja no Rio, pois as outras existentes estavam em São Paulo (a Antártica Paulista) e em Petrópolis (a Itaipava). Nos estudos, após uma prova sobre os conteúdos das quatro séries primárias, basicamente um ditado, uma redação e questóes sobre as quatro operações, fui admitido no Externato São José, no admissão. Nessa época terminava-se o primário, e era necessário fazer um ano do denominado admissão, que era uma espécie de aprendizagem de transição entre o primário e o ginásio, e que visava preparar a criança para as novas dificuldades da aprendizagem: disciplinas mais complexas como latim, matemática, ciências, música, desenho e outras, com professores especialistas. Também me deparei com uma grande novidade, que era locomover-me só. O colégio ficava à rua Barão de Mesquita, 164, dois quilômetros distante de minha casa, e a ele eu chegava de bonde (o 64, Aldeia Campista, ou o 70, Andaraí), a partir do ponto em frente ao quartel da PE, Polícia do Exército, tropa de elite. Como era perto, sempre que podia eu saía mais cedo e ia a pé, para com o dinheiro do bonde tomar sorvete, única gulodice que não tinha na padaria de meu pai, sendo que às demais (bolos, biscoitos, doces, chocolates, balas) eu tinha livre acesso, pois meu pai nunca me proibiu de comer nada, apenas eu era obrigado a, nas horas das refeições, comer tudo que estava no prato (e minha mãe que colocava), não podendo deixar restos, estragar comida. Madeira
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